“O que a História nos mostra é que, sempre que achamos que sabemos o quão insignificantes somos, afinal somos mais insignificantes ainda”

“O que a História nos mostra é que, sempre que achamos que sabemos o quão insignificantes somos, afinal somos mais insignificantes ainda”

Em 2015, David Sobral descobria a galáxia mais brilhante do universo. Apelidou-a de CR7, um jogo de palavras entre Cosmos Redshift 7 e o número da camisola do maior craque do futebol nacional. Cinco anos mais tarde, o astrofísico e professor associado na área da Astrofísica Extra-galáctica na Universidade de Lancaster lança o livro Qual é o Nosso Lugar No Universo? (Planeta, 248 págs., €16,50). É uma reflexão, mais do que um relato, dos momentos-chave de uma vida, ainda jovem, dedicada a olhar para o céu.

Amante de literatura e curioso por natureza, David Sobral, 36 anos, esteve prestes a seguir Línguas e Literaturas Modernas antes de decidir-se pela Astrofísica quando, no Secundário, fez uma apresentação sobre buracos negros no Observatório Astronómico de Lisboa. No livro, o culminar dos últimos 18 anos, junta os dois mundos, relatando memórias de infância, da escola secundária, no Barreiro, e da universidade, em Lisboa, bem como o que tem aprendido (de bom e de mau) ao longo dos anos passados atrás de telescópios internacionais em busca dos primórdios do universo. À VISÃO, confessou que “além da ciência em si”, gosta muito de “contar histórias que simplifiquem conceitos complexos”, e partilhou algumas das ideias que tem sobre o nosso lugar no Espaço infinito onde nos tocou habitar.

Ainda lidamos mal com o facto de não estarmos nem no centro do Sistema Solar nem no centro da galáxia e, muito menos, no centro do universo?
Penso que, ao longo da História, tendemos sempre a escolher opções que nos fizessem sentir bem. É mais reconfortante acharmos que somos especiais do que aperceber-nos de que o rácio de 1 a dividir por 80 zeros é quanto representamos no universo. Mas isso, às vezes, também é bom para a sociedade. Abro o livro precisamente com um poema de Álvaro de Campos que espelha muito esta dualidade, a capacidade de podermos não ser nada e, ainda assim, “termos em nós todos os sonhos do mundo”. Ou seja, não é necessário ficarmos deprimidos com a nossa insignificância, pois só o facto nos apercebermos dela já é um grande feito.

Ainda assim, somos feitos de poeira de estrelas. De certa forma, pertencemos mais ao céu do que à Terra?
A Terra também é feita totalmente de pó de estrelas. Noventa por cento do que existe no Sistema Solar veio de outras estrelas que existiram antes, inclusive o Sol. Os outros 10% vêm do início do universo, as chamadas estrelas de primeira geração, que surgiram quando existiam só dois elementos na tabela periódica. E isto é algo que partilhamos, não só com outros seres vivos, como com a Terra e com outros planetas.

Devolvo-lhe então a pergunta que dá o título ao livro: qual o nosso lugar no universo?
O nosso lugar no universo está constantemente a evoluir, porque está sempre dependente da nossa ignorância futura. O que a História nos mostra é que, sempre que achamos que sabemos o quão insignificantes somos, afinal somos mais insignificantes ainda. O contrário nunca aconteceu. Por outro lado, se enquanto indivíduos somos muito insignificantes, enquanto coletivo somos muito mais do que a soma das partes. Talvez seja a perspetiva humana de acharmos que somos sempre um bocadinho mais especiais, mas penso que quando colaboramos conseguimos fazer muito mais do quando somos apenas um 1 sobre 80 zeros.

