“Há muita gente que canta e não é o Frank Sinatra. A dado momento, pensei que tinha o direito de não ser o Saramago”

Foto: Lucília Monteiro

“Há muita gente que canta e não é o Frank Sinatra. A dado momento, pensei que tinha o direito de não ser o Saramago”

Anda há anos a tratar dos livros dos outros com gestos de jardineiro de bonsais. Poda dali, alimenta acolá, num ritual diário que exige alguma cerimónia, mas, antes de tudo, um infinito amor à leitura. Rui Couceiro, 38 anos, que esteve 10 anos na Porto Editora como assessor de comunicação e há 6 é editor de não ficção na Bertrand, onde dirige a chancela Contraponto, nunca deixou de escrever, mas só agora decidiu publicar em nome próprio e logo com um romance de mais de 400 páginas, Baiôa sem Data para Morrer (Porto Editora, 448 págs., €19,90), que chegará às livrarias na próxima semana. Admite o arrojo e assume os riscos da inevitável exposição que daí decorre, avisando, à partida, que o título “arranca com uma palavra estranha, contrariando as boas práticas editoriais e até um ou outro conselho de gente amiga e ajuizada.” Este Baiôa, que é também um longo testemunho de amor ao Interior do País deixado ao abandono pelos poderes políticos e económicos, será apresentado no Porto (dia 25, no Museu Soares dos Reis) por Valter Hugo Mãe, com moderação de Inês Maria Meneses, e em Lisboa por Alberto Manguel, com moderação de Luís Osório (dia 28, na Casa do Alentejo). Seja no papel de autor seja no de editor, Rui Couceiro fala de livros sempre com o mesmo empenho: aquele com que, em miúdo, esfolava os joelhos a jogar voleibol em Espinho, a cidade costeira onde cresceu.

Ao fim de vários anos a editar os livros dos outros, escrever um livro em nome próprio, neste caso um longo romance, correspondeu a um impulso irresistível?
Foi absolutamente irresistível porque, ao entrar no meio da edição, há 16 anos, eu já estava a obedecer a um amor antigo pela leitura e pela escrita. Na faculdade, estudei Jornalismo, ainda trabalhei em vários meios de Comunicação Social, mas, a dado momento, surgiu a oportunidade de ingressar na Porto Editora, e eu não hesitei. Era ali que queria e que quero estar. Para mim, a leitura e a escrita sempre estiveram totalmente ligadas. Sinto que ler é como acender um pavio. Leio e passado um bocado já estou a escrever, sobretudo se estiver a ler os autores de que mais gosto. Se leio coisas muito bem escritas, de algum modo acabo por ficar empolgado.

Não se sente intimidado?
Não, creio ter a noção clara do que sou capaz e do que não sou capaz de fazer. Mas à medida que escrevo vou aprendendo mais, o que provavelmente acontece às outras pessoas, em muitos outros trabalhos muito diferentes da escrita. Acredito que, se nos empenharmos, nos vamos apurando naquilo que fazemos. Não é por acaso que todos os grandes escritores, quando lhes são pedidos conselhos para os jovens autores, acabam por fazer invariavelmente a mesma recomendação: leiam muito e escrevam muito, sem medo de falhar.

A mítica inspiração também exige esforço?
Muito esforço, se possível diário e constante. A ficção sempre me fascinou. Não me interessa tanto escrever sobre o que aconteceu; o que me estimula é escrever sobre o que não aconteceu, melhor dizendo: sobre o que poderia ter acontecido.

É um editor conceituado, com obra feita. Não sente que se está a expor demasiado ao publicar um romance em nome próprio?
Sinto, sim. Mas há muita gente que canta e não é o Frank Sinatra. A dado momento, pensei que tinha o direito de não ser o Saramago. Mentiria, no entanto, se dissesse que não estou consciente de que esta atitude pode mesmo fragilizar a minha posição enquanto editor.

Sentiu esse receio quando estava a escrever?
Não posso dizer que o tenha sentido, mas algumas pessoas próximas advertiram-me para essa possibilidade, que é real. Porém, ganhei confiança à medida que algumas pessoas, que eu considero muito, foram lendo a obra e me foram incentivando. Quando, no começo da pandemia, publiquei algumas ficções breves na VISÃO [no site da VISÃO, sob o título Os Dias que Ficam], a editora Sofia Fraga [da Porto Editora] perguntou-me se eu não tinha na gaveta algo mais extenso, de maior fôlego. Falei-lhe num romance por terminar e ela pediu-me para o ler. Passei-lhe 50 páginas. Foi graças à reação entusiástica da Sofia que, mais tarde, depois de muito trabalho, decidi entregar o romance ao Vasco David, diretor editorial da Porto Editora.

Quem são estas personagens que vivem no Alentejo interior, em quem se inspirou?
Nada me comove mais do que a ruralidade e a velhice que, em Portugal, são muitas vezes duas faces da mesma moeda. Mexe muito comigo aquela aspereza do trabalho na terra ou em profissões tradicionais, quase em vias de extinção. Tenho um respeito sem fim por essa gente que resiste e se robustece nas maiores dificuldades. Tendo a ser muito observador, e toda a vida fui acumulando características dos outros, em especial dos mais velhos. Estas personagens têm muito dos traços e dos gestos das pessoas que fui conhecendo, ali e aqui, e guardando, quase como um colecionador.

São personagens muito solitárias. É o preço da interioridade?
O livro passa-se no Alentejo, mas poderia ser noutra região do País, como Trás-os-Montes ou certas zonas da Beira, onde os problemas são basicamente os mesmos: isolamento, descaso por parte de quem pode tomar decisões políticas, ausência de infraestruturas e empregos.

