Imobiliário: O Algarve já não é só verão

Quinta do Lago A procura de terrenos no empreendimento San Lorenzo North mais do que duplicou durante a pandemia. O preço começa nos três milhões

A tradicional romaria de portugueses para o Algarve nesta altura do ano não surpreende ninguém, mas uma nova dinâmica está a instalar-se na região mais a sul do País. A possibilidade de trabalhar remotamente, trazida pela pandemia, leva um número crescente de pessoas a investirem nesta zona onde o sol brilha forte quase todo o ano e o mar é presença constante em quase 200 quilómetros de costa logo ali, à mão de semear. E este oásis continua a despertar também a atenção dos estrangeiros, um somatório que deixa a convicção junto de todos os operadores contactados pela VISÃO de que se está, finalmente, perante um momento há muito desejado: o esbater da sazonalidade.

Há pouco mais de dois meses, a consultora JLL decidiu abrir mais uma sucursal, desta vez na Quinta do Lago, em Almancil. A decisão foi tomada após um estudo de mercado que a consultora elaborou e que contabilizou a construção de mais de mil novas casas para os próximos três anos. A procura já existia e a pandemia veio consolidar a tendência.

Verdelago A primeira fase de construção abrange 102 unidades, das quais 57 estarão concluídas em 2022. Metade já foram vendidas, a maioria a portugueses

“É um novo paradigma trazido pela pandemia, assente no teletrabalho, que nos dá uma nova fatia de mercado – o das pessoas que mudaram completamente as suas vidas. São pessoas ainda no ativo, cujos filhos já estão crescidos, e por isso mais independentes, e que escolheram o Algarve porque querem viver numa localização mais agradável durante a maior parte do ano. E, claro, aqui têm excelentes praias, ótimos restaurantes, bons serviços e uma boa rede de internet – tudo fatores que pesam na sua decisão”, resume Patrícia Barão, diretora do departamento residencial da JLL.

É um novo paradigma trazido pela pandemia, assente no teletrabalho, que trouxe uma nova fatia de mercado – o das pessoas que mudaram as suas vidas

A responsável da JLL não tem dúvidas de que, mesmo com a pandemia sanada, “nada será como dantes”, com o devido impacto também no imobiliário: “Basta olhar para o que está a acontecer em muitas das grandes empresas e para o estímulo que passaram a dar ao teletrabalho. E as pessoas estão a aproveitar as suas segundas habitações. No Algarve, mesmo durante o inverno, vieram de todos os lados, para desfrutar da região por um período mais longo.”

Muitos daqueles que ainda não possuem uma segunda habitação (e cada vez mais primeira) estão à procura de uma. Reinaldo Teixeira, CEO do grupo Garvetur, que tem oito agências na região, fala de uma “tendência de valorização” do Algarve como um todo. “Quem tem poupanças está a investir, sendo que a procura não é só no litoral, mas também nas zonas do interior do Algarve, no barrocal e na serra, e ainda mais para o interior, já no Alentejo. Boa parte dos que compram estão a tirar partido do teletrabalho. Sabem que podem estar distantes fisicamente da empresa, mas à distância de um clique”, diz o responsável da Garvetur, que vai abrir mais uma agência no próximo mês, também na Quinta do Lago.

Segurança e tranquilidade
Dando como exemplo os empreendimentos Dom Pedro Residences, em Vilamoura, e The Shipyard, localizado a curta distância do centro histórico de Faro, Reinaldo Teixeira fala da diversidade de projetos que estão a surgir e da procura que suscitam assim que entram no mercado. “E isso acontece por várias razões”, nota. “Não há muita oferta de imóveis novos, até porque a expansão urbana não é muito grande e há limitações para fazer novos empreendimentos. Além disso, com a pandemia, comprovou-se, mais uma vez, que é muitíssimo mais vantajoso investir em imobiliário do que manter as poupanças no banco com o pouco rendimento que oferecem.”

O interesse (e a bolsa) dos clientes define o tipo de produto. Habitualmente, os resorts, onde o luxo exclusivo se paga mais caro, têm mais procura junto de estrangeiros. Casas fora dos condomínios e nos centros urbanos estão mais direcionadas para a clientela nacional. Mas até neste perfil de clientes, a pandemia veio mexer.

ESTUDOS

Estrangeiros continuam a rumar sobretudo ao Sul

Lisboa concentra muita atenção mediática quando o assunto recai sobre o interesse dos estrangeiros no imobiliário (e o seu impacto), mas a realidade é que o Algarve mantém-se imbatível na sua capacidade de atração. De acordo com o mais recente estudo sobre o mercado dos resorts em Portugal, realizado pela Confidencial Imobiliário em parceria com a APR – Associação Portuguesa de Resorts, os compradores do Reino Unido continuam a ser a principal fonte de procura internacional para os resorts portugueses, reforçando a sua quota no Algarve, entre julho e dezembro do ano passado.