Também o progresso científico beneficiaria desta abordagem mais colaborativa, ou a competição extremamente elevada que existe no meio acaba por ser inevitável e necessária?
É um pouco de ambas. Em muitos casos, a competição é feroz demais, seja motivada pela procura de financiamento ou por egos. Nesse aspeto, seria muito melhor percebermos que, quando fazemos uma descoberta ela é da Humanidade, não há direitos de autor. Por outro lado, pela própria natureza humana, às vezes tem mesmo de haver alguma competição para aumentar a motivação com que se fazem as coisas, como aconteceu com a corrida ao Espaço, durante a Guerra Fria. Talvez, no futuro, a Humanidade consiga arranjar uma maneira de fazer progressos sem que tenha de existir esta competição.

Referiu que uma das motivações para esta competição é a procura de financiamento. É difícil encontrá-lo, seja dentro seja fora de Portugal?
Acho que é uma realidade comum a qualquer país. Talvez a maior dificuldade seja a falta de uma estratégia a longo prazo. O que acontece cada vez mais é que os financiamentos são, quase sempre, para projetos, no máximo, a cinco anos. Em países como Portugal, por exemplo, é relativamente fácil ter estes financiamentos, mas é muito difícil ter emprego. O problema é que nenhuma ciência mesmo a sério, que faça uma revolução, consegue ser feita nesse espaço de tempo.

A outra dificuldade em obter financiamento é quando se quer fazer algo muito fora da caixa, como quando encontramos a CR7 que, ao contrário do que se sabia das primeiras galáxias do universo, não era pequena nem pouco brilhante. Na prática, nunca houve uma verba específica para procurar esta galáxia, porque o meio é tão competitivo que quem avalia acha que certas coisas vão ser um desperdício de tempo. Mas também, só apostando em coisas mais arriscadas é que conseguimos fazer grandes descobertas.

Neste momento, que investigações estão mais próximas de conseguir fazer essas grandes descobertas?
Uma coisa que chama a atenção de toda a gente é o estudo dos planetas fora do Sistema Solar. Estamos mais ou menos a um mês do dia em que os dados do novo telescópio James Webb, lançado no dia de Natal, estarão disponíveis [deverão ser divulgados em meados de julho]. Através deste telescópio, será possível estudar as atmosferas dos planetas fora do Sistema Solar, procurar biomarcadores e iniciar a corrida da busca pela vida fora do Sistema Solar.

Os professores tomam as perguntas dos alunos como uma afronta à autoridade. Faz mais sentido assumir que não sei e que vou para casa pensar no assunto

Acredita que será viável chegar em tempo útil a esses planetas fora do Sistema Solar, ou faz mais sentido preservar o que temos aqui na Terra?
Preservar o que temos é muito mais promissor, mesmo a longo prazo. Mas também acho que não será assim tão difícil chegar a outro planeta com robôs, Inteligência Artificial ou, no melhor dos casos, dado que o tempo que demorará a viagem será sempre maior que o da vida humana, num estado embrionário com um computador que, depois, consiga gerar lá os bebés.

Falhamos na preservação da Terra. Corremos o risco de fazer o mesmo com o Espaço?
Já há consequências negativas para a astronomia feita a partir da Terra. Há dez anos, quando apontávamos o telescópio para o céu, apanhávamos um ou outro satélite militar e agora, cada vez mais, é comum em todas as imagens haver um satélite que passa, prejudicando as observações. O problema, a longo prazo, será o lixo espacial, e já há imenso. Restos de missões, de cada vez que mandamos um foguetão, e que vão causando danos até aos outros satélites. Esta poluição é perigosa do ponto de vista prático, porque, além de inviabilizar expedições futuras, se continuar a este ritmo, pode ser extremamente perigoso para um astronauta sair para o Espaço daqui a centenas de anos. A probabilidade de levar com uma partícula de um satélite e perfurar começa a ser muito elevada.

O objetivo é chegar sempre mais longe ou a solução para a pergunta de onde viemos pode estar mais próxima do que pensamos?
É mais fácil quebrar um recorde, é normalmente isso que faz os títulos e as capas das revistas e, por isso, muitos dos recursos são alocados a esse objetivo. Mas esse é apenas o primeiro passo, o verdadeiro trabalho começa a partir daí, quando vamos perceber se o que foi encontrado está de acordo com o que nós achávamos ou se está longe disso, a fim de percebermos um bocadinho melhor as nossas origens.