Tem uma ligação grande ao Alentejo, embora seja um homem do Porto?
Tenho uma ligação afetiva ao Alentejo, mas também à literatura neorrealista que eu li muito quando me formava como leitor. Li todos, desde o Manuel da Fonseca (Cerromaior, O Fogo e as Cinzas, Seara de Vento…) a Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol. Até li a fase neorrealista de Vergílio Ferreira, com o romance Vagão J.

São autores hoje considerados fora de moda…
… E tidos como autores menores, o que no meu entender não é justo. Obviamente que não é aquilo que pretendo fazer hoje, não acho sequer a coisa mais extraordinária que se pode fazer em literatura, mas também têm muita coisa boa que eu valorizo.

No seu livro, a solidão e o isolamento não são apenas apanágio das personagens mais velhas. Dir-se-ia que a relação mais próxima do narrador, homem jovem e essencialmente urbano, é com o smartphone.
Essa é a principal ponte para os tempos de hoje. Este é um livro que se passa em ambiente rural, mas a temática é de grande atualidade. Nós vivemos num tempo em que somos comandados por essa autêntica bomba de dopamina que são os smartphones. Este é um problema que me preocupa muito, até como editor, porque redunda numa solidão profunda das pessoas. Mas também procuro estabelecer outras pontes, através de situações que me inquietam muito.

Ao longo dos séculos, não tem havido vontade política para tornar o País mais evoluído culturalmente. Os nossos índices de leitura estão a cair a pique. Sabe-se da existência do problema, mas pouco se faz

Como a violência doméstica…
É uma realidade a que sou muito sensível e que existe em qualquer contexto social ou geográfico… O que procuro mostrar é que tudo pode acontecer em qualquer lugar, por mais pequeno e desertificado que este seja. Por isso, nesta pequena e agonizante aldeia, acontece um pouco de tudo que nos rodeia nas grandes cidades. É um microcosmos. O facto de o próprio narrador assumir a sua cobardia é um espelho do que se passa connosco, porque todos conhecemos casos destes e, no entanto, quantos de nós fazem realmente algo para mudar as coisas? Já para não falar do triste papel desempenhado pelo poder judicial, que continuamente iliba os agressores ou os penaliza de forma ridícula. Os juízes são, em demasiados casos, coniventes com os agressores. Há exceções, naturalmente, mas a minha opinião sobre a magistratura portuguesa tende a ser muito pouco favorável.

Já leva uns anos como editor no grupo Porto Editora. Que balanço faz deste percurso?
Como editor são seis anos, já, e tem sido uma viagem muito boa, porque me permite estar num ambiente de que gosto, que é o do livro, mas sobretudo porque me é possível conhecer pessoas extraordinárias. Tenho percebido que todo o tipo de autores tem alguma coisa para me ensinar. Neste momento, porque estou muito a trabalhar em não ficção, dá-me muito gozo conhecer pessoas que são grandes especialistas nas suas áreas de especialidade. E depois eu gosto de pessoas, tendo a apreciar o melhor de cada uma e acho que, para um editor, isso é fundamental, já que é nossa obrigação exponenciar as qualidades dos autores antes que o livro chegue ao público. Sei que o meu livro não seria o que é sem o trabalho da sua editora, a Sofia Fraga, e é justo reconhecê-lo, porque procuro fazer o mesmo com os livros dos meus autores.

E como é lidar com os egos dos autores? Exige diplomacia?
Podemos dizer que sim. Tento ser diplomata e atencioso, todos os dias. É evidente que há autores com quem, às vezes, perco um bocadinho a paciência, mas, em geral, gosto muito de me relacionar com eles. Os autores não são, de todo, o maior problema de um editor.

Na Contraponto, tem lidado com autores de perfis muito diversos, desde especialistas em determinadas áreas científicas às celebridades, como Pinto da Costa ou Cristina Ferreira. O que lhe exige esta diversidade de perfis?
Na verdade, não me exige grande coisa, porque sou uma pessoa que se sente tão confortável na Assembleia da República como na taberna ou na feira. Sinto-me exatamente da mesma maneira em ambos os contextos. Encaro com o mesmo à-vontade autores como Miguel Esteves Cardoso e José Tolentino de Mendonça, naturalmente mais literários, ou autores como Cristina Ferreira, Pinto da Costa ou Tony Carreira. É evidente que, se eu estiver com um autor mais canónico, as conversas podem ser mais literárias, ou então não… Mas não se pense que as conversas não são interessantes com as chamadas celebridades, até porque todas são figuras de topo nas suas áreas. E não será por acaso que assim se mantêm durante anos a fio. Sabem imenso sobre o seu métier e não só. Não podemos reduzir as pessoas à perceção pública que temos delas.

Como é ser editor num País em que, segundo os estudos mais recentes, se lê pouco e se compra ainda menos?
É muito angustiante mas, no meu entender, não se pode olhar só para o lado jusante deste rio. Acho francamente que, ao longo dos séculos, não tem havido vontade política para tornar o País mais evoluído culturalmente, e continua a ser assim. Não temos querido que as nossas crianças leiam mais. Nos últimos anos, sempre que tenho a oportunidade de falar publicamente, tenho defendido que a cultura passe a ser encarada como um desígnio nacional. No caso dos livros, os nossos índices de leitura estão a cair a pique. Temos o estudo mais recente, divulgado há uns meses [Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian ao Instituto de Ciências Sociais], temos os dos anos anteriores, encomendados pelo Plano Nacional de Leitura, conhecemos os números dos outros países. E concluímos o quê? Que se sabe da existência do problema, mas pouco se faz. À semelhança de outras pessoas que trabalham com o livro, estou disponível para trocar impressões com quem quer que seja para dar sugestões. Se quisermos ser um País desenvolvido não podemos ser um País que não lê.

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