“Os portugueses não conhecem a sua própria História, não se fala de escravatura na escola: não têm consciência de que foram eles que fizeram o maior comércio de escravizados ao nível planetário”

Foto: Renato Parada

“Os portugueses não conhecem a sua própria História, não se fala de escravatura na escola: não têm consciência de que foram eles que fizeram o maior comércio de escravizados ao nível planetário”

Associamos o seu nome a uma orgulhosa exportação de talento nacional que deixou saudades nos corredores da arte portuguesa. Nascido em 1964, diretor do Museu de Serralves entre 2003 e 2012, subdiretor do Museu Rainha Sofia em Madrid na temporada de 2012 e 2019, João Fernandes assumiu há dois anos a direção artística do prestigiadíssimo e pluridisciplinar Instituto Moreira Salles (IMS), experiência filtrada pela polarização brasileira – e pela pandemia. E o curador não precisou de ler tomos históricos para defender que há mea culpa devidos por Portugal pelo colonialismo: apenas abriu os jornais.

O que é que a pandemia trouxe ao mundo da arte? Novos temas?
Confesso que tive a expectativa de que a pandemia contribuísse para o redefinir das formas de atuação do mundo da arte. Pensei que a alteração de rotinas das instituições permitisse uma nova forma de pensar. Mas aquilo a que hoje se chama “o novo normal” liga-se muito ao “antes” da pandemia. Nomeadamente, não houve uma interrogação sobre o que estava a acontecer nas instituições e na arte moderna, dominadas pela espetacularização. Ou sobre o trabalho dos artistas que começou a ser, cada vez mais, visitável e percetível a partir do sistema e daqueles que detêm o poder económico, sobretudo os colecionadores. No mundo da arte, gerou-se uma espécie de industrialização de profissões e de intervenientes, centrada na economia de mercado. 

A arte está demasiado dependente dos valores altos e recordes?
As instituições perderam muita da sua autonomia, com a programação e a gestão das coleções a serem afetadas pelo financiamento. O interesse público, o facto de a arte ser algo estruturante numa comunidade, acabou por ser fragilizado em função de um mercado que se dirige sobretudo a interesses privados. E, por isso, os nomes de artistas mais preponderantes no mercado passaram também a ocupar muita da programação nas instituições. Há um pragmatismo económico e um circuito de legitimação que tem as galerias, os leilões e as feiras de arte como expoentes. Entre feiras de arte e bienais, havia mais eventos no planeta do que dias num ano! A movimentação constante de artistas, agentes intermediários, pessoas, galerias, deixou uma gigantesca pegada de carbono no mundo… Havia uma forma de estar-em-toda-a-parte que era insustentável. Inclusive museus de referência mundial, como a Tate, o Metropolitan ou o Pompidou, globalizaram-se. Os museus deixaram de se situar nas suas histórias, cidades e contextos, os nomes internacionais circulam aceleradamente, e a economia passou a ser determinada por algumas galerias maioritárias que gerem os negócios das feiras de arte.

Pode falar-se numa bolha da arte que iria rebentar?
A arte e os grandes museus internacionais ficaram, de certo modo, reféns de uma bolha que é a da economia do 1% [mais rico] da humanidade. A arte passou a ser um produto de luxo.

Isso faz da arte uma expressão que apenas fala com as elites?
Sim e não. Porque há muitos tipos de arte, até em função da diversidade de culturas. E apesar da pressão imensa de uma arte feita para um circuito estabelecido, sempre houve e sempre haverá artistas que, independentemente das circunstâncias, da receção, das encomendas, daquilo que se espera deles, fazem aquilo que não se espera.