No livro refere que, na escola, ensinam Ciência como se fosse algo estático e fechado. Se a escola ensinasse a fazer mais perguntas, os alunos interessar-se-iam mais por Ciência?
Sem dúvida. Eu, pelo menos, teria gostado ainda mais de Ciência. A Ciência é ensinada como se fosse uma coisa que está escrita numa placa, que não vai mudar, e devia ser mais sobre as capacidades de abordar um problema, fazer perguntas, testar. Por outro lado, é difícil aplicar isso. Seria mais complicado para um professor preparar a aula e termos uma bitola única em todas as escolas.

Se calhar, é preciso começar ainda antes e investir mais na formação dos professores. Mesmo a nível universitário, às vezes, é muito difícil fazer perguntas fora da caixa ou resolver um exame de forma correta, mas diferente da que foi apresentada nas aulas. Depois de ter estado muito tempo no Reino Unido e na Holanda, diria que este problema poderia ser resolvido através de uma relação entre professores e alunos muito mais plana, sem ter o professor no pedestal. O problema é que, muitas vezes, os professores tomam as perguntas dos alunos como uma afronta à autoridade. Mais do que sentir-me mal por não saber uma coisa e tentar que isso não transpareça para os alunos, faz muito mais sentido assumir que não sei e que vou para casa pensar no assunto a fim de lhes dar uma resposta melhor.

Errar é importante para aprender…
O mais importante do erro, em Ciência, é consciencializar-nos de que vamos errar sempre. Convém que tenhamos sempre dúvidas, seja sobre o nosso trabalho ou sobre o dos outros, que mantenhamos um espírito crítico e que percebamos que não se trata de ver se temos algum erro aqui, mas onde é que está o erro. Muitos dos erros são mínimos ou são coisas que só serão percetíveis daqui a dez ou 20 anos. Por exemplo, encontrar a CR7 é uma demonstração do quão importante é falhar e, sobretudo, do quão importante é a resiliência quando se está a fazer uma coisa que pode ir para lá do horizonte atual. Foram talvez cinco ou seis anos em que achávamos que já tínhamos encontrado aquilo e afinal era só ruído, ou era um asteroide ou uma estrela pequenina.

Procura o Nobel?
Se me dessem o Prémio Nobel obviamente seria excelente, mas acho que é um objetivo irrealista, independentemente das descobertas que possa vir a fazer. Estatisticamente, na área da Física, é quase impossível para alguém que não tenha tido um familiar ou orientador que tenha sido Nobel, ganhar o prémio. Tem que ver com a rede de influências e com o facto de estes orientadores quererem que os alunos sejam bem-sucedidos, nomeando-os para prémios ao longo da carreira. Quem acaba por ganhar é alguém que está bem posicionado para o fazer e não necessariamente quem tenha feito uma coisa espetacular. Há exceções claro, como a descoberta dos primeiros planetas extra-solares. Por outro lado, penso que seria mais importante, sobretudo em Física, mulheres serem reconhecidas. Em quase 100 anos de Prémio Nobel, ganharam apenas quatro mulheres, isto reflete um enviesamento.

Falta alguma meritocracia na Ciência então?
Depende muito dos prémios. Uma coisa que não sabia quando era mais novo é que a maioria dos prémios são nomeações, é preciso arranjar alguém que nos nomeie. O Prémio Nobel e outros são completamente externos à iniciativa da pessoa, mas a maioria não. Tem de se andar atrás de pessoas para se ser proposto a determinado prémio, o que faz depender tudo um bocadinho do grupo onde se está inserido e quão importantes são as pessoas que nos vão nomear. Claro que quem ganha um prémio tem sempre mérito e há muito mais pessoas com mérito do que prémios, obviamente.

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