“Vendemos as descobertas a empresas estrangeiras que depois as desenvolvem. Estamos a fornecer a descoberta para outros fazerem muito dinheiro”

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Em certos casos, desenvolver um cancro já foi mais problemático do que é hoje em dia. Temos mais medicamentos, opções menos agressivas e mais eficazes, além de tratamentos personalizados para cada doente. Por outro lado, a prevalência daquela que muitos veem como a doença do século é cada vez maior. Além dos médicos, o futuro da oncologia passa agora, mais do que nunca, pelas mãos dos investigadores, que tentam desconstruir o problema e encontrar soluções no menor tempo possível. Em entrevista à VISÃO, o investigador principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM) e professor associado convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Sérgio Dias, conta os avanços que estão a ser feitos nesta área, as conquistas que podemos esperar no futuro e os grandes mistérios oncológicos que ainda intrigam a comunidade científica.

Atualmente é rara a pessoa que não conheça, pelo menos, alguém que tenha um cancro. É apenas uma perceção ou existem realmente mais pessoas com a doença?
Enquanto cientistas, essa é uma das questões que nos preocupam porque há, efetivamente, uma maior incidência de cancro, nomeadamente da mama, mas provavelmente também de outros, sobretudo em mulheres jovens. No outro dia, em conversa com o professor Luís Costa, diretor de Oncologia do Hospital de Santa Maria, constatávamos que há muitos mais casos de cancro da mama do que havia há dez anos. É quase uma epidemia. Aparecem mais mulheres jovens com cancros da mama, alguns deles mais agressivos, mais propícios a formar metástases e a responder menos bem às diferentes terapêuticas.

E sabem por que razão é que isto acontece?
Ainda não sabemos, é uma questão muito complexa. Estamos a tentar perceber o que causa isto. Será que são os lípidos, o stresse, mais tabaco, mais álcool, mais pílula, durante mais tempo? Pode também ter a ver com um maior consumo de determinados alimentos, com o consumo crónico de certos medicamentos, com alterações do estilo de vida que criam um ambiente inflamatório propício ao desenvolvimento de determinados cancros. Temos de identificar estas variáveis e testá-las individualmente. Cada um destes fatores dava uma investigação por si só. Neste momento, já existem consórcios a nível internacional focados em estudar este tema. É um problema de saúde pública que vai ter reflexo na mortalidade daqui a cinco a dez anos.

Enquanto não se percebe a causa do fenómeno, existem soluções para tentar reduzir a incidência do cancro da mama em mulheres que ainda não têm idade para ser rastreadas?
Precisamos dessas soluções o mais depressa possível e isso implica um tipo de investigação que dê resultados a curto prazo. Ou seja, por exemplo, no caso do cancro da mama em mulheres jovens, precisamos, num espaço de tempo relativamente curto, de ter testes que possam dizer-nos se uma pessoa tem probabilidade elevada ou não de desenvolver um cancro.

Como é que funcionam esses testes?
Precisamos de uma assinatura, seja ela genómica, molecular, imune ou metabólica, que nos permita dizer se uma determinada mulher pode vir ou não a desenvolver um cancro da mama numa idade precoce. Como exemplo de iniciativas de índole científica, vários grupos do IMM e o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria fazem parte de um consórcio internacional, criado há muito pouco tempo, exatamente com o propósito de definir uma assinatura geral, cuja presença possa ser testada em qualquer pessoa e que de forma mais ou menos fidedigna consiga definir o risco que cada um tem de desenvolver cancro. O objetivo é que um teste funcional esteja pronto a usar daqui a dois ou três anos.

O seu grupo de investigação foca-se também nas interações entre o cancro e os seus “hospedeiros” e no modo como o metabolismo de ambos influencia a progressão tumoral. Podemos afirmar que cada pessoa é um cancro único?
O tipo de interações que cada cancro desenvolve com o seu hospedeiro é específico. Ou seja, a forma como o sistema imunitário e o sistema metabólico de cada pessoa reagem à presença de um cancro é diferente de doente para doente. Por isso, para combater a doença de forma eficaz, é preciso ter sempre em conta o doente. Não só porque o sistema imunitário de cada um reage diferentemente à presença de um determinado cancro, mas porque irá reagir também de forma diferente aos diferentes fármacos que possamos vir a tomar. Cada cancro e o seu hospedeiro acabam por ser um universo único.

Esse universo único pede, cada vez mais, terapias únicas?
Vamos ouvir falar muito, e de forma muito detalhada, de imunoterapia. Vamos vê-la cada vez mais adaptada ao doente, através da manipulação ex vivo [fora da pessoa] das células imunes da própria pessoa que são depois reinjetadas. Apesar de a investigação nesta área já se fazer há algum tempo e de até ter traduções clínicas, inclusive em Portugal, estas são terapêuticas muito caras, mas vamos ouvir cada vez mais falar delas.

Outra área que, nos próximos anos, vai ter algum impacto, e será uma realidade, é a das vacinas para prevenir ou evitar o desenvolvimento de alguns cancros. Por exemplo, aqui no IMM, a equipa da professora Maria do Carmo Fonseca está a investigar uma vacina para pessoas que têm mutações hereditárias no gene BRCA, que as predispõem para ter cancro da mama. Prestaremos também cada vez mais atenção ao papel do status metabólico do hospedeiro e de que forma é que isso impacta a própria doença e a resposta às terapêuticas. O meu grupo de investigação estuda a importância dos lípidos na progressão do cancro da mama. Num dos estudos que fizemos, tentámos perceber de que forma é que a existência de níveis lipídicos elevados impactava a resposta imunitária do doente.

E o que é que descobriram?
Descobrimos que quem tem níveis lipídicos elevados é muito propício à progressão do cancro. Ou seja, se tivermos uma pessoa que é obesa ou com colesterol elevado, devido a problemas hereditários ou ao estilo de vida, essa pessoa, muito mais provavelmente, virá a ter um pior curso do seu cancro da mama. Isto acontece porque há um ambiente inflamatório geral que favorece o aparecimento e o desenvolvimento mais veloz do cancro, com mais metástases e pior curso clínico. O sistema imunitário destas pessoas tem uma dificuldade muito maior em reconhecer as células cancerígenas e em reagir contra as mesmas.

Tantas descobertas implicam anos de estudo e de observação. É difícil investigar em Portugal?
Portugal continua com um problema gravíssimo de subfinanciamento. A investigação científica é muito mal financiada. Há muito pouco financiamento para todas as áreas, o financiamento é irregular, limitado e variável, e a cada ciclo político há sempre mudanças. Não há maneira de fazermos um planeamento nem sequer a três anos, quanto mais a cinco. A dez anos então é impossível. É um total e absoluto logro esta história da aposta na Ciência. Em todos os ciclos políticos, todos os ministros ou secretários de Estado da Ciência, sem exceção, vêm dizer que a Ciência é muito importante, mas isso não se traduz em nada de concreto, e depois, para as métricas, utilizam valores que incluem fundos europeus conseguidos por iniciativa própria e mérito pessoal dos investigadores. Importa explicar que isso não tem rigorosamente nada que ver com o financiamento nacional e não deveria entrar para o orçamento (nacional) da Ciência. E não falo só do financiamento deficitário de projetos, mas também de pessoas, instituições, novos equipamentos e infraestruturas. Neste momento, em Portugal, desenvolver investigação apenas com financiamentos públicos é extraordinariamente difícil, para não dizer completamente impossível.

É um total e absoluto logro esta história da aposta na Ciência. Em todos os ciclos políticos, todos os ministros, sem exceção, vêm dizer que a Ciência é muito importante, mas isso não se traduz em nada de concreto

Como é que se faz então?
Ou há investimento privado, que em Portugal ainda existe pouco, ou, quando é possível, vai-se obter financiamentos a nível europeu, de consórcios ou prémios. Estes, porém, não é suposto serem usados como a base de sustentação da Ciência dos respetivos países. As bolsas do European Research Council, por exemplo, ainda que tenham valores muito elevados, deveriam ser as exceções atribuídas aos Cristianos Ronaldos e Messis das equipas. As instituições onde essas pessoas querem trabalhar não podem estar subfinanciadas. Às vezes, as farmacêuticas vão dando prémios a algumas áreas da investigação, mas estamos a falar de valores que garantem essencialmente a sobrevivência dos laboratórios e com os quais é impossível conseguir investigações de impacto. Trabalhar em investigação científica em Portugal é um exercício de resiliência e de paciência inacreditável.

Esta dificuldade tem vindo a empurrar muitos jovens investigadores para fora do País?
Ando genuinamente preocupado com isso. Em Portugal, a maior parte dos jovens que acabam os mestrados e doutoramentos ou vai para fora ou pura e simplesmente desiste, vai fazer outras coisas, como a gestão de ensaios clínicos que, apesar de ser mais administrativo, é um trabalho com contrato. Temos de continuar a conseguir atrair os jovens para a Ciência, até porque é fantástico ser cientista. Passamos a vida a ler artigos, a ter ideias, a pensar em soluções, mas não basta dizer que é fantástico fazermos perguntas, as pessoas têm projetos de vida e tem de haver a definição de uma carreira. Estamos a dar maus sinais. Sob pena de podermos tornar-nos um país que continua a apregoar que tem muito interesse na investigação e no desenvolvimento, mas que daqui a alguns anos não tem ninguém para investigar.

Perdemos investigadores, prejudicamos doentes e acabamos também por perder dinheiro?
Sim. Claro que a descoberta científica que gera um determinado produto para o tratamento de um problema oncológico impacta a sociedade e salva muitas pessoas, mas, de um ponto de vista meramente prático, é algo que pode gerar muito dinheiro. O investimento de base pode ter um retorno superior em muitos milhares de vezes. A realização de ensaios clínicos com a criação de um fármaco novo que seja produzido in house pode ser muito rentável. O Centro Académico do Hospital de Santa Maria e a Faculdade de Medicina têm um centro de ensaios clínicos, mas que são essencialmente de fases II e III, patrocinados pela indústria. Os de iniciativa de investigador com fármacos próprios são quase inexistentes, porque não conseguimos chegar sequer ao nível de ter uma ideia que seja patenteável, quanto mais desenvolvida e levada até à realização de um ensaio clínico. Quando fazemos descobertas, o que acontece é que as vendemos a empresas estrangeiras que depois as desenvolvem para as outras fases. E aí perdemos o resto do rendimento que aquilo poderia gerar. Estamos a fornecer a descoberta para outros fazerem muito dinheiro.

Apesar das dificuldades, quais os maiores mistérios da oncologia que, hoje, alimentam a curiosidade dos investigadores?
A formação das metástases continua a ser um dos grandes desafios. Do ponto de vista biológico, já sabemos bastante, mas do ponto de vista clínico é um desafio absolutamente estrondoso. Uma grande parte das pessoas com cancro morre das suas metástases, enquanto os tumores primários, de uma forma geral, respondem aos tratamentos. Depois há os que metastizam dez ou 15 anos depois do primeiro diagnóstico. Do ponto de vista biológico, é fascinante tentar perceber onde é que aquelas células estão e como é que sobreviveram aquele tempo todo. Há a hipótese de ser graças ao sistema imune, a hipótese de não existirem vasos sanguíneos novos, o que faz com que as células disseminadas não cresçam, ou a hipótese de não consumirem metabolitos e, por isso, não se dividirem muito.

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