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Entre o Divino e o Mundano

Nós lá fora

Vasco Pinhol

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AALESUND, NORUEGA - Ler é tão bom. É sempre uma janela aberta num outro perto ou longe, num outro espaço ou tempo, que empurra a nossa porta até a abrir. E depois é táctil e tem cheiro, como uma amante

Passei o fim-de-semana a ler. O mau tempo cavalgou a toda a brida, sacudindo violentamente as janelas e desboroando todas as ideias de aventuras lá fora. Até os passeios com o cão foram transformados em corridas puxadas por ele, na mímica canina que diz “voltemos para casa, a passo acelerado e em força”.

Ler é tão bom. É sempre uma janela aberta num outro perto ou longe, num outro espaço ou tempo, que empurra a nossa porta até a abrir. E depois é táctil e tem cheiro, como uma amante.

Se se busca paz de espírito e temperança, ler nos dias de hoje deverá ficar limitado aos clássicos. As dúvidas existenciais que nos aquecem ou fazem tremer são as mesmas que foram descritas e qualificadas desde Homero – o que nos torna humanos não mudou, o que nos torna desumanos não se alterou. Uma vez suplantadas as pequenas diferenças de forma, as histórias e sub-estórias numa Odisseia ou numa Saga versam as mesmas coisas que afligem e acorrem a qualquer alguém.

Ler em papel tem várias qualidades que ler electronicamente não tem. A mais importante, acho, é a finitude; as palavras que lemos estão arrumadas de forma cristalizada; cada palavra impressa num papel – num livro, numa revista – está rodeada por um universo de outras palavras, todas estáticas, sem fuga possível, aconchegadas umas nas outras à espera de serem compreendidas. As hiperligações nas palavras de um livro são aquelas que a nossa imaginação conjura. Quanto mais lermos - atempadamente para que o nosso processo mental que emula a digestão decorra (deglutição, desmembramento, refinação, essência, descarte de resíduos) - mais hiperligações se acenderão na nossa próxima leitura. Ler em papel é uma escada que se sobe até ao céu, parando para ganhar fôlego e ver a vista que se alarga. Ler electronicamente – com todas as hiperligações que se multiplicam de forma potencialmente infinita mas também limitadamente determinista - é viver num observatório em que tudo é visto de cima para baixo, com tempo para olhar mas quase sem tempo para observar. Nenhuma das leituras estará certa ou errada – mas parece-me claro que se complementam.

Não é humanamente possível ler os clássicos sem pensar na condição humana e nas suas qualidades perenes. Não é humanamente possível ler as notícias na web sem pensar na condição humana e nas suas características voláteis. Entre o perene e o volátil – num fim de semana de tempestades nórdicas que remetem todos os lobos às suas tocas – percebi claramente que a simplicidade das noções de bem e mal não se alteraram ao longo de todos este milénios. Senhor presidente Donald Trump, a ética humana não tem cor - política ou de pele – nem tem som – sacro ou profano – nem tem cheiro – divino ou mundano.

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Um dado curioso: Nos últimos 16 anos a leitura de jornais e revistas caíu para metade na Noruega mas o consumo de livros aumentou (1/4 da população nacional lê livros diariamente). No mesmo período o uso de Internet quase que triplicou. (FONTE)

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.