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Nem Cá, Nem Lá – notas de viagem entre a Noruega e Portugal

Nós lá fora

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA - Parámos em Trollstigen, com incumbências muito específicas: eu filmei os picos arrepiados contra o céu, o meu cão fez cócó junto a uma árvore

Tordesilhas, vista com os pés na água do rio Douro

Tordesilhas, vista com os pés na água do rio Douro

Preâmbulo:

Todas as grandes jornadas começam , não com um primeiro passo, mas com um levantar-o-rabo-da-cama-para-ir-lavar-os-dentes. Levantar-o-rabo-da-cama-para-ir-lavar-os-dentes é o momento zero, mesmo da mais extraordinária das epopeias.

Nota de viagem, saída:

São três da manhã. A casa está cheia de vácuo emocional, não é mais que um chão e um tecto, todos partiram. Por isso fiz ovos mexidos com queijo e partilhei-os com o cão antes de sairmos para Portugal.

Nota de viagem, primeiro dia:

Parámos em Trollstigen, com incumbências muito específicas: eu filmei os picos arrepiados contra o céu, o meu cão fez cócó junto a uma árvore.

Nota de viagem, primeiro dia:

Ao meu lado está um descapotável com um casal de terceira idade, ambos vestidos exactamente da mesma maneira : vestido plissado, amarelo e com um padrão de flores pequeninas e encarnadas e sandálias de couro sem salto. Estou à espera para entrar no ferry que atravessa do Sul da Noruega até ao Norte da Dinamarca.

Há uma gaivota que voa esganiçada sobre as nossas cabeças, na pata esquerda uma linha com uma enorme chumbada. De vez em quando pousa no telhado prózimo e queixa-se do seu azar. As pessoas que vão à pesca e que deixam no chão linhas e anzóis e chumbadas que depois se enrolam nas patas das gaivotas deviam ser acometidas de doenças súbitas e falecer.

Nota de viagem, segundo dia:

A única coisa que é metronomicamente fixa numa viagem de carro a atravessar a Europa é que se sai sempre mais tarde do que se devia e que, por mais que se acelere, se chega sempre mais tarde do que o que estava previsto.

Nota de viagem, segundo dia:

Na Noruega já não existe rádio FM – foi substituído por uma modernice chamada “Internet radio”. É refrescante estar de volta à Europa da rádio FM, onde é possível passar horas a saltitar de estação em estação à procura de música péssima com pessoas a falar prolongadamente sobre assuntos que não interessam. Tinha tantas saudades disto...

Nota de viagem, segundo dia:

Que se passa com os dinamarqueses e com as palavras acabadas em “trup”? A dada altura, atravesso uma zona onde todos os sítios acabam em “trup”. Astrup, Kastrup, Hyldstrup, Sundstrup, Klestrup, Hebbelstrup e continua-isto-sem-parar-“trup”. O sufixo “trup” quer dizer “povoação formada por gente que saíu de outro sítio maior”. E o Google é o melhor amigo do condutor que não têm mais nada que fazer senão procurar coisas estúpidas quando pára para tomar café.

Nota de viagem, segundo dia:

Advertência a mim próprio: por favor, não voltar a introduzir no Google Maps nomes de ruas sem verificar se a cidade é mesmo a cidade certa, sob pena de acabar numa rua esconsa, sem saída, a 50 km do local desejado.

Nota de viagem, terceiro dia:

Aos camionistas que viajam nas autoestradas da Alemanha a 91 km/h e que decidem ultrapassar outros camionistas que vão a 90 km/h, fortes desejos de que apanhem um exantema genital pruriginoso que torne a sua viagem excruciantemente incómoda.

Outras considerações generalizadas sobre camiões TIR:

a) o tamanho do camião não tem qualquer relação directa com o peso, dimensão e capacidade do cérebro do seu condutor. Os camionistas são como nós, podem ser condutores responsáveis e inteligentes, ou palhaços. O número de palhaços que se vão encontrando ao longo de uma viagem aumenta de forma linear com a duração da própria viagem. O número de condutores responsáveis e inteligentes também aumenta, mas os palhaços notam-se melhor.

b) as empresas europeias de transportes TIR são grandes apoiantes do movimento LGBT, ou nunca ouviram falar dele. Todos os TIR que tenho passado têm nomes começados, ou acabados, em trans.

Nota de viagem, terceiro dia:

Antigamente um português como eu atravessava a Alemanha num estado de torpe semi-vigília porque não havia um único sítio para tomar um café decente; agora todas as bombas de gasolina vendem bica, cada uma melhor que a outra – não é barato, são dois euros, mas é excelente. Atravessar a Alemanha acordado é uma experiência totalmente diferente.

Nota de viagem, quarto dia:

Estou agora a passar por Paris ainda mal refeito de ter passado por Bruxelas. Navegar em Bruxelas não é para meninos. É virtualmente impossível encontrar seja o que for em Bruxelas. Começo a perceber porque é que há tantos condutores com um ar vagamente perdido a guiar às voltas em Bruxelas. Até os taxistas parecem andar perdidos em Bruxelas. Se não fosse o Google Maps, ainda estaria a tentar sair de Bruxelas. Acho que Bruxelas vai crescendo demograficamente porque as pessoas entram e não conseguem sair.

