Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Pandas e fusos horários

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - Diz-nos o Priberam que jet lag é o “conjunto de alterações físicas ou psíquicas resultantes de uma viagem longa de avião através de vários fusos horários”. Eu diria mais. O jet lag é uma tortura silenciosa que tem como missão destruir a sanidade mental do emigrante

Diz-nos o Priberam que jet lag é o “conjunto de alterações físicas ou psíquicas resultantes de uma viagem longa de avião através de vários fusos horários”. Eu diria mais. O jet lag é uma tortura silenciosa que tem como missão destruir a sanidade mental do emigrante.

Mas vamos por partes que não quero espalhar o pânico a quem está para vir. Primeira informação a reter (e a mais óbvia), nem todo o emigrante padece desta tortura. Emigrantes em países com o mesmo fuso horário de Portugal ou com uma diferença de poucas horas têm menor probabilidade (ou nenhuma) em sentir os efeitos do jet lag. Segunda informação a reter, mesmo os que estão num fuso horário de várias horas de diferença podem não sentir esses mesmos efeitos. A essas pessoas eu dou-lhes o nome de sortudos. Há ainda aqueles que só sentem para um lado. Ou seja, sentem quando chegam a Portugal, mas nada acontece quando regressam, ou vice-versa. Já eu, estou de pé firme no grupo dos “Meu Deus, sinto que vou morrer, por favor sou um zombie!”

Já tentei de tudo. Li muito sobre o assunto, fiz todos os truques que ensinam, começar a preparar-me ao novo fuso uns dias antes, beber mais água do que o normal, no dia da viagem evitar café, álcool ou comidas pesadas e até organizar o sono durante o voo consoante o novo fuso. E acreditem quando vos digo que me é muito difícil estar sentada num avião sem poder dormir. Aqui entre nós, às vezes o avião ainda não levantou voo e eu já estou a dormir tal bela adormecida. Sim, eu sou daquelas que dorme 10 horas seguidas num avião e olha para a turbulência como movimento de embalo. No entanto, nada resulta.

Ao chegar a Portugal o dia começa, com sorte, por volta das 5 da manhã. Às vezes ainda não nasceu o sol, mas nós já temos energia como se fossem duas da tarde num dia de sol. É energia que nunca mais acaba. Por respeito, não metemos música para não acordar quem ainda dorme lá em casa. Vamos olhando para as redes sociais numa tentativa de ver alguém online. Sem sucesso. Esperamos um pouco mais e ainda mal deram as 7 badaladas já estamos a sair de casa para comprar pão, ir à pastelaria ler os jornais, meter a conversa em dia com um estranho qualquer. Lá em casa, continua tudo a dormir e é quase emocionante quando alguém acorda, ainda estremunhado e diz um “bom dia” ensonado.

- Ufa, estava a ver que nunca mais acordavas. Isso é que foi dormir …

- Filipa, acalma-te! São sete da manhã. Estás de férias, dorme.

Não funciona.

Como se sabe, os dias passam a correr e por isso em minutos chegamos ao fim da tarde. Estamos de férias, queremos aproveitar todos os segundos e as agendas estão cheias de eventos sociais. Somos então confrontados com outro problema, é que às 18 horas de Portugal são 01 ou 02 da madrugada em Macau. Os sintomas começam a surgir. Abate-se sobre nós um sono, um cansaço extremo, quase de outro mundo (pelo menos de outro país é com certeza). Começamos por deixar de conseguir raciocinar. Os pensamentos não fluem e quando damos por nós já não estamos a perceber que conversas é que estão a decorrer à nossa frente. Apanhamos uma ou outra palavra e pensamos: que raio está ela/e a dizer? Os movimentos ficam mais lentos e os olhos cada vez mais pesados. No fundo, e com a máxima sinceridade, por nós, encostávamos a cabeça à mesa e dormíamos nem que fossem uns 10 minutos, que possivelmente se tornariam em cinco horas. Há quem ainda vá mais longe, eu. Já faltei a jantares por estar a dormir profundamente, sem hipótese de acordar, ou, ainda mais longe, levantar-me da mesa, sentar-me no sofá mais próximo e dormir descaradamente, tudo isto, enquanto os meus amigos se divertiam, ali, mesmo ali.

A duração dos efeitos também depende de pessoa para pessoa, neste caso, de emigrante para emigrante, mas eu conto sempre com 4 a 5 dias de jet lag. Menos do que isso é vitória. Portanto, passo metade das minhas férias em modo zombie. Mal me liberto desse estado e usufruo um pouco da liberdade de conviver com os meus amigos a horas normais, é chegada a hora de voltar a fechar a mala. E com ela vem também uma nova odisseia com o jet lag. É que para Portugal é sempre mais fácil, porque na verdade estamos de férias, acordamos cedo e podemos dormir sestas. Complicado é regressar ao trabalho quando se dormiu duas ou menos horas na noite passada. O que nos vale é a condescendência portuguesa que por aqui existe. A solidariedade entre portugueses e até alguns colegas chineses que compreendem o que estamos a passar merece o nosso minuto de silêncio.

Se virmos bem as coisas, o jet lag anda de mãos dadas com a privação de sono dos pais. Sem a agravante dos choros das crianças. Bem pensado, qualquer casal com vontade de se lançar no mundo das fraldas deveria passar dois meses a viajar para diferentes fusos horários, em género de testes “pré-fecundação”. No fundo, entre nós e os pandas existem poucas diferenças, tal olheiras pretas e quantidade de sono…

(Nota: este texto foi redigido sob o efeito de jet lag)

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.