“Só na segunda metade do século XX é que as teorias da conspiração se transferiram do centro da sociedade para as margens. Paradoxalmente, isto teve o efeito de falarmos cada vez mais nelas”

Foto: José Carlos Carvalho

“Só na segunda metade do século XX é que as teorias da conspiração se transferiram do centro da sociedade para as margens. Paradoxalmente, isto teve o efeito de falarmos cada vez mais nelas”

Barack Obama e Hillary Clinton “seriam demónios” e isso poderia ser “reconhecido pela quantidade de moscas a voarem em redor deles” ou a falta de chuva no Irão deveu-se a uma destruição de nuvens por parte dos Estados Unidos da América e Israel. Estas são duas das teorias da conspiração compiladas e explicadas por Michael Butter, professor de História Cultural e Literária Americana na Universidade de Tübingen, na Alemanha, e que dirige atualmente um projeto sobre a relação entre populismo e teorias da conspiração ao abrigo do Conselho Europeu de Investigação. No livro que agora chega às livrarias portuguesas, A Natureza das Teorias da Conspiração (Saída de Emergência, 223 págs., €17,70), e que é prefaciado por Mafalda Anjos, diretora da VISÃO, o autor descreve de que forma estas teorias ganham vida e se alicerçam, falando também da dificulade extrema em fazer alguém deixar de acreditar numa. Por ter sido escrito em 2018, a pandemia não é falada, mas não deixou de ser tema nesta entrevista, na qual revela que não há mais teorias do que anteriormente: a sua visivibilidade, fruto da rapidez com que hoje comunicamos, é que é maior.

As teorias da conspiração não são um fenómeno recente. Desde quando as pessoas acreditam nelas?
Há indicadores que nos dizem que já havia algo de muito semelhante na Antiguidade, na Grécia e Roma antigas. Desenvolveram-se, depois, entre os primeiros tempos da era moderna e da Renascença.

Como eram as mais antigas?
No início da era moderna, as teorias da conspiração tinham sempre embutida uma ideia religiosa. Havia sempre um anticristo, demónios ou bruxas que seriam os cabecilhas de complots.

As teorias da conspiração estão hoje mais presentes do que antes?
Estão mais presentes porque mais visíveis, mas não quer dizer que sejam mais populares do que antes. Aliás, desde o início da era moderna até meados do século XX, era normal acreditar nestas teorias. Qualquer Presidente norte-americano, de George Washington a Dwight Eisenhower, acreditava em teorias da conspiração. Winston Churchill espalhou teorias míticas fantásticas. As pessoas pensavam que era assim que o mundo funcionava, que havia uma sequência complots. Só na segunda metade do século XX é que as teorias passaram a ser estigmatizadas e vistas como uma forma de baixo conhecimento, transferindo-se do centro da sociedade para as margens. Paradoxalmente, isto teve o efeito de falarmos cada vez mais nelas porque as consideramos, agora, um problema. Pensamos que vivemos na era das teorias da conspiração, mas, comparando com há 100 ou 200 anos, existem em menor número e menos pessoas acreditam nelas.

Muito menos pessoas?
Há pessoas que acreditam, sim, mas, por exemplo, na Alemanha, os estudos indicam que um terço da população tem tendência para acreditar, mas que talvez 10% a 12% acreditem mesmo. Os estudos indicam que, há 200 anos, 90% das pessoas acreditavam.

Muitas das teorias são facilmente desmontáveis através de factos. Por que razão é tão complicado dissuadir as pessoas que acreditam nelas?
A partir da altura em que uma pessoa acredita convictamente numa teoria da conspiração, é quase impossível convencê-la de que está errada porque isso tornou-se uma parte importante da sua identidade. Se lhe falarmos em factos e evidências estamos a desafiar a maneira como ela se vê a si própria e, por isso, recusa-se a aceitá-los. Estudos indicam que, se confrontarmos essas pessoas com factos verdadeiros, o que vai acontecer é que elas desmontam esses pensamentos e vão acreditar ainda mais na teoria da conspiração.

Como devemos, então, falar com as pessoas que acreditam?
Há duas lições que podemos tirar: em primeiro lugar, temos de ensinar antecipadamente às pessoas como as teorias da conspiração funcionam, porque se lhes explicarmos o que são, dissermos como funcionam, é mais difícil que acreditem nelas mais tarde; em segundo lugar, se estamos a falar com alguém que acredita, não devemos chegar e dizer “isso está tudo errado e estas são as provas”, mas sim fazer uma aproximação diferente. Devemos fazer perguntas: “Porque acreditas nesta pessoa e não nesta?”, “Porque esta fonte de informação é de confiança para ti e não esta?”, “Porque este argumento é convincente e não este?” A ideia é fazê-las refletir naquilo em que acreditam porque só elas podem deixar de o fazer.

