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A essência de 2019

Nós lá fora

Casimiro Cavaco Dias

CARAÍBAS, BARBADOS - O nosso Natal cheira a mar e buganvílias. Um cheiro doce que se torna ainda mais intenso durante a noite. Aqui, aprendemos que o Natal é, na verdade, um tipo de alquimia, mas ao contrário. O espírito do Natal transforma o ouro puro, de volta, à essência da humanidade e da solidariedade

Cânticos de Natal na Saint Nicholas Abbey, em Barbados, uma antiga plantação de cana de açúcar, cercada de árvores de mogno, algodão-seda e abacate
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Cânticos de Natal na Saint Nicholas Abbey, em Barbados, uma antiga plantação de cana de açúcar, cercada de árvores de mogno, algodão-seda e abacate

Dia de Natal na praia Batts Rocks, Barbados
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Dia de Natal na praia Batts Rocks, Barbados

Parlamento de Barbados. Estabelecido em 1639, é uma das legislaturas mais antigas da América
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Parlamento de Barbados. Estabelecido em 1639, é uma das legislaturas mais antigas da América

Decorações de Natal em Lime Grove, Barbados
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Decorações de Natal em Lime Grove, Barbados

Jantar de Natal em Sweetfield Manor, Barbados
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Jantar de Natal em Sweetfield Manor, Barbados

Parque Nacional da Rainha, Barbados. Aqui todos se juntam para ouvir a Banda da Polícia Real e comemorar o Natal entre amigos
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Parque Nacional da Rainha, Barbados. Aqui todos se juntam para ouvir a Banda da Polícia Real e comemorar o Natal entre amigos

Corrida de Cavalos no Boxing Day em Garrison Savannah, Barbados
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Corrida de Cavalos no Boxing Day em Garrison Savannah, Barbados

O nosso Natal cheira a mar e buganvílias. Um cheiro doce que se torna ainda mais intenso durante a noite. Chega com a brisa mais fresca do final da época dos furacões e as brilhantes poinsétias vermelhas que transformam a ilha. Canções de natal tomam conta do rádio.

Os meus filhos ajudam a decorar a sala enquanto saem correndo para a piscina. Usam ramos de cerejeira e pimenta perfumada da Jamaica, em vez de azevinho. Habituados a desfrutar de um Natal branco em Lisboa ou Copenhaga, estranhamos o calor de Verão. Ainda assim, porquê manter a nostalgia das imagens de outros lugares? Porquê não recriar tradições de Natal que são autênticas de cada lugar onde vivemos?

Hoje, a maioria das ilhas das Caraíbas celebra o Natal, de forma semelhante, mas cada mantém os costumes e pratos favoritos. Em Barbados, junto com o peru e o presunto cravado de , a especialidade é o "jug-jug", cozinhado com carne moída, milho-da-índia e ervilhas.

Por quase todas as casas, há frutas secas embebidas em potes de rum. A fruta é transformada num “Great Cake”, que lembra o pudim britânico. Mas com a imersão da fruta em rum, o uso de açúcar mascavo e um caramelo amargo, o bolo é mais escuro, mais profundo e mais intenso.

Perfeito, acompanhado com uma bebida rosada, que chamam de “sorrel” ou alazão, preparada a partir da infusão de canela, cravo, casca de laranja, açúcar mascavado, e com as vagens de alazão, da família do Hibisco.

Há diferentes maneiras de fazermos o nosso próprio Natal. Hoje ao jantar, mistura-se o tradicional bacalhau e peru assado, com salada de manga e abacate. Assim como o “Great Cake” acompanhado de gelado de Verão.

O jantar prolonga-se como um interlúdio silencioso entre as preparações febris e o início das festas do “Boxing Day” que se estendem ao final do ano. Numa ilha onde os alto-falantes em carros, casas e lojas são o pano de fundo para a vida diária, a noite de Natal é talvez o momento mais tranquilo deste ano.

O dia a seguir ao Natal, o "Boxing Day", é como se a nossa casa e família, se tornassem uma espécie de força centrípeta que traz o máximo, que conseguimos, do mundo exterior para dentro de si. Os vizinhos e os colegas chegam e batem a porta sem convite. Os convites fazem-se para ir juntos ver a Banda Real de Barbados no Jardim da Rainha ou a final de Corrida de Cavalos em Garrison Savannah.

De Porto Rico a Guadalupe, de Barbados à Jamaica, cada ilha recria o seu próprio Natal.

Apesar das diferenças de como fazemos o nosso Natal, a essência é sempre a mesma. Há a ideia mágica de que, apesar de toda a riqueza que vem da diversidade, podemos todos fazer algo bom acontecer.

Dickens reinventou o Natal como "a única vez que conheço, no longo calendário do ano, quando mulheres e homens parecem, por um consentimento, abrir os seus corações fechados livremente e pensarmos uns nos outros como companheiros de viagem”. É como no Natal encontrássemos tempo para compreender o poder do nosso passado e futuro para mudar a forma como queremos viver o presente.

Aqui, aprendemos que o Natal é, na verdade, um tipo de alquimia, mas ao contrário. O espírito do Natal transforma o ouro puro, de volta, à essência da humanidade e da solidariedade. Enquanto erguemos um copo de “sorrel”, lançamos juntos um desafio - manter o Natal no coração - todo o ano de 2019.

Casimiro Cavaco Dias

Casimiro Cavaco Dias

BARBADOS, CARAÍBAS - Nasceu em Faro. Cedo, movido pela realização da saúde enquanto direito humano, viveu em Lisboa, Copenhaga, Washington DC, Luanda e nas Caraíbas. Especialista das Nações Unidas, apoia os Países em todo o Mundo a transformar sistemas e serviços de saúde mais inovadores, resilientes e sustentáveis. Entre a destruição dos furacões nas Caraíbas, os surtos de ébola e febre amarela na África, a crise dos refugiados na Europa ou a crise financeira dos Estados Unidos, a paixão e a criatividade das pessoas torna possível transformar e criar o futuro da saúde para todos. Autor do livro “O Valor da Inovação: Criar o futuro do Sistema de Saúde” e Prémio António Arnaut.