Nesse período, os britânicos realizaram 56% das aquisições feitas por internacionais em Albufeira-Loulé (a uma média de €6 600/m²) e 35% no Barlavento. No segundo semestre de 2020, “é ainda de assinalar o regresso de outros compradores europeus, alguns dos quais ausentes no semestre anterior”, lê-se no estudo, com destaque para os cidadãos da Irlanda, dos Países Baixos e da Alemanha.

Um outro estudo, da APR, baseia-se nos dados do Instituto Nacional de Estatística sobre o número de imóveis adquiridos por não residentes em 2019, portanto ainda antes da pandemia, para mostrar o peso da região algarvia na captação de investimento. Assim, das 19 520 unidades compradas por estrangeiros nesse ano (que representam 8,5% do total de casas transacionadas), o Algarve absorveu a maior fatia, com 38% em termos de valor e 27% em termos de quantidade. Lisboa surge na segunda posição, com 36% de valor e 21% em quantidade. Em termos de quantidade, a Região Centro ocupa o segundo lugar, com 23% de imóveis transacionados.

Na Quinta do Lago, onde se concentram as habitações mais caras de Portugal, há cada vez mais portugueses a comprar, afiança o seu CEO, Sean Moriarty. “Embora estejamos a viver um período atípico, a realidade é que a procura por parte dos investidores ou clientes, incluindo os portugueses, por casas de luxo na Quinta do Lago tem sido extraordinária e continuamos a receber um fluxo constante de interesse e pedidos. E, durante o período do confinamento, tivemos muitos residentes que optaram por passá-lo aqui, por se sentirem seguros e tranquilos. A verdade é que a Covid-19 afetou a forma como vemos a vida e as nossas prioridades, e os compradores dão agora ainda mais valor à Natureza, a espaços seguros e a ambientes de baixa densidade”, sublinha o responsável por este resort que está integrado na ria Formosa, com uma densidade construtiva de 9% (a área restante é água/lago, golfe ou zonas verdes) e em que 45% dos residentes são britânicos.

O portefólio da Quinta do Lago abrange revendas de moradias e de apartamentos de privados, com preços que oscilam entre o meio milhão de euros e mais de dez milhões. Está também em comercialização o empreendimento de San Lorenzo North, que abrange 26 lotes que permitem aos futuros proprietários construírem as moradias dos seus sonhos, num canto ainda intocado do resort, sem enfrentarem restrições em termos de estilos de arquitetura e com vistas para o lago, o golfe ou o pinhal.

Dom Pedro Residences Este projeto em Vilamoura está em comercialização pela Garvetur, que também regista procura fora do litoral

Com dois mil a três mil metros quadrados e preços a partir dos 3,2 milhões de euros, os lotes permitem que a área construída absorva 25% do terreno, reservando o restante para jardim. Em tempos de confinamento claustrofóbico, a proposta parece ter justificado o ritmo de vendas que duplicou em relação a 2019, com um aumento de 47% de consultas. “Neste momento, estamos já na fase final de comercialização do empreendimento, com mais de 80% dos lotes vendidos”, conta Sean Moriarty. “E quem está a comprar são famílias que apreciam um estilo de vida ativo e que encontram aqui oferta desportiva, gastronómica e de lazer para todas as idades.”

Quem tem poupanças está a investir, sendo que a procura não é só no litoral, mas também nas zonas do interior do Algarve, no barrocal e na serra

A propósito, o mesmo responsável nota que a idade média dos compradores diminuiu na Quinta do Lago, sobretudo desde a abertura do centro multidesportivo, o The Campus, em 2018. “Ela ronda agora os 45 anos, e cada vez mais verificamos um aumento no tempo que os nossos proprietários passam no resort, com muitos a optarem por viver aqui durante todo o ano, com as crianças a frequentarem as escolas internacionais de grande qualidade que temos na região. Há, aliás, um número crescente de residentes a trabalhar remotamente na Quinta do Lago”, sublinha, “apesar de terem a sua atividade profissional noutros países ou noutras regiões de Portugal”.

Espaço e Natureza
Para Pedro Fontainhas, diretor-executivo da Associação Portuguesa de Resorts (APR), a procura por este tipo de produto “está saudável e até se percebe porquê”, diz: “A pandemia mudou a prioridade e os critérios das pessoas quando compram uma segunda residência – agora, querem habitações multifuncionais, com mais espaço, mais divisões e perto da Natureza.”

