“Tivemos a sorte de viver nessa época de paz duradoura do pós-II Guerra Mundial, mas há outros horrores a caminho”

Foto: Marcos Borga

“Tivemos a sorte de viver nessa época de paz duradoura do pós-II Guerra Mundial, mas há outros horrores a caminho”

A vida de Anne Beaumanoir (1923-2022), mais conhecida como Annette, dava um filme. Até agora deu dois livros: um escrito pela própria, de memórias, discretamente publicado no ano 2000, e este Annette, Epopeia de Uma Heroína (Dom Quixote, 176 págs., €14,90), de Anne Weber, agora lançado em Portugal. A sua autora nasceu na Alemanha, em 1964, mas vive em Paris desde 1983; é, pois, uma alemã muito francesa. A história de Annette, que participou ativamente na Resistência, em França, durante a ocupação nazi, fascinou-a. Era uma mulher cheia de sonhos e vontade de ação. Mais tarde, abraçou a causa da luta pela independência da Argélia, deixando para trás filhos e uma carreira na área de Neurofisiologia. Foi uma convicta militante comunista até sentir que esse compromisso total era mais opressor do que libertador (“Este tipo de obediência cega a um poder supremo não encontra outro nome senão fé”, lê-se). Annette viveu intensamente as grandes questões e lutas do século XX, mas ao lermos este livro, em forma de epopeia, somos surpreendidos com a sua grande atualidade nestes tempos de guerra, utopias e pesadelos.

Como descobriu Annette? Na parte final do livro dá umas pistas. Foi mesmo assim, num debate?
Sim, foi.

Mas já tinha ouvido falar nela?
Não. Ela não era uma figura muito conhecida; agora é um pouco mais. Há uns cinco ou seis anos, fui convidada de um pequeno festival de cinema documental, em Dieulefit, na Provença. No fim da projeção de um filme, eu e outras pessoas falávamos com o público, que também podia participar. E uma mulher muito velha, curvada, de cabelos muitos brancos, olhos muito azuis e vivos, pequena, frágil… levantou-se. Senti-me logo atraída pela sua maneira de falar e aparência. E também, claro, por ter dito que tinha sido da Resistência [durante a II Guerra Mundial]. Nunca tinha encontrado ninguém que tivesse feito parte da Resistência.

E desse momento nasceu este livro…
Não pensei logo em dedicar-lhe um livro. Voltámos a encontrar-nos, falou-me da sua vida… A decisão de escrever sobre ela, julgo que aconteceu no momento em que li as próprias memórias, que saíram há cerca de 20 anos numa pequena editora. Ela podia ter todas as qualidades que eu não tenho mas… não era uma escritora. Tive uma sensação de desperdício, porque era tudo tão forte e interessante e, ao mesmo tempo, tudo estava tão mal editado… Era o tipo de livro que se escreve para deixar na família, como memória, mas acabou num pequeno editor. Foi lido por muito poucas pessoas, e senti que era uma pena. Comecei a pensar que poderia haver outra maneira de contar aquela vida.

Teve uma atitude de biógrafa?
Não diria isso. Não. Até porque não tinha a pretensão de ser exaustiva nem, muito menos, objetiva. Não me via a escrever uma biografia clássica nem a ter a abordagem de uma historiadora.

Quando olhamos para a mancha de texto do livro, parece-nos um longo poema. Foi uma opção incomum…
Sim, foi uma opção que partiu dessa questão inicial. Tinha como tema não uma personagem de ficção mas alguém real. E perguntei-me: será que tenho o direito de fazer o que quiser? Terei o direito de me servir desta vida para o meu livro, para um romance, ou há aqui algo de fundamental a respeitar? Concluí que não tinha o direito de romancear esta história de vida, já por si tão interessante e aventurosa. E não tinha a pretensão de ser biógrafa ou historiadora… O que restava? Lembrei-me desta forma literária tão antiga: a epopeia. Aí, tradicionalmente, contavam-se, e cantavam-se, factos heroicos. A epopeia permitia-me apropriar-me desta história de uma forma literária. Há um certo ritmo que também me possibilitava assumir alguma distância; o leitor percebe que há um ponto de vista de alguém sobre aquela vida. Senti que era a abordagem mais honesta e, ao mesmo tempo, literária.