Chegou ao IMS e, seis meses depois, aconteceu a pandemia. O que fez?
Aconteceu-me uma situação muito curiosa: a pandemia atrasou os contactos e as viagens pelo país para conhecer realidades diferentes das manifestadas nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Mas isso facilitou o acesso imediato, e muitos momentos Zoom e Google, com artistas em todo o Brasil: trabalhei com artistas indígenas Xingu da Amazónia, com as culturas negras que se manifestam na Bahia, com autores das periferias e das favelas… Foi uma grande aprendizagem. E trabalhei com esses vários Brasis, motivado por uma necessidade ética de transferir verbas e de criar condições de trabalho para que os artistas continuassem a ser artistas neste período difícil. Era um imperativo fazê-lo. Os museus internacionais tiveram programações maravilhosas, por exemplo, redescobrindo os acervos, mas tenho pena de que tenham secundarizado a sua obrigação ética de ajudar os artistas.

Esse imperativo foi sentido na sociedade brasileira?
Pensei que muitas instituições iriam também apoiar os artistas, mas infelizmente não o fizeram assim tanto. Percebemos também aí essa desigualdade imensa que modela a sociedade brasileira: a injustiça social, o racismo, todas as circunstâncias de exclusão que acontecem neste país criadas pelo colonialismo e pelo sistema ignóbil da escravidão. Mas, ao mesmo tempo, cheguei ao Brasil numa altura em que a democracia brasileira tinha possibilitado o acesso à universidade através do sistema de quotas – a que passei a reconhecer uma grande eficácia. Esse sistema conseguiu dar acesso ao pensamento e à produção de discurso de muitos protagonistas de culturas reprimidas e invisibilizadas pela História: indígenas, negras, trans… E essa mudança no discurso brasileiro é muito importante.

O Estado português encontrou uma péssima maneira de escolher um artista para a Bienal de Veneza. Um projeto artístico não se avalia por uma média aritmética

O Presidente Bolsonaro tem exibido tiques autoritários face à cultura e a várias comunidades. A sua programação no IMS é também uma resposta política?
É uma tomada de posição que dá voz a pessoas que estão a resistir. O caminho certo não é limitar as formas de expressão artística, tornando-as mainstream e reconhecíveis em função de modas, de histórias de sucesso. Qualquer instituição cultural será tanto mais internacional quanto mais atenta for ao seu próprio contexto, história, memória, presente, porque assim é que contribui para a diversidade cultural do mundo.

Racismo, neocolonialismo, revisão da História branca: o Brasil é o palco certo para enfrentar as grandes questões atuais?
Todos os dias penso que é um privilégio estar no Brasil neste momento. Confronto-me com problemas que existem em todo o mundo, mas que, aqui, originaram feridas que estão abertas e que doem. Abrimos um jornal e há sempre situações escandalosas de racismo que passaram a ser normalizadas na sociedade brasileira. Mas, simultaneamente, há uma emancipação das culturas que foram reprimidas, colonizadas, segregadas – o que também motiva uma reação conservadora do Brasil de matriz colonial em pânico perante essa libertação. É extremamente interessante ver uma sociedade com todos estes discursos em conflito. As instituições da sociedade ocidental sempre anestesiaram esses conflitos, e criaram uma falsa neutralidade da arte perante estes. No Brasil, essa neutralidade foi impossível. O Brasil é um país africano fora de África, marcado pela escravidão e pelo colonialismo de forma traumática. E isso é algo que também me diz respeito, porque os portugueses trouxeram para o Brasil cinco milhões de escravizados.

Há vozes a defenderem que Portugal deve pedir desculpa pelo colonialismo. Concorda?
Há um reconhecimento importante por fazer em Portugal, porque os portugueses não conhecem a sua própria História, não se fala de escravatura na escola: não têm consciência de que foram eles que fizeram o maior comércio de escravizados ao nível planetário. E isso é algo que um português percebe quando aqui chega. No Brasil, há dezenas de George Floyd a acontecer todos os dias, mas sem a repercussão mediática que ele teve. É um país extremamente violento porque foi construído através da violência, da rapina a partir da escravidão e do racismo – que continua hoje presente no quotidiano dos brasileiros, mas que se soube disfarçar sob aquele manto de cordialidade, do mito da coexistência entre culturas.