E se é um facto que, do lado da exploração turística, em que se incluem os hotéis e os restaurantes, “as coisas estão mais difíceis”, no turismo residencial a dinâmica mantém-se. Com uma nuance, destaca o diretor da APR: “Os portugueses parecem ter descoberto o mercado do turismo residencial, embora continuem a ser os estrangeiros, e principalmente os britânicos (que não se afastaram com o Brexit), a representar a maior fatia nos resorts. A pandemia contribuiu para uma maior lentidão na concretização dos negócios com os estrangeiros”, lembra, “mas o importante é que o interesse está em alta nas várias frentes”.

Essa tendência é bem evidente no Verdelago Resort, o maior projeto em curso no Algarve, com um investimento de 270 milhões de euros, que é promovido pela Oxycapital e vai ser construído ao longo dos próximos sete anos. Localizado em Castro Marim, este resort de Natureza terá 85 hectares com um índice de construção limitado a um máximo de 8,7% de área total, onde serão construídos um hotel de 5 estrelas, com cerca de 200 quartos, e um aldeamento turístico, com 340 unidades residenciais.

Segundo fonte da empresa, este empreendimento de luxo, que se estende até à Praia Verde, está a ser concebido de acordo “com as melhores práticas de sustentabilidade ambiental, tanto do ponto de vista da construção, como da conservação da Natureza e da biodiversidade tão ricas da zona, do consumo de energia, de água e da mobilidade, tendo em vista uma pegada de carbono neutra”. Para provar esse estatuto, o campo de golfe que constava do projeto inicial foi retirado e no seu lugar será construído um parque verde, onde se pretende criar um santuário natural para as mais de 110 espécies diferentes de animais identificados no local, entre camaleões, sapos, rãs, borboletas, coelhos, guarda-rios, patos reais, gaios, poupas e até cegonhas-brancas.

Onyria Palmares O resort, que faz parte da carteira da nova loja da JLL no Algarve, tem casas entre os €400 mil e os €780 mil euros

“Acreditamos muito na valorização da Natureza como uma tendência do futuro (e que já é do presente)”, explica à VISÃO Paulo Monteiro, diretor-geral do Verdelago Resort. “Por isso, faz parte da nossa estratégia criar um espaço que não seja um local de passagem, mas onde as pessoas queiram efetivamente viver e onde possam trabalhar online por grandes períodos de tempo, durante todo o ano.” O objetivo, assume, é “contribuir para combater a sazonalidade algarvia e acompanhar uma estratégia da própria região”.

A decisão de eliminar o golfe, que iria ocupar 34 hectares dos 70 destinados a zona verde, “não foi fácil”, admite o mesmo responsável. “Prescindimos de uma receita que seria certa, mas foi uma decisão estratégica e ao nível do business plan, pois acreditamos que teremos retorno nesta estratégia de valorização exterior. O campo de golfe seria uma zona só para os golfistas”, nota, “e não para todas as pessoas do empreendimento”.

‘Carpe diem’
Assim, no seu lugar já está em construção um parque verde e de lazer com mais de 42 hectares, além da reserva natural em frente ao mar, com 24 hectares. Para potenciar a vivência exterior, estão também a ser construídos vários passadiços de madeira e a ser recuperados caminhos pedonais e cicláveis, por entre pinheiros e sobreiros.

“Os portugueses descobriram o turismo residencial, mas os estrangeiros continuam a representar a maior fatia”, diz Pedro Fontainhas, da APR

Tudo trunfos que já dão frutos em termos de vendas. A primeira fase de construção, iniciada em 2020, é constituída por um conjunto de 102 unidades residenciais turísticas, das quais 57 estarão concluídas para entrega no verão de 2022. Metade delas já estão vendidas. “E ainda nem lançámos oficialmente a comercialização – só o vamos fazer em agosto – ou a promoção no estrangeiro”, conta Paulo Monteiro, sublinhando que a maioria dos compradores destas casas (com preços entre 450 mil euros e 1,5 milhões de euros) são portugueses.

É esta dinâmica que a consultora JLL pretende agarrar com a abertura da nova filial na Quinta do Lago. “Hoje, as pessoas preocupam-se mais em ter qualidade de vida… O vírus mudou o nosso paradigma, a questão do carpe diem passou a ser essencial”, lembra Patrícia Barão. “Aquela ideia vaga da morte, que só acontece quando formos velhinhos, já não é bem assim e está a empurrar as pessoas para decisões rápidas. A lógica é: se têm dinheiro no banco, sempre quiseram ter casa no Algarve e agora o podem fazer, porque não avançar? Já está a acontecer e cada vez mais.”

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