Esta tradução portuguesa [o original é de 2020] ganhou uma grande atualidade neste momento, com a guerra de volta à Europa… É impossível ler o livro sem pensar em muitas das questões que marcam a atualidade. Surpreende-a como a vida de Annette pode, afinal, ser tão atual?
Infelizmente, parece ser natural que isso aconteça. O livro fala, de facto, de questões universais: como agir perante o imperialismo, o colonialismo, a opressão… Há uma questão fundamental: os fins justificam todos os meios? Que meios se justificam para se atingir um futuro, um fim, que nos parece justo? Muitas vezes, nesses contextos, esses meios são, também, violentos e raramente são justos. Estes temas são sempre atuais, algures no mundo… Neste momento, ganharam atualidade perto de nós. Fui surpreendida, como quase toda a gente, com esta guerra.

Depois de tudo o que viveu, de tantas perdas, Annette conseguia ser, quando a conheceu, uma pessoa otimista, positiva?
Certo é que nunca dava a impressão de uma mulher abatida, derrotada. E, sim, isso era um mistério para mim. Como nunca se deixou desencorajar depois de tantas deceções e desilusões? Depois de tudo o que se passou a seguir à independência da Argélia, por exemplo. Era uma bela causa, justa, e ela empenhou-se totalmente nela. Mas ainda hoje, décadas depois, esse país é uma espécie de autocracia militar. Ela acreditava sempre que era possível melhorar, que se podia chegar lá, que se devia fazer o que fosse possível para o conseguir. No lugar dela, julgo que me sentiria aniquilada com tantas deceções. Quando a encontrei, ela não parecia nada desencorajada, era mesmo muito viva e alegre, mas certamente que também tinha um lado mais sombrio.

Não falava destas histórias, algumas tão antigas, como se tivessem sido vividas por uma personagem distante?
Não, pelo contrário. Às vezes parecia que estava a falar de coisas que podiam ter acontecido ontem. Ela falou muito da sua vida, gostava disso, ia a escolas e conversava com os alunos sobre a importância da desobediência, não sei se os professores gostavam muito… [risos]. E gostava de discutir política, de argumentar.

Em França, as pessoas de esquerda têm responsabilizado Macron pelo crescimento da extrema-direita. Mas é preciso olhar para as responsabilidades da própria esquerda

Como uma resistente do tempo da II Guerra Mundial via a ascensão da extrema-direita, nos últimos anos em França?
Achava isso assustador, mas, lá está, não era do género de se deixar cair no desespero… Concentrava-se mais na necessidade de lutar contra isso. E também era muito crítica de Macron.

Quais foram as grandes lições que tirou da proximidade com esta vida, com a experiência de Annette, e com a escrita deste livro?
Com este livro aprendi que, se contamos uma história, mesmo que esta se baseie numa vida real, não podemos deixar de usar a nossa imaginação. Nunca tive a consciência de estar a inventar nada. Impunha um certo ritmo, mas nunca ficcionava… Mas percebi que tinha mesmo de utilizar a minha imaginação, ou o texto ficaria reduzido a uma lista de datas, nomes e lugares. Para mim, essa distinção muito anglo-saxónica entre ficção e não ficção, fiction e nonfiction, não é muito válida, não faz assim tanto sentido… Mesmo que esteja ancorada na realidade, uma história escrita precisa de imaginação. E a ficção também tem sempre elementos de realidade.

