Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Silly season (I)

Nós lá fora

José Reis Santos

DEA / S. VANNINI/ Getty Images

Pouco depois de ter chegado a Budapest no Outono de 2010, durante o meu primeiro inverno, altura em que estava a considerar se ficaria mais um tempinho por aqui ou não, perguntava a muitos húngaros e estrangeiros instalados "que conceito de Verão se tinha por estas bandas". Ora a tal questão, em especial os locais, recebia como resposta "- ah e tal, temos aqui um lago, dos maiores da Europa, que funciona como o mar húngaro". E pertinho de Budapest, acrescentavam, sendo o seu ponto mais perto a cerca de 70km da capital. Enfim, distâncias à parte, e como bom alfacinha, sempre que me vinham com esta do lago, perguntava-me que raios fazem pessoas num tal espaço durante o verão. É que um lago não tem ondas. Nem água salgada. Ou mesmo areia. Estranhei tanto o conceito que quando decidi por-me à estrada e ver com in loco as opções de verão, aluguei um carro e fui até à Istria, passando sem parar pelo tal lago, Balaton de nome.

Na Istria encontrei-me, devo dizer. Tudo é mediterrâneo, azeite e vinho, zona de influência do tal império comercial veneziano que tentamos colocar (e conseguimos) fora de serviço nos séculos XV e XVI, quando decidimos ir diretamente à fonte (Índia) para servir a Europa de especiarias. Entre Trieste e Rijeka respira-se a nossa latinidade. Falo italiano em toda a parte (ou Istreze, para ser mais concreto), e a península parece-me uma perfeita combinação entre o Alentejo, no Sul, e a Toscana, no Norte; ou seja, planície e oliveira a Sul (Rijeka, Pula, Vodnjan, Barbariga, Bale), a Norte montanha e vinho (Motovun, Groznjan, Buje), e ao longo de toda a costa pequenas cidades-Estado incríveis, com destaque óbvio para Rovinj e Trieste, mas também Peroj, Porec, Umag, Novigrad, ou mesmo Koper ou Izola. E aqui o mar, mesmo que com ondas pequenas, e temperaturas elevadas, tem sal.

Depois desta viagem, que também me levou a Nova Gorica e Ljubljana, decidi ficar por estas bandas. Ok, não são as três horas que nos levam de Lisboa ao Algarve, mas ir de Budapest à Ístria não é muito diferente de quem sai do Porto para Sul. A diferença por aqui é que esses 700 – 800 km atravessam a Hungria, Eslovénia, Itália e Croácia, e as línguas e culturas de antigos estados multinacionais, nomeadamente o Império Austro-Húngaro e a Jugoslávia. É uma viagem bem gira, em especial depois de entrarmos na antiga Jugoslávia e nos perdermos nas suas Kafanas ou Koliba’s, excelentes tascas ou paraderos (à espanhola). É que me desculpem os meus amigos magiares, mas no que trata de comer bem, de saber onde anda um bom pitéu em qualquer lugar, tem ainda muito a aprender. Perguntem a qualquer português onde se come bem entre Lisboa e o Porto, ou até ao Algarve, e verão, com excessivo detalhe, no mínimo 7 opiniões bem formadas. Aqui pergunta-se onde picar entre Budapest e Gyor, e ainda espero que me identifiquem uma boa tasca. É tudo igual, dizem. E, na realidade, é.

Naturalmente que com o passar dos anos descobri que se podem fazer coisas em lagos. Já estive centenas de vezes no Balaton, em toda a sua circunferência e em todas as condições, incluindo a vez em que todo o lago gelou, e as pessoas, feitas Jesus, andavam e patinavam de costa a costa. Da mesma forma, descobri rios, parques e montanhas, e tantas outras formas alternativas à praia de se estar fora da intensidade urbana. A silly season por aqui tem mais opções.

(a continuar)

ASSINE POR UM ANO A VISÃO, VISÃO JÚNIOR, JL, EXAME OU EXAME INFORMÁTICA E OFERECEMOS-LHE 6 MESES GRÁTIS, NA VERSÃO IMPRESSA E/OU DIGITAL. Saiba mais aqui.

José Reis Santos

José Reis Santos

BUDAPESTE, HUNGRIA - Comparativista. Talvez seja esta a melhor forma de me descrever. Quer como historiador, cientista político ou sociólogo amador. Neste sentido, tendo vivido e investigado em Madrid, Bruxelas, Nova Iorque, Inglaterra e agora Budapeste, tenho procurado articular pontes e ligações entre a sociedade civil, académica e política, de forma a retirar destes mundos (tantas vezes isolados) pontos de convergência e de comunalidade. Estar em Budapeste tem-me permitido acrescentar mais um ponto de observação, este proveniente da Europa Central, aos fornecidos por alguns dos lugares pelos quais tenho passado, partindo sempre desse berço de cosmopolitismo que é a minha Lisboa. Vivemos num mundo complexo, cheio de nuances e particularidades, falsa informação e algoritmos condicionadores, gente doida e perigosa, cheia de verdades e factos-alternativos, novos nacionalismos e disrupções sistémicas. Assim, quando mais procurarmos retirar do contacto com outras culturas e gentes, da sua literatura, história ou gastronomia, mais capacitados nos encontramos para entender um pouco (mais) o que nos rodeia.