Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A caixa de surpresas de Macau

Nós lá fora

Filipa Araújo

Em Macau estamos a uma pessoa de outra pessoa. Se eu não conheço o meu amigo vai conhecer. É a rede social menos complexa de sempre. No entanto, nem tudo o que parece é

Não é o primeiro fenómeno que vos trago. Macau é assim. Cheia de fenómenos. Talvez seja isso que a diferencia de outras terras. Se nos humanos ninguém é igual, nas terras muito menos. Não há lugar algum como Macau.

Aos que não sabem, embora com uma densidade populacional elevada, Macau é uma terra pequena, com cerca de 33 km². A sua reduzida dimensão aliada ao comportamento afunilado das comunidades fazem com que a comunidade portuguesa se conheça toda. Pelo menos achamos nós, e é aqui que reside o fenómeno. Mas vamos por partes.

Primeiro ponto: não é errado dizer-se que em Macau todos os portugueses se conhecem. Aceitamos a generalização de braços abertos. Milgram, ao afirmar que estamos a seis graus de separação de alguém, é porque nunca estudou Macau. Em Macau estamos a uma pessoa de outra pessoa. Se eu não conheço o meu amigo vai conhecer. É a rede social menos complexa de sempre. No entanto, nem tudo o que parece é.

Segundo ponto: também não é errado afirmar que em Macau estamos sempre a conhecer pessoas novas. Acontece que – quase que podia dizer semanas, mas não vou abusar – todos os meses conheço pessoas novas. Ingenuamente a minha mente atribui o rótulo de “recém-chegada” à pessoa que acabo de conhecer. Como se eu, no alto dos meus cinco anos, dominasse o networking português do gueto.

De todas as vezes a minha boca abre-se de espanto. Esta nova pessoa tem os mesmos ou mais anos do que eu de Macau.

- Estou cá há 7 anos.

- Como assim? Ficaste este tempo todo trancado num armário?

- Nunca te vi por aqui…chegaste há quanto tempo?

- Estou cá há 12 anos.

Silêncio constrangedor.

Acreditem quando vos escrevo que é inexplicável. Frequentamos todos os mesmos sítios, vamos ao OTT, vamos à casa Garden, almoçamos no Clube Militar, no Santos ou no Cais 22. Andamos todos nos mesmos ginásios, já todos tentámos aprender chinês nos cursos da Fundação Rui Cunha ou da Casa de Portugal. Em última análise, vamos todos à Lusofonia. Mas todas as semanas, perdoem-me, meses, conhecemos novas pessoas.

Salvo erro – não se esqueçam que já conto com uma mão cheia de anos de Macau e a memória nunca foi o meu forte – este foi o primeiro ano que, por motivos profissionais, não viajei durante as comemorações do Ano Novo Chinês. Achei-me a única portuguesa por cá e portanto estava preparada para ter dias muito tranquilos no que diz respeito a eventos sociais. Um amigo convidou-me para um jantar de celebração do novo ano com uns amigos de longa data. Éramos 9 à mesa. Eu conhecia apenas um – o meu amigo. Todos eles pensaram que eu era caloirinha de Macau. Nunca nos cruzámos e eu prometo-vos que saio à rua.

Terminado o jantar, fomos ao mesmo sítio de sempre. Lá encontro um amigo, que por sua vez me apresenta um amigo. Quanto tempo de Macau? Dois anos! Quantas vezes nos vimos? Nunca.

Macau será sempre esta caixinha de surpresa muito complexa e de difícil compreensão. Uma terra que nos parece fechada, pequena e em alguns dias sufocante é ao mesmo tempo uma janela aberta para o mundo, que nos une uns aos outros nos detalhes, mesmo depois de anos a caminhar lado a lado, sem nunca nos vermos.

Nunca te vou conseguir compreender Macau. E só isso justifica o fascínio que sinto por ti.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.