E num nível mais pessoal, que aprendizagens, que lições teve?
Este não é um livro de mensagem, não há aqui uma lição a dar aos leitores… Eu própria não recebi propriamente uma lição. Quando encontramos alguém como Annette, com uma vida assim, não podemos evitar um pensamento: o que faria eu no seu lugar? E perturba-me pensar que posso não estar à altura, num dia em que aconteçam coisas assim. Arriscaria a minha vida? Sinto que sou muito menos corajosa… Ela estava habituada, desde muito jovem, a ter medo e a ultrapassar esse medo. Nós, os que nascemos depois da [II] Guerra Mundial, nunca vivemos de perto essas situações, nunca tivemos uma experiência de guerra… Mas será que isso se aprende?

Como vê o que se passa atualmente em França, o país onde vive desde os anos 80?
Eu não tenho nacionalidade francesa… Mas agora, depois destas últimas eleições, decidi que vou pedi-la. Senti que os franceses estão a precisar de mim e do meu voto [risos].

Talvez seja uma lição de Annette…
Talvez… Mas acho a atual situação francesa bastante inquietante. As pessoas de esquerda têm responsabilizado Macron pelo crescimento da extrema-direita. Mas acho que é preciso olhar para as responsabilidades da própria esquerda em França. De algum modo, passou por um processo de autodestruição. Quando esteve no poder, seguiu políticas que não eram propriamente de esquerda… Aliás, Macron era ministro de um governo de François Hollande [do Partido Socialista]. Depois de um processo de autodestruição, atualmente a esquerda tem o problema de estar muito dividida… Vemos agora esta tentativa de entendimento, para as legislativas. Aparentemente, a esquerda de Mélenchon está tão forte que muitos vão segui-lo ou colocar-se estrategicamente atrás dele e do seu movimento… E isso também não é uma boa notícia. Ele promete medidas que podem levar à saída da União Europeia, tem um discurso muito antieuropeu. Aliás, tem isso em comum com Marine Le Pen. E as suas posições ao nível de política externa também são preocupantes, por exemplo a sua complacência com a Rússia de Putin… O que também o aproxima de Le Pen. No futuro, pode ser que cresça, ou renasça, uma esquerda progressista e europeia, mas para já não é isso que estamos a ver.

Acredita que a História pode repetir-se? Estamos em 2022 e não paramos de ouvir falar em “nazis”, em “desnazificação”…
Tivemos um grande período de paz na Europa, mas há milénios que a História da Humanidade, está cheia de guerras… Por que razão isso haveria de mudar? Por causa das redes sociais?

No pós-II Guerra Mundial, tentaram fazer-nos acreditar nessa paz duradoura. A União Europeia como garante de paz, as Nações Unidas…
Sim. Houve um choque de tal maneira forte com os acontecimentos da II Guerra Mundial que nos garantiu essa sensação de conquista de uma paz duradoura – na verdade, já tinha acontecido esse choque com a Grande Guerra, e isso não impediu a II Guerra Mundial… Tivemos a sorte de viver nessa época de pós-II Guerra Mundial, talvez. Não acredito que a História se repita, mas há outros horrores a caminho. É isso que nos mostra a História.

Há duas maneiras de sair deste livro: tristes por termos testemunhado uma vida tão difícil e com tantas perdas, sacrifícios e desilusões, ou inspirados pelo entusiasmo, pela força e disponibilidade para o combate e a ação, pela crença inabalável num mundo melhor… Como saiu a autora?
O livro termina com uma evocação do mito de Sísifo. E prefiro imaginar Sísifo feliz. Há sempre essa pedra a empurrar pela montanha acima… Para Annette, aparentemente, só o esforço de tentar, de agir, já era, de certa forma, um prazer. Empurrar a pedra não era só sacrifício e sofrimento. A procura de um mundo melhor trazia-lhe alegria e satisfação, mesmo que tivesse de recomeçar permanentemente, porque as coisas não estavam a funcionar bem ou corriam mesmo mal para ela. Resistir a tudo isso e continuar é o tal mistério de que falava, mas não me parece deprimente, ou triste. Não sei se consigo partilhar essa espécie de fé inabalável no progresso da Humanidade, na possibilidade de melhorar sempre, mas acho que isso é admirável.

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