“A Igreja pode estar tranquila. Muito mais do que fazer uma caça às bruxas, o importante é reconhecer que existiram coisas no passado e fazer todos os possíveis para que, daqui em diante, possa ser diferente”

“A Igreja pode estar tranquila. Muito mais do que fazer uma caça às bruxas, o importante é reconhecer que existiram coisas no passado e fazer todos os possíveis para que, daqui em diante, possa ser diferente”

Quis o acaso que, no mesmo dia em que lança um novo livro, Harmonia (Contraponto, 254 págs., €15,50), esta quinta, 10, perfizesse um mês à frente da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, a estrutura que até ao fim de 2022 está a fazer um levantamento dos abusos de menores cometidos em ambientes eclesiásticos em Portugal desde 1950. Nesta entrevista à VISÃO, o médico Pedro Strecht, 55 anos, fala dos princípios que têm orientado o seu trabalho e, à semelhança do que está a acontecer noutros países, dos testemunhos que a comissão tem recolhido. “É mesmo muito intenso, do ponto de vista emocional”, diz o especialista em Psiquiatria da Infância e da Adolescência, ao mesmo tempo que apela para que se continue a dar voz ao silêncio (darvozaosilencio.org). 

Há um mês que a Comissão Independente está a funcionar. Quantos testemunhos já recolheram?
Houve um boom inicial e, desde então, os números têm vindo a aumentar. Porém, sinto que agora devo resguardar-me um pouco em relação à quantificação dos testemunhos. Porque, neste momento, o mais importante é interessarmo-nos, verdadeiramente, pelas pessoas. Também queremos números, claro, mas apenas no sentido de que queremos pessoas, ou seja, quantas mais conseguirem falar e expressar as situações pelas quais passaram, maior será o universo do nosso estudo. De uma maneira geral, como se tratam de casos que aconteceram há muitos anos, as pessoas já refizeram as suas vidas, pelo menos da forma possível, e podem sentir-se tentadas a não falar. Como se dissessem: “O que é que eu agora ganho com isto?” 

Quem testemunha procura mais aliviar a dor escondida ou responsabilizar criminosos?
É claramente a primeira. As pessoas procuram ser ouvidas, querem ser reconhecidas, como se desejassem ter em nós um interlocutor que as ouve, que acredita e está disponível para escutar as suas narrativas. Um dado que é, desde logo, muito significativo é o facto de a média do atendimento telefónico andar à volta de uma hora. E, depois, às vezes, ainda há quem volte a ligar para pedir também uma conversa presencial. A ansiedade em ser ouvido é muito nítida. Muito mais do que nomear este e aquele, dizer que esta ou aquela pessoa devia estar presa.

O que pode levar alguém a querer contar algo que, mal ou bem, já acomodou?
Essa é uma das questões com que nos temos deparado. Por vezes, é quase como quando os pais das crianças mais pequenas perguntam porque é que elas não contaram determinado episódio que se passou na escola e elas respondem: “Tu também não perguntaste.” No fundo, é isto: nós perguntamos se aconteceu e, caso tenha acontecido, se quer contar, estamos cá para ouvir. Há muitas pessoas que querem manter o anonimato, mas também há quem responda ao inquérito online e, minutos depois, um dia depois, ligue a dizer o seu nome. No outro dia, recebi um testemunho de um homem de 40 anos, hoje casado, que foi abusado quando tinha 6. Enviou-me um texto muito tocante de 48 páginas que, há uns tempos, escreveu numa noite e, depois, até pediu uma entrevista presencial. 

Contar também é um processo interior?
É quase como se fosse um reencontro com uma identidade perdida: sou eu, foi a mim que aquilo aconteceu, não foi só uma coisa de que ouvi falar por aí. As pessoas querem sentir-se reconhecidas, recuperar uma certa dignidade que acham que perderam, sentem-se sós naquele seu sofrimento. Lá mais para a frente, também teremos de ir articulando o nosso trabalho com os recursos de saúde mental porque muitas destas pessoas vão precisar de uma reparação interior.