Nota de viagem, quinto dia:

Paris em hora de ponta está cheio de motards que agem como se os automóveis fossem adereços num filme de James Bond, e que acham que têm prioridade e superioridade sobre tudo e todos. Os motards de Paris acham normal dar uma patada nos carros que não se afastam instantaneamente para lhes dar passagem. Paris em hora de ponta destrói as minhas saudades de andar de mota e provoca-me ligeiras ganas de genocídio. O pior dia de trânsito em Lisboa é melhor que o melhor dia de trânsito em Paris. Não dá para acreditar. James Bond é o único nome inglês que os franceses conseguem pronunciar normalmente.

Nota de viagem, quinto dia:

Quando alguém em Portugal for assaltado pela ideia de que somos europeus, deverá atentar um momento e lembrar-se de que quando se está em Portugal é preciso atravessar a Espanha e a França para chegar à Europa. A ideia de que poderemos um dia aspirar a ser europeus deixa-me frequentemente perplexo.

Nota de viagem, sexto dia:

Bilbau é super cool, não há uma única vez que passe por Bilbau que não me apeteça ficar mais tempo. Desta vez conheci melhor o Casco Viejo, a versão bilbauesca do nosso Bairro Alto. A noite do Casco Viejo é óptima. No dia seguinte, café ao pé do rio Nerbioi, à vista de um galo gigante da Joana Vasconcelos. Segue-se a visita ao Guggenheim. Um dia chego a Bilbau e fico.

Nota de viagem, sexto dia:

Em vez de parar apenas nas bombas de gasolina, é tão bom fazer pequenas excursões extra-curriculares e apreciar o que está pelo caminho. Paro em Burgos, a cidade pré-medieval que educou El Cid; capital de Castela, local de tantas e tão históricas cercos e batalhas, fonte das leis e preceitos que mediaram a sanguinária relação entre os espanhóis e os nativos das Américas. A catedral é linda, e o estacionamento infernal. Estão quase 50 graus centígrados em Burgos. Ao longo do rio há um passeio à sombra, uns 500 metros de arcadas cobertas de azáleas, onde de quinze em quinze metros estão plantados pintores a trabalhar em telas, versões personalizadas e plásticas das torres da catedral.

Nota de viagem, sexto dia:

De dez em dez quilómetros, ao longo da auto-estrada que atravessa esta espécie de Texas que se chama Astúrias, há uma bomba de gasolina ou uma case-de-passe. A constatação começa de forma vaga, por não haver mais nada onde pousar o olhar, e quando ao fim da décima bomba nos apercebemos de que é mesmo assim, a imaginação parte para locais incertos e alarmantes. Algumas bombas de gasolina têm casa-de-passe. São dois-em-um. Na sua maioria chamam-se Paco ou pior.

Nota de viagem, sexto dia:

Quem é que já foi a Tordesilhas? Saí de lá agora. É pequenino, mas há que lembrar que os sítios onde hoje em dia se fazem as cimeiras do G7 também são sempre pequeninos. Em Tordesilhas pus os pés dentro de água – no rio Douro. Pensar em Tordesilhas e nas voltas que o mundo dá ajuda qualquer pensante a perspectivar o que se passa neste conturbado momento do século XXI.

Nota de viagem, sexto dia:

Sem saber ler nem escrever, atravesso a Serra de Griedos. As gargantas abrem-se em descidas vertiginosas e a estrada serpenteia em ascensões portentosas. Mesmo nesta canícula, vêem-se pontos de neve nos topos das montanhas – o ponto mais alto da serra fica a 2592 metros, no Almanzor. Assalta-me a desconfortável sensação de que em Espanha tudo é mais dramático e maior. Este pensamento é pontuado por uma aparição inesperada – um touro gigante e negro, daqueles a sério, das touradas, a passear sózinho pela serra. O meu carro é grande, mas sinto-me pequenino lá dentro. Os touros são descendentes dos auroques; estas serras eram o seu reino. Continue-se a guiar, tudo isto é perfeitamente normal. Há certamente mais Espanha que a necessária para esta minha viagem.

Nota de viagem, sexto dia:

Gostava de dar os meus parabéns à senhora que inventou o gaspacho – imagino que tenha sido uma senhora porque é de bom gosto demais para ser de um gajo. Quem inventou o gaspacho, devia ter muito para dizer. O gaspacho compra-se nas bombas de gasolina em Espanha, em pacotes de abertura fácil como os nossos pacotes de leite. As bombas de gasolina a caminho de Cáceres têm gasolineiros, uma espécie que desapareceu quase por completo em Portugal. Pára-se, e enquanto se vai lá dentro comprar um pacote de gaspacho, o gasolineiro enche o depósito. Conheci um gasolineiro chamado Ramón, que passa férias em São Martinho do Porto e adora Portugal. Fez-me uma bica à portuguesa e despedimo-nos com dois bacalhaus. O Ramón era um tipo porreiro.

Nota final de viagem, sexto dia:

Portugal. Casa.

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.