Teresa Nunes da Ponte: “É o turismo que nos permite a reabilitação de Lisboa”

Das mais proeminentes arquitetas do País, Teresa Nunes da Ponte voltou a ver o seu trabalho reconhecido recentemente, com a renovação do grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, através do prémio Docomomo Internacional, que distingue projetos de preservação da arquitetura moderna no mundo. À frente do atelier TNP, é das poucas mulheres a liderar um gabinete de arquitetura em Portugal.

Há mais arquitetas do que arquitetos em Portugal. Porém, são muito poucas as que se destacam. No seu caso, o que permitiu alcançar essa notoriedade?
Existe, de facto, essa discrepância, e estamos perante uma questão cultural que demora muito tempo a mudar. Porém, essa mudança está a acontecer. No meu caso, as coisas foram acontecendo. Fiz muitos sacrifícios mas também tive imensa sorte com as oportunidades, os clientes, o ambiente de trabalho, os colaboradores… Comecei a vida profissional no 25 de Abril, numa altura muito rica em experiências. E comecei a trabalhar em áreas que não têm nada que ver com a arquitetura. Aos 19 anos, pediram-me para ir apoiar um secretário de Estado (Vasco Graça Moura) e, mais tarde, estive também na Comissão Nacional de Eleições… Foram experiências muito ricas que me proporcionaram uma visão do funcionamento das instituições e do Estado e que também me ajudaram na minha carreira na arquitetura.

Quando fundou o seu atelier?
Abri o meu atelier em 1988, depois de dez anos de experiência – tinha trabalhado com o arquiteto Vasco Câmara Pestana e com o meu colega e amigo Manuel Bastos, e trabalhei também numa empresa de promoção e construção, em que tive contacto com a obra. Depois comecei a minha vida profissional com vários projetos de reabilitação de património e de espaço público. Mas nunca perdemos contacto com a obra nova e temos trabalhado com várias escalas, desde o objeto até à cidade, o que é particularmente estimulante.

A arquitetura é uma profissão muito difícil que não é suficientemente reconhecida

Como avalia a transformação que foi tomando conta de Lisboa?
Lisboa tem tido, nos últimos anos, um desenvolvimento excecional. Penso que se consegue perceber o planeamento que tem sido feito e que está a dar frutos. A reabilitação do centro histórico é notória. Têm surgido jardins um pouco por todo o lado, onde apetece circular e passear. Tenho acompanhado particularmente o projeto do jardim da Praça de Espanha, porque a Fundação Calouste Gulbenkian doou uma obra vasta da Cristina Iglesias à cidade, para estar naquele parque urbano, que se chama agora Jardim Gonçalo Ribeiro Telles.

Falou-se muito da gentrificação, antes da pandemia. Qual é a sua opinião?
É evidente que temos muitos turistas, mas isso não me perturba, embora reconheça que há algumas situações que merecem uma atenção especial, como é o caso da Baixa. Mas acho que, de modo geral, a transformação é muito positiva, e espero que assim continue, pois a cidade merece esta renovação. Além disso, não nos podemos esquecer de que é o turismo que nos permite a reabilitação de Lisboa e nós precisamos também desse impacto positivo na economia.

Que conselhos daria a uma jovem arquiteta que estivesse a entrar nesta profissão e que desejasse vingar mas também ter uma vida pessoal plena?
Tenho muitas arquitetas jovens a trabalhar comigo e muitas outras passaram pelo atelier e foram para outros sítios. É engraçado que normalmente temos tido mais mulheres do que homens, e nós já equacionámos a necessidade de termos quotas para os homens [risos]. A arquitetura é uma profissão muito difícil, que exige uma enorme dedicação e que não é suficientemente reconhecida. E, neste momento, julgo que é muito mais difícil do que quando eu comecei a profissão, tal como é mais complicado fazer um atelier, tanto para uma mulher como para um homem. É preciso ter uma enorme perseverança, muito trabalho e muito trabalho em equipa.

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