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No livro A Natureza das Teorias da Conspiração, Michael Butter, que dirige, atualmente e até 2025, um projeto sobre populismo e teorias da conspiração ao abrigo do Conselho Europeu de Investigação, explica porque proliferam estas correntes de desinformação que acabam por se tornar em grandes conspirações. Uma leitura essencial sobre o que são estas teorias e porque há quem acredite nelas. Mafalda Anjos, diretora da VISÃO, assina o prefácio da edição portuguesa, que pode ler aqui.

A forma de abordar alguém que acredite depende da teoria ou do tema?
Depende da teoria, há centenas de teorias que são inofensivas. Se alguém acredita que o Homem nunca foi à Lua e que tudo foi uma montagem feita num estúdio, talvez não seja preciso convencê-la do contrário, é ignorar. A sua crença não fará mal a ninguém. No entanto, se alguém acreditar que um grupo está a conspirar contra a ordem social e que essa teoria pode levar a ações de violência, será melhor desafiar as ideias dessa pessoa.

O que aprendemos com a pandemia da Covid-19?
O interessante é que a pandemia, de certa forma, confirmou o que já sabíamos sobre as teorias. Dificilmente alguma delas é realmente nova, são apenas o último capítulo, aquilo que estamos a viver no momento. As preocupações com o coronavírus ou com a Covid-19 apenas foram adicionadas à narrativa. No Irão, acreditam que o coronavírus é um plano sionista entre os EUA e Israel. Na Nigéria, a comunidade muçulmana acredita que a pandemia é um plano dos protestantes para reduzir o número de muçulmanos. No Brasil, está ligada a uma conspiração comunista. Na Alemanha, os que há algum tempo pensam que o governo que retirar os direitos civis pensam que o vírus é uma farsa com a finalidade de restringir as liberdades para, depois, as abolir para sempre.

Adaptam-se ao momento.
Já existiam teorias da conspiração sobre a indústria farmacêutica e as vacinas antes do coronavírus, assim como também já havia conspirações sobre as fábricas de tecnologia ou a substituição da civilização europeia.

As teorias aumentaram durante a pandemia?
Na Alemanha, por exemplo, não aumentaram. É difícil fazer uma comparação entre hoje e há 13 ou 14 anos, porque nessa altura não havia investigação sobre este tema. Os estudos de 2019 e 2021, em que foram usados os mesmos exemplos, as mesmas perguntas e frases, mostram que, na Alemanha, houve um ligeiro decréscimo. Mas não parece. Assim, os alemães pensam que atingimos mesmo um ponto alto.

Mas, afinal, não.
A razão é que hoje as teorias estão mais visíveis do que nunca na Alemanha, imagino que em Portugal se passe o mesmo. Temos de nos posicionar, a maioria das pessoas que acredita nelas não são paranoicas ou estão doentes e sabem muito bem que aquilo em que acreditam não é o mesmo em que acreditam os amigos ou a família e, por isso, normalmente não falam sobre o assunto. A questão é que a Covid-19 já dura há dois anos e é assunto todos os dias. De repente, alguém descobre que a tia acredita em teorias da conspiração e, no entanto, se calhar a tia já acreditava antes e essa pessoa apenas não sabia…

As teorias da conspiração são muito alimentadas pelas diferentes bolhas em que nos movemos. Os algoritmos de pesquisa utilizados pelo Google alimentam isso, na medida em que os resultados que obtemos quando pesquisamos estão pre-determinados pelas buscas que fizemos antes

O medo fez com que falassem mais?
As teorias sobre o 11 de Setembro são mais abstratas, não éramos todos vítimas. Agora, de repente, temos de usar máscara, lavar a roupa de determinada forma, há pessoas a perderem o emprego… Há um sentimento de que as vidas estão a ser ameaçadas por causa da conspiração e, então, fica-se mais emotivo e fala-se mais. Na Alemanha, há pessoas que acreditam que, daqui a pouco tempo, terão de escolher entre ser vacinadas ou ir para a câmara de gás.

Estas teorias irão desaparecer quando a pandemia acabar ou algumas vão permanecer?
Quando a pandemia terminar, as pessoas irão falar menos sobre o assunto e surgirá um outro tema, mas isso não quer dizer que as teorias desapareçam, apenas se tornam menos visíveis.

Até que ponto as teorias da conspiração são alimentadas pela forma como consumimos informação hoje em dia?
As teorias da conspiração são muito alimentadas pelas diferentes bolhas em que nos movemos. Os algoritmos de pesquisa utilizados pelo Google alimentam isso. Os resultados que obtemos quando pesquisamