“Ao contrário de Mussolini ou Hitler, que tinham pressa, os novos fascistas preferem uma estratégia de longo prazo. O grande problema é que, pelo que se vê, isso é bem capaz de resultar”

“Ao contrário de Mussolini ou Hitler, que tinham pressa, os novos fascistas preferem uma estratégia de longo prazo. O grande problema é que, pelo que se vê, isso é bem capaz de resultar”

O mundo que gira sob o olhar de Paul Mason não é diferente daquele que o leitor observa. A tensão geopolítica e económica, que se espalha como um rastilho pelos quatro cantos do mundo, tem criado a oportunidade para que o pesadelo do fascismo volte a despertar. No seu mais recente livro, Como Travar o Fascismo (Objectiva, 392 págs., €21,95), o jornalista e escritor britânico – que também é professor universitário e ativista – apresenta-nos um manual de resistência coletiva ao avanço da extrema-direita.

Em Como Travar o Fascismo, logo no início, afirma que os “nazis estão de volta”. Quem são os nazis do século XXI?
Recuemos ao dia 6 de janeiro de 2021, nos Estados Unidos da América. Nesse dia, militantes de extrema-direita, uniformizados, treinados e armados, tentaram invadir o Capitólio usando a violência. Não se tratou apenas de um protesto, mas de uma tentativa de derrube da democracia norte-americana – é disto que estamos a falar. Mesmo que, no mundo inteiro, existam apenas algumas centenas de milhares de pessoas que pensam daquela forma, o grande problema, neste momento, é que a forma de pensar dos apoiantes de outros movimentos políticos (do populismo de direita e do conservadorismo tradicional) está cada vez mais próxima da da extrema-direita. Na década de 1990, a maioria dos politólogos defendia que o populismo de direita até poderia servir de barreira de proteção contra o fascismo, mas hoje verifica-se que as coisas não são assim…

Considera que existe uma “concertação” de esforços entre extrema-direita, populistas e conservadores? De que forma distingue, nesse caso, populistas, como Marine Le Pen ou Donald Trump, da extrema-direita?
A ciência política atual já faz essas divisões. Os nomes que mencionou são de políticos que estão genuinamente disponíveis para aceitar a democracia, mesmo não gostando do modelo. Preocupa-me, sim, a forma de pensar dos apoiantes destes partidos ou políticos, sejam populistas sejam conservadores, que está cada vez mais próxima, em termos ideológicos, da dos fascistas. Hoje, estes movimentos populistas e conservadores aceitam e partilham, por exemplo, a teoria da Grande Substituição (criada por Renaud Camus), segundo a qual se diz que a população branca está a sofrer um genocídio, em sequência das vagas de migrantes. O populismo de direita, que surgiu nos últimos 30 anos, sempre foi racista; os conservadores nunca gostaram de muçulmanos. No entanto, não partilhavam esta teoria de supremacia branca.

Quem apoia políticas populistas e conservadoras está a contribuir para o regresso do fascismo?
Esse é um grande problema: nem todas essas pessoas são fascistas. Porém, muitas delas, inadvertidamente, estão, de facto, a contribuir para defender ideias fascistas. Somos uma sociedade ligada em rede e, por isso, deparamos diariamente com notícias falsas e com a desinformação. Essa realidade é aproveitada por grupos de extrema-direita (como os norte-americanos QAnon, que se dedicam a espalhar teorias da conspiração) que não incluem todas as ideias fascistas mas contemplam muitas delas. As pessoas que apoiam algumas dessas ideias, mesmo que apoiem populistas e conservadores e que aceitem a democracia, acabam por assimilar, normalizar e espalhar esse discurso – que é, na realidade, fascista –, como aconteceu recentemente no caso dos negacionistas da Covid-19. Neste momento, é importante perceber que o fascismo do século XXI não precisa de ser divulgado como um todo, num grande livro que explique tudo, como o Mein Kampf: basta existir através de pequenas ideias-chave.