Como se conquista a confiança de quem já se sentiu traído, nalguns casos, por pessoas em quem confiava?
Nesse aspeto, julgo que a vantagem é estarmos organizados enquanto comissão isenta e independente, da Igreja e da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Isso faz com que as pessoas se sintam à vontade, no sentido de estarem seguras de que as suas narrativas não vão ser silenciadas ou manipuladas. Tenho sido contactado por órgãos de informação espanhóis, porque lá o governo tem a intenção de fazer uma comissão parlamentar. Esta também terá os seus limites, pois pode vir a ser politizada. No nosso caso, as pessoas confiam em nós, sabem que somos idóneos, que não pertencemos a este ou àquele grupo e, portanto, sentem que podem falar livremente.   

Na Igreja portuguesa, também não houve unanimidade sobre a criação da comissão. Há quem julgue este trabalho essencial, mas também há quem, como o bispo do Porto, o tenha comparado a uma “investigação de um meteorito”. Tem sentido essa independência?
Tenho. Vou ser muito claro, faço até questão de que isto fique escrito. Disse-o quando tive o primeiro contacto com a estrutura dirigente da CEP e volto a dizê-lo: o primeiro dia em que eu sinta pressão, ou que sinta que há qualquer entrave que possa pôr em causa a nossa isenção e a nossa independência, é o último dia em que estarei na comissão. Para mim, isso seria o limite.

Mas a questão é que não existe unanimidade na Igreja.
Mas se existe esta comissão é porque, se calhar, a maioria está de acordo. A Igreja pode estar tranquila, pois nós não estamos contra nada nem contra ninguém. Acho até que os resultados que, um dia, possamos vir a ter podem ajudar a Igreja a tornar-se melhor, no sentido da proteção das crianças. É esta a nossa intenção.

Já temos tempo suficiente para saber que a pandemia teve impacto na vida emocional dos mais novos. É muito visível que os miúdos começaram a falhar em imensas questões, até nas relações sociais entre eles

São essas as orientações do Papa.
Exato. Muito mais do que se fazer uma espécie de caça às bruxas, o que é importante é reconhecer que existiram coisas no passado, saber porque existiram e porque aconteceram, e fazer todos os possíveis para que, daqui em diante, nesse campo, a Igreja possa também vir a ter um papel diferente. 

Se existirem testemunhos de situações atuais, nomeadamente, com abusadores ainda no ativo, o que preveem fazer?
Já articulámos isso com a Procuradoria-Geral da República e com a Polícia Judiciária, até porque, com a legislação atual, os crimes de abusos sexuais são crimes públicos. Felizmente, até agora, ainda não foi preciso utilizar essa via, mas, se surgirem situações dessas, cá estaremos.

Estão a recolher casos desde os anos 50 até à atualidade. Já têm uma ideia das idades da maioria das vítimas, das regiões onde vivem…?
Ainda é muito cedo, embora haja ideias que já vamos tendo. Até agora, tivemos testemunhos de pessoas nascidas entre 1933 e 2003 e de todos os pontos do País, Portugal Continental e ilhas. Também temos tido relatos de emigrantes, que hoje vivem no estrangeiro – EUA, Canadá, Reino Unido, França, Luxemburgo e Suíça – e que nos contam coisas que aconteceram quando ainda estavam cá. Se olharmos para a distribuição geográfica do País, percebemos logo ali algumas questões: e, naturalmente, há mais casos onde há mais pessoas. Também tanto temos tido vítimas do sexo masculino como do sexo feminino, contrariando até um pouco ideia de que só acontecia aos rapazes… E também têm aparecido abusadoras femininas.

Como é que, de um modo geral, as pessoas têm preferido testemunhar?
A maioria das respostas provêm do inquérito online. Aliás, a confrontação com os dados e com as circunstâncias têm-nos levado a pensar, a recolocar-nos. Dito de outra maneira: é fácil perceber que quem responde através de inquéritos online tem acesso à net e um determinado nível de escolarização. E por isso também é muito importante levarmos esta mensagem a um País mais profundo e daí estarmos agora a contactar câmaras municipais, jornais e rádios locais… Chegar ao País mais profundo é também chegar às margens, aos que acumulam situações de abuso sexual com fragilidade social, cultural e económica. 

Como é feita a validação dos testemunhos?
Para já, quem recebe os testemunhos e quem os avalia, quer no caso dos inquéritos online quer nos contactos telefónicos, são pessoas com alguma prática. Quando se tem alguma experiência, a questão do falso testemunho fica fácil de perceber. Depois, o próprio inquérito inclui perguntas que se entrecruzam. Também há elementos comuns que vão aparecendo, por exemplo, mais do que uma referência a um determinado instituto religioso, na mesma época, no mesmo local. Para lhe ser franco, esperava até que houvesse mais inquéritos inválidos, estamos num país onde 30% das chamadas para o 112 são falsas… 

São testemunhos duros de se ouvir, mesmo para um profissional?
É mesmo muito intenso, do ponto de vista emocional. Acho que nunca disse isto publicamente: para mim, enquanto médico de psiquiatria de infância e adolescência, é complicado ter um miúdo ou uma miúda à minha frente a falar sobre uma situação de abuso, mas quando ele está à minha frente, olhos nos outros, eu posso dizer algumas coisas, naquele momento. Quando as pessoas nos telefonam, não as temos à nossa frente e, do ponto de vista médico, sinto quase como que uma sensação de impotência. No outro dia, uma das pessoas que estão no atendimento, após ter estado imenso tempo ao telefone, disse qualquer coisa como “sinta-se abraçado por nós”. É isto, o mais significativo é isto.

Sabemos que os estudos padecem do “efeito de icebergue”, ou seja, apenas conseguem identificar uma parte dos casos. Tem expectativas de retratar a realidade dos abusos sexuais em Portugal de forma exaustiva?
Julgo que é mesmo por uma questão de competência da nossa parte conseguirmos uma amostra suficientemente representativa. Agora, também é preciso dizer que, quando no caso francês, que as pessoas comentam muito, se fala em 300 mil vítimas, estas são uma extrapolação teórica, a partir de determinado número de testemunhos. Porque cada testemunho pode também incluir o reporte de outras situações. O que o “efeito de icebergue” nos diz é que, em matéria de abusos sexuais, só emergem 25% a 30% dos casos; tudo o resto permanece submerso.    

Embora atribuamos hoje uma importância à infância e à adolescência sem comparação na História, durante a pandemia, as crianças foram dos que mais sofreram com o impacto, apesar de não serem tão atingidos pela Covid-19. Ainda é cedo para avaliar as consequências disto?
Para mim, não é nada cedo. Já temos tempo suficiente para saber que a pandemia teve um impacto enorme na vida emocional dos mais novos. Também temos alguns dados como o número de divórcios e de casos de violência na família. No ano passado, no primeiro semestre, houve 1 300 denúncias de abusos sexuais de menores à Polícia Judiciária, o que constituiu um recorde. E é muito visível que os miúdos começaram a falhar em imensas questões, até nas relações sociais entre eles.

Na sua opinião, estes dois anos pandémicos poderão ter provocado alguma inquietação que agora leva as pessoas a falar dos abusos que sofreram?
Sim, a paragem da atividade externa levou as pessoas a um reencontro consigo próprias, a pensar em várias coisas, a rever os seus objetivos, a fazer pontos de situação e balanços de vida. A mim também me aconteceu… Aliás, acho que é quase impossível isso não ter acontecido, que essas ondas de choque internas não tenham provocado esta emersão de situações.

É também essa a harmonia de que fala no título do seu novo livro?
O livro nada tem que ver com a pedopsiquiatria nem com a pandemia… Já estava escrito há algum tempo, são frases, quase aforismos, sobre os quais depois desenvolvo pequenos textos. A única ligação que talvez se possa fazer é – e daí a ideia de harmonia – esta nossa procura constante de um bem-estar interior. 

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