Bolsonaro vai deixar marcas, uma viragem para o autoritarismo?
Há um completo desmonte, como se diz no Brasil, do contexto institucional em relação à cultura. Há situações gravíssimas, como a do incêndio da Cinemateca em São Paulo de que, passados meses, ainda não sabemos o que ardeu – há quem diga que os materiais de Glauber Rocha foram destruídos nesse fogo. Há uma falta de cuidado crónica, há muitos museus que ardem. Há uma lei do mecenato, a Lei Rouanet [que permite a empresas e particulares doarem parte dos impostos a projetos culturais], que possibilitou muitos projetos. Ora a Lei Rouanet exclui agora possibilidades de mecenato a instituições que exijam o passaporte de vacinação. Ou que um mecenas possa apoiar um projeto mais de dois anos… Estamos a assistir a uma política de destruição. Vai ser necessário reinstitucionalizar o Brasil em termos de uma sociedade democrática que funcione.

Ser curador, hoje, implica escolher um campo de atuação política?
Trabalhar numa instituição, aqui, implica decidir de que lado se está, ser-se aliado de culturas oprimidas. Sinto essa necessidade com maior urgência do que os meus colegas na Europa… Não gosto de falar em atuação política, porque os campos políticos têm as suas regras, convenções, calendários, partidos. As instituições culturais não podem mudar o mundo, mas podem mudar uma pessoa. E se forem abertas a muitas pessoas, podem contribuir para um questionamento coletivo. Gosto de uma frase do Jean-Luc Godard que dizia que não fazia cinema político, fazia cinema politicamente. Isso está na forma como trabalhamos: tudo é político.

Há a sensação de que os museus se apressaram a incluir artistas negros, mulheres e minorias na programação para ficarem bem na fotografia mas sem enfrentarem questões de fundo. Há uma “operação de cosmética” em curso?
Sem dúvida que isso está a acontecer, o que tem consequências positivas e negativas. É positivo que as instituições sejam mais abertas a formas de expressão artística que invisibilizaram no passado. E isso tem acontecido graças aos movimentos sociais: hoje, há muito mais obras de mulheres nas programações do que houve no passado. É inacreditável como é que tantas mulheres artistas, que trabalharam décadas, só estão a ser conhecidas hoje. Ou protagonistas de outras culturas. Mas hoje também se estão a criar estereótipos em temas como a emancipação das culturas negras, indígenas: o Ocidente adora criar a sua ideia de arte negra, de arte indígena, de arte feita por mulheres… São outras formas de colonização, subtis e invisíveis, em que alguém com o poder da escolha resolve ser inclusivo à sua maneira – e à maneira que a branquitude universal delimitou para a inclusividade. Há muita coisa de que o Ocidente tem de saber descolonizar-se.

Como viu a controvérsia e as acusações de racismo e politização em torno da representação portuguesa à 59ª Bienal de Veneza?
Com grande tristeza. O Estado português encontrou uma péssima maneira de escolher um artista para a Bienal de Veneza. Eu não sei escolher um projeto artístico por média aritmética de avaliação, atribuir uma nota de zero a 20 a um projeto artístico, e duvido que haja qualquer objetividade a fazer isso. Um projeto artístico não se avalia dessa maneira. Isso leva a que a Lei de Murphy se materialize no seu esplendor: se pode correr mal, corre mal. E correu mal. Mas disseram-se coisas que tive muita pena de ler. Como é que se pode dizer que o racismo é algo demasiado presente, que não há nada de novo que se possa fazer a partir da revisitação desse tema? São coisas que não se podem dizer. Porque esta é uma ferida aberta também em Portugal, e um tema que está a fazer sofrer muita gente no mundo. Toda esta discussão desmerece os projetos e o respeito que estes merecem, e isso não pode acontecer. Falar de arte no espaço público é uma responsabilidade social.

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