“Há sempre um lado cómico, até nas pequenas e grandes tragédias. Claro que, muitas vezes, há a questão do timing, é preciso deixar passar algum tempo”

“Há sempre um lado cómico, até nas pequenas e grandes tragédias. Claro que, muitas vezes, há a questão do timing, é preciso deixar passar algum tempo”

Em 2023, as Produções Fictícias, que Nuno Artur Silva fundou (mas de que, entretanto, se desligou), cumprem 30 anos de vida. Foram uma revolução na escrita de humor e na valorização dos argumentistas e a base para a chegada do formato stand-up comedy a Portugal. Em 2015, o próprio Nuno Artur Silva não resistiu a subir a um palco (ao lado do “grande amigo” António Jorge Gonçalves e dos Dead Combo). O espetáculo chamava-se A Sério? e foi subitamente interrompido quando o seu autor foi convidado para a administração da RTP. Em 2019, planeou o regresso aos palcos, mas a ida para o governo, como secretário de Estado, obrigou-o a cancelar tudo. Onde É Que Eu Ia? é o muito apropriado título para o espetáculo que vai estrear-se a 12 de janeiro, no Teatro São Luiz. Promete-se um olhar sobre o País, a partir das peripécias de alguém que passou pela experiência de ser um “comediante no governo”.

Assumiu um cargo no governo, em outubro de 2019, e, passados poucos meses, caiu-lhe uma pandemia em cima. Sentiu que foi uma oportunidade perdida em relação a tudo o que ambicionava fazer?
Isso aconteceu a todo o governo, não foi só a mim… No meu caso, houve pela primeira vez uma Secretaria de Estado para o Cinema, Audiovisual e Media, com uma estratégia e com um contexto económico que permitia concretizá-la. Eu estava com a sensação de que ia apanhar um comboio já em movimento. Mesmo sendo novo, o governo vinha, em grande parte, do anterior… Eu ainda estava a perceber as dinâmicas, os processos. O Orçamento do Estado só foi aprovado em fevereiro [de 2020] e foi quase caricato: entreguei o plano da minha área à ministra e ao primeiro-ministro e, passadas uma ou duas semanas, tudo… acabou. Aquilo que era um plano num contexto económico favorável, de crescimento, de um momento para o outro passou a ser um “plano de emergência”. A pandemia obrigou a mudar tudo, e a mim, recém-chegado, causou-me uma enorme ansiedade, ao tentar perceber quais eram os mecanismos que podíamos ativar. Foi uma experiência extraordinária, em todos os sentidos da palavra. E quando sentíamos que estávamos a sair da pandemia, o governo caiu.

Pouco conseguiu concretizar dos seus planos. Houve um sentimento de frustração?
Apesar de tudo, acho que foram dados alguns passos. Conseguimos, por exemplo, inscrever no PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] duas iniciativas muito importantes: dotar os 150 cineteatros do País de equipamentos digitais e a digitalização de todo o cinema português. Também fizemos coisas importantes ao nível das obrigações dos operadores estrangeiros de audiovisuais em Portugal e do reforço do compromisso da RTP nos investimentos em cinema, séries, documentários e animação. E conseguimos pôr mais dinheiro no sistema, diversificando as fontes. É essencial que os artistas, os realizadores, os argumentistas, os produtores tenham mais portas a que possam bater, não pode ser só a RTP e os júris do ICA [Instituto do Cinema e do Audiovisual].

Antes de ir para o governo, esteve na administração da RTP. Sente uma atração pelo poder?
“Poder” para mim significa “poder fazer”. Os protocolos do poder não me atraem nada. Durante muitos anos, fiz as minhas coisas, criei a minha empresa [Produções Fictícias] e vivia do que eu e as pessoas que estavam comigo conseguíamos. Fizemos projetos que tiveram êxito, durante muito tempo, e que nos permitiram financiar outros mais alternativos.

Também aí se pode falar de “poder”…
Tive sempre um poder muito transitório nos sítios onde estive. E o poder nas Produções Fictícias vinha da capacidade de criar coisas que geravam audiências e criavam comunidades. A nossa pedra de toque foi dar importância e força aos argumentistas. Houve um momento-chave em que podíamos ter dado o salto da internacionalização: tivemos uma proposta de compra do Canal Q pela HBO, mas, quando íamos assinar o contrato, a Troika entrou em Portugal e eles não faziam contratos novos em países intervencionados pelo FMI… A minha vida teve assim uns altos e baixos engraçados, do ponto de vista de um argumentista.

Desde muito cedo que se concentrou na possibilidade de concretização das suas ideias…
Sim. Quando comecei a fazer coisas, ninguém me conhecia e eu não conhecia ninguém. Não havia TV Cabo nem internet, fiz o que tinha a fazer: com os meus colegas de faculdade, fomos para as salas pequeninas fazer teatro… Com as Produções Fictícias, no início, foi a mesma coisa.

E sente que a sua vida é uma continuidade desses impulsos?
Estar na RTP era só ter um brinquedo um bocadinho maior. Adorei estar na RTP. No governo, já se levantavam outras questões. Sinto que a minha dimensão é mais a do que fiz na RTP. No governo, trabalhamos com políticas globais, é muito importante o know-how jurídico, dos financiamentos públicos… Há um nível de decisão mais abstrato.

Quando chegou a esses cargos, na RTP e no governo, sendo alguém que vem duma área de grande liberdade criativa, do humor, e sem gostar dos “protocolos do poder”, sentiu dificuldades em se impor, de ser levado a sério?
Não, pelo contrário. Fui sempre tratado como acho que devia. O que senti é que não tive o meu tempo de aprendizagem dos caminhos, de como se desbloqueia isto ou aquilo. Nem tinha a formação partidária…

Havia pessoas muito divertidas no governo. O ministro do Ambiente, por exemplo, lembrava-se de ‘sketches’ do Herman de cor, alguns até que eu já tinha esquecido

Nunca foi o que se chama um “carreirista”…
Mas atenção… Eu acho que, em Portugal, faz falta formar líderes. A razão por que vou para a RTP e para o governo é porque acho que é muito perigosa aquela ideia do “ah!, eles, os políticos…” Um bom governo deve ser um equilíbrio entre políticos profissionais, de carreira, e quem vem da sociedade civil, com ideias, com uma visão. Os bons governos são os que sabem combinar isto. Os que chegam, sabendo que é por pouco tempo, têm uma grande tentação reformista, de quererem fazer uma série de coisas num tempo limitado, mas têm de ter lá aqueles que sabem como se faz, que aconselham. A política é a arte do possível. Eu inscrevo-me neste grupo dos que aceitam este jogo, temporariamente…

Estar dentro dos meandros do poder tem graça?
A graça está sempre nos olhos de quem vê. Era inegavelmente engraçado para mim, de repente, estar ali, eu que passei muito tempo a olhar para os governos de fora e a tentar ver os lados cómicos a partir dessa posição – por exemplo, na escolha dos bonecos para o Contra-Informação.

Nessa altura, poderia haver um boneco do Nuno Artur Silva…
[Risos.] Não, não se justificava gastar dinheiro nesse boneco. Eu olharia para mim e pensava logo: “Daqui a uns tempos este gajo está fora do governo, não vale a pena…” Mas depois de trabalhar, como eu trabalhei durante anos, a fazer humor, rodeado de humoristas por todos os lados, não conseguia desligar-me dessa atitude de quando estava a ver tudo de fora… Também passei a ver, às vezes com um olhar de cómico, o lado de fora visto lá de dentro: os jornalistas, os agentes culturais… E tinha, de facto, um bloco em que ia apontando umas coisas.

Que agora se vão ver no palco…
Algumas.

A dupla António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa tem muito potencial humorístico?
Tem, e já está muito explorado… Todas as personagens que estão muito tempo no poder, com um convívio enorme com os portugueses, tenham as características e as personalidades que tiverem, fatalmente se tornam… mitológicas. Entram permanentemente pelos nossos ecrãs, tornam-se uma paisagem. O Marcelo é uma personagem extraordinária. Não há nenhum político português como ele… É uma figura apetecível e marcante, à semelhança de Mário Soares e também, de outra maneira e talvez pelas razões opostas, de Cavaco. Temos oscilado entre as personagens do tipo “pai austero” e “os bonacheirões”, populares.

E António Costa?
Também começa a ser apetecível. Nas circunstâncias da pandemia, não pude estar assim muito próximo do primeiro-ministro. Mas participei em algumas reuniões com ele, claro. Reforcei a opinião que já tinha sobre as suas qualidades de liderança. Tem uma extraordinária capacidade de gerir o imprevisível. Tiro-lhe o chapéu por isso. Ele já tinha tido os incêndios de Pedrógão, depois veio a pandemia e, a seguir, a guerra… Vendo-o em ação, a gerir um Governo nessas circunstâncias, reconheço-lhe, sem reservas, uma capacidade de liderança extraordinária.

Neste espetáculo, Onde É Que Eu Ia?, é possível que o público identifique pessoas e episódios concretos dessa passagem pelo governo? Puxa pelo lado voyeurista da plateia?
A resposta certa, do ponto de vista do marketing, é: “Para saberem isso, têm de ir ver.” As pessoas conhecem o meu estilo, apesar de ter andado muito afastado dos ecrãs, nos últimos anos – e, hoje, no mundo das redes, nós só somos o que fizemos na semana passada. Em palco, vou ser o que sempre sou. E não vou ajustar contas, não é nada disso. Há alguns episódios que são irresistíveis e com suficientes indicações para que se perceba do que estou a falar. O tema do espetáculo é, basicamente, o que aconteceu nos últimos dez anos ao País e como é que eu, nos vários lugares por onde passei, fui olhando para isso. Para todos os efeitos, fui um comediante no governo.

Era um desperdício não aproveitar para escrever um espetáculo…
Era um desperdício. Dito isto, havia pessoas muito divertidas no governo. O ministro do Ambiente [João Pedro Matos Fernandes], por exemplo, lembrava-se de cor de sketches do Herman, alguns até que eu já tinha esquecido, e tem imensa graça, desconcertava-me sempre. E não era caso único. O André Moz Caldas, debaixo daquele ar sério e circunspecto, também tem muita piada… Mesmo no Ministério do Cultura, no meio de um contexto tão difícil, obviamente que havia momentos de catarse. Há sempre um lado cómico, até nas pequenas e grandes tragédias. O Dinis Machado dizia precisamente isso. Claro que, muitas vezes, há a questão do timing, é preciso deixar passar algum tempo.

Falando mais de tragédias: ficou ligado, na pandemia, à compra antecipada de publicidade institucional para apoiar os media, os célebres €15 milhões que, de repente, se tornaram um refrão populista nas redes sociais, suposto símbolo de uma subjugação dos media ao governo. Acha que essa medida foi mal comunicada ou aplicada?
Na altura, havia uma grande pressão para se tomar medidas. Isso levou a uma espécie de ansiedade e de exacerbação de tudo e mais alguma coisa, com o desespero no ar… Essa medida envolvia também o Ministério da Economia e foi discutida ao mais alto nível. Chegou-se a essa solução, que outros países também estavam a adotar: a compra antecipada de publicidade, num momento em que era importante a comunicação institucional com o público. Era dinheiro que, de qualquer maneira, iria parar aos media… Mal comunicada, acho que não foi. Fartámo-nos de explicar isso.

Mesmo assim parece que muita gente não percebeu…
Pois, porque houve muita demagogia pelo meio. Mas o processo também se complicou. A estrutura do Estado não estava formatada para fazer pagamentos adiantados. Tudo demorou mais tempo do que seria razoável; o Estado não está habituado a pagar serviços antes de eles acontecerem. Como piada, havia quem dissesse que, se queríamos dar esse apoio antecipado, o melhor era não o termos antecipado, optando por comprar publicidade normalmente…

Aquela pergunta com que, há muitos anos, se acabava uma entrevista a um artista que ia subir a um pequeno palco: para quando o Coliseu? Projetos para o futuro?
[Risos.] O Coliseu é uma hipótese que não me parece viável. Mas a malta que trabalhou comigo, e que levou com a porta na cara muitas vezes, hoje esgota coliseus nas calmas. Agora, fiz o que sempre faço quando saio de uma experiência diferente: voltar à minha base, sentar-me a escrever. Também fui convidado para dar aulas na [Universidade] Lusófona, de argumento, escrita e ideias para televisão. Gosto muito. E, claro, tenho umas ideias que quero concretizar no futuro…

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