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À procura do melhor café do mundo

Nós lá fora

Casimiro Cavaco Dias

D.R.

JAMAICA, CARAÍBAS – Na procura do melhor café do mundo, descobrimos as Montanhas Azuis. O resultado é um aroma floral, denso em sabor e acidez suave. O melhor café é mais do que sabor e aroma intensos. O respeito pela natureza e pela humanidade aparece em cada chávena de café. É uma interpretação literal da geografia e da cultura da Jamaica. As Montanhas Azuis celebram a paisagem e névoa azul onde este café é cultivado

Na procura do melhor café do mundo, descobrimos as Montanhas Azuis,. A norte de Kingston, por entre a floresta tropical, passamos por várias fontes e cachoeiras para refrescar ao longo do nosso caminho. As Montanhas são marcadas não só pela sua natureza exuberante, mas pela riqueza das diferentes culturas que aí vivem. Passamos pelos territórios Maroon e por aldeias Rastafári ao longo do nosso caminho até ao topo das Montanhas. Aqui, os Rastaman são conhecidos por cultivarem o melhor café.

O café das Montanhas Azuis é dos mais procurados do mundo. É conhecido pela sua mistura de sabores, aroma e suavidade única.

Enquanto caminhamos lentamente através da bruma das montanhas, avistamos casas de concreto inacabadas. Não há sinais... O aroma rico e doce diz-nos que encontramos o que procurávamos. O cheiro de café torrado mistura-se com o aroma picante da madeira em chamas. Os nossos sentidos são automaticamente ativados por esta atmosfera aromática.

Mister James sai lentamente da casa onde se torra o café. Parece feliz em nos ver e com pressa para nos oferecer um café.

O café das Montanhas Azuis é cultivado numa pequena área da Jamaica em altitudes acima de 900 metros. Ao contrário da maioria da ilha da Jamaica, as Montanhas Azuis têm um microclima de temperaturas baixas. O fresco da névoa, a abundância de chuvas e o solo vulcânico conferem-lhe um sabor único.

A névoa azul das Montanhas faz o café tomar o seu próprio tempo. No ambiente húmido das Montanhas, os grãos de café levam duas vezes mais tempo para amadurecer do que em ambientes mais ensolarados. Isso, e o fato de que mais de 80% da produção é enviada exclusivamente para o Japão, tornam este café raro.

Este não é um local fácil para plantar café. O processo de cultivo e colheita é longo e árduo.

Mister James colhe sempre o café à mão, deixa os grãos a secar em tapetes bambu para depois torrar no seu forno de lenha. Não há máquinas nem produtos químicos. Para ele e para a cultura Rastafári, tudo deve ser feito à mão e de forma natural.

O resultado é um café de aroma floral, denso em sabor e com acidez suave. Intenso e complexo, com camadas de sabor cítrico e um toque forte de cacau.

Trouxe a minha chávena a fumegar para fora da casa, à procura do fresco da manhã, onde meia dúzia de amigos se reúnem à volta da mesa de madeira pintada com as cores rastafári: vermelho, verde e amarelo.

A dedicação de vida de Mister James em produzir o melhor café do mundo tem uma bênção especial. Porque é uma dedicação que vai muito além do café. Dedica-se a cuidar de todos nesta pequena comunidade perdida nas Montanhas Azuis.

Enquanto compreendemos os vários sabores e aromas que fumegam, percebemos que a grande diferença não está na nossa chávena de café. Está na forma como o café é criado pelo Mister James e esta pequena comunidade de agricultores até chegar até nós.

Para colocar as coisas em perspectiva, o café é um dos produtos mais comercializado, com mais de 160 milhões de sacas de 60 quilos produzidas anualmente. Responder a tanta procura não é fácil. Assim, os métodos agrícolas transformaram-se para maximizar a produção.

O café convencional está entre os produtos quimicamente mais tratados. Há uso intensivo de fertilizantes e pesticidas sintéticos, com impacto no ambiente, nas pessoas e comunidades.

Nas Montanhas Azuis não há fertilizantes sintéticos ou produtos químicos utilizados na produção de café. Os agricultores utilizam apenas fertilizantes orgânicos, como polpa de café e composto. O resultado é um ambiente mais limpo e saudável.

Por outro lado, o café cultivado é geralmente um híbrido desenvolvido para florescer em sol aberto. Apesar do café natural preferir sombra, a produção em florestas densas é muito mais limitada e difícil. Assim, as florestas são destruídas para dar espaço à produção de grandes quantidades de café. A produção aumenta, mas o ecossistema selvagem é extinto.

O ciclo torna-se rapidamente vicioso. Por um lado, os inibidores naturais de pragas, como pássaros e lagartos, perdem o seu habitat. E assim, acabamos por usar mais pesticidas. Por outro lado, sem o fertilizante natural desses ecossistemas, o uso de fertilizantes químicos aumenta continuamente. O resultado é um ciclo vicioso insustentável.

A maioria do café das Montanhas Azuis é cultivado de forma natural. Os grãos de café crescem na sombra da floresta exuberante, sustentam a fertilidade do solo e mantêm vivo o ecossistema único das Montanhas Azuis.

Aqui, o café é mais do que um intenso sabor e amora. É uma forma de vida dedicada a produzir o melhor, com o respeito pelas pessoas e o ambiente. Os pequenos produtores de café nas encostas íngremes das Montanhas Azuis têm uma compreensão ampla da unidade na Terra. Compreendem que a utilização de produtos químicos na terra, afetam tudo o resto, incluindo as pessoas, as comunidades e o ambiente. Acreditam que a terra e todas as pessoas são uma só.

O respeito pela natureza e pela humanidade é manifestado em cada chávena de café. O café é uma interpretação literal da incrível geografia e cultura da Jamaica. As Montanhas Azuis celebram a paisagem e a névoa azul onde este café é cultivado.

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Casimiro Cavaco Dias

Casimiro Cavaco Dias

BARBADOS, CARAÍBAS - Nasceu em Faro. Cedo, movido pela realização da saúde enquanto direito humano, viveu em Lisboa, Copenhaga, Washington DC, Luanda e nas Caraíbas. Especialista das Nações Unidas, apoia os Países em todo o Mundo a transformar sistemas e serviços de saúde mais inovadores, resilientes e sustentáveis. Entre a destruição dos furacões nas Caraíbas, os surtos de ébola e febre amarela na África, a crise dos refugiados na Europa ou a crise financeira dos Estados Unidos, a paixão e a criatividade das pessoas torna possível transformar e criar o futuro da saúde para todos. Autor do livro “O Valor da Inovação: Criar o futuro do Sistema de Saúde” e Prémio António Arnaut.