E que ideias-chave são essas?
O fascismo moderno apresenta, essencialmente, cinco ideias-chave: a Grande Substituição (de que já falámos); a de que os facilitadores desse genocídio do homem branco, os “inimigos”, são progressistas, defensores dos direitos humanos e feministas; a convicção de que, atrás desses “inimigos”, há uma agenda de “marxismo cultural”; a de preparação das pessoas, na maior parte das vezes, através da repetição do discurso, para que estejam disponíveis, não para uma insurreição nas ruas como antes acontecia, mas para uma violência simbólica; e, por fim, a ideia de que é preciso aguardar pelo “grande dia”, em que uma guerra racial e étnica vai eclodir. Os apoiantes dos populistas e dos conservadores podem, até, defender apenas dois ou três destes pontos, mas quando alguém defende os cinco, então pode ser considerado fascista.

Essa estratégia tem resultado?
Sim. Atualmente, uma em cada cinco pessoas detidas no Reino Unido por terrorismo é jovem. É também alguém que pesquisou e fez download na internet de conteúdos em que se explicava como fazer uma revolta armada e violenta. Esses indivíduos nunca construíram uma bomba, é certo, mas, ao desvalorizarmos estes atos, estamos no fundo a desvalorizar a capacidade de o fascismo se tornar real.

As redes sociais vieram facilitar a difusão destas ideias?
Sem dúvida. O fascismo do século XXI não precisa de se organizar numa estrutura vertical – não precisa de um líder. Os fascistas, hoje em dia, usam as redes sociais da mesma forma do que a esquerda; a diferença é que, atualmente, se sabe que as grandes plataformas recorrem a um algoritmo que beneficia os conteúdos extremistas e violentos, contribuindo para normalizar o preconceito e o ódio. No meu livro, dou o exemplo de um caso que aconteceu no Brasil, quando um professor de Biologia, que durante anos deu sempre a mesma matéria, começou a ser confrontado pelos alunos que se levantavam a gritar que não queriam ouvir “tretas marxistas” sobre a evolução e sobre como o mundo fora criado. Os professores não percebiam de onde vinha aquilo, mas, na verdade, vinha de um algoritmo que levou estes miúdos a se radicalizarem, sozinhos, nos seus quartos, à frente de um computador, sem que ninguém se apercebesse disso.

Qual a solução para as redes sociais?
Temos de exigir que as plataformas não permitam notícias falsas, a desinformação e as teorias da conspiração – impedir que se faça dinheiro com estes conteúdos.

Cada vez mais pessoas apoiam ideias extremistas. A tendência vai manter-se?
Provavelmente as coisas ainda vão piorar. Estamos a entrar num período de crise, temos dois Estados autoritários (Rússia e China) numa escalada contra o Ocidente, encaramos o caos climático, mais migrantes vão chegar à Europa… Os fascistas do século XXI não têm pressa de que chegue o “grande dia”. Ao contrário de Mussolini ou Hitler, que tinham pressa, os novos fascistas preferem uma estratégia de longo prazo. O grande problema é que, pelo que se vê, isso é bem capaz de resultar.

Refere que, quando era jovem, tinha a convicção de que “o fascismo estava ultrapassado e derrotado”. O que mudou? Não aprendemos nada com o passado?
Não podemos dizer isso, porque estamos perante a geração mais instruída da História da Humanidade. Na minha opinião, tudo mudou com a crise financeira e económica de 2008, que levou ao colapso de uma ideologia, ao fim da confiança no mercado livre, no neoliberalismo, naquilo que a maioria dos cidadãos acreditava ser a solução e a explicação para tudo. As pessoas, nesse momento, começaram à procura de novas respostas para o futuro, e muitas encontraram-nas nas cinco ideias-chave do fascismo do século XXI. São indivíduos que começaram a sentir a necessidade de recuperar uma versão da sociedade mais tradicional, rejeitando a modernidade…

Os partidos e os políticos moderados falharam?
Culpo o centro político, porque, após 2008, não conseguiu adaptar-se ao colapso do modelo financeiro e económico ocidental. A imposição da austeridade, a insistência nas regras do mercado ou a falta de investimento público nos serviços essenciais, tudo isso prejudicou as pessoas. Mas devo dizer que, agora, passados todos estes anos, o que importa é que o centro-esquerda perceba, de uma vez por todas, que os inimigos não são os partidos do centro-direita, nem Christine Lagarde nem Ursula von der Leyen… Os inimigos são as alianças entre extrema-direita, populistas e conservadores, que querem e podem destruir a democracia. Quando, em França, vejo apoiantes da esquerda a criticar os eleitores de Emmanuel Macron por não terem votado em Jean-Luc Mélenchon, peço-lhes que sejam realistas, que compreendam que, muito provavelmente, no futuro será preciso uma aliança Macron-Mélenchon para derrotar os extremistas. Por vezes, não compreendo a postura de uma certa esquerda, que parece não ter entendido o que aconteceu nos últimos anos… Lembra-me a do Partido Comunista Alemão, nos anos de 1930, que, perante a ascensão de Hitler, continuava a dizer que os socialistas eram o inimigo.

É importante que o centro-esquerda perceba quem são os adversários. Certa esquerda lembra-me a postura do PC alemão que, na ascensão de Hitler, ainda dizia que os socialistas eram o inimigo

Diz que o fascismo do século XXI não precisa de um líder, mas há um nome que tem unido os movimentos de extrema-direita e da direita radical: Vladimir Putin. A guerra na Ucrânia é um alerta da ascensão do fascismo?
No meu livro nem sequer falo de Putin, mas antes do seu guru, Alexander Dugin. A questão é que ninguém percebeu que Putin se radicalizara, exatamente como acontece com os adolescentes, sozinho, no seu quarto, à frente do computador… O que mais me incomoda nesta guerra é a brutalidade de Putin… Os líderes do Estado Islâmico diriam que a História só te levará a sério se matares um milhão de pessoas – e é também por isso que tantos jihadistas admiram Hitler. Penso que Putin está a pôr em prática esta teoria, massacrando cidades inteiras e milhares de pessoas, e isso é algo com que a extrema-direita se identifica.

Considera o antifascismo “fundamental”. Fala do “velho” antifascismo ou de um novo?
O velho já não funciona. Nos países em que se observa uma aproximação entre extrema-direita, populistas e conservadores, como acontece nos Estados Unidos da América ou no Brasil, é preciso criar alianças entre as forças políticas do centro e da esquerda, em projetos que protejam as democracias. Depois, precisamos de confiar nas próprias regras democráticas, nas leis que existem e que permitem travar o extremismo e o seu financiamento. Por fim, também temos de perceber que, na década de 1930, o fascismo era entendido como uma ideologia tal como as outras; a própria sociedade, enquanto um todo, tem de compreender que existem questões éticas e morais que não podem ser permitidas na política.

O seu livro explica como travar o fascismo. Falta saber se tem esperança de que as soluções sejam aplicadas, antes de ser tarde demais…
Acho que os norte-americanos estão a conseguir encontrar soluções. Se houver uma aliança de centro-esquerda forte, uma robusta ação do Estado, se o caráter ético e moral da sociedade for fortalecido, então, sim, acredito que é possível encontrar soluções para derrotar novamente o fascismo. O inquérito ao ataque no Capitólio, conduzido pelo Congresso norte-americano, já nos deu um sinal positivo. O processo expôs como Donald Trump e os nazis, que estiveram ao seu lado, não cumpriram a lei. No partido democrata, mas também no republicano, estão a ser criados mecanismos éticos e morais para que a democracia norte-americana não volte a ser posta em causa… Apesar de tudo, o dia 6 de janeiro de 2021 pode ter permitido perceber como devemos e podemos lidar com o fascismo no século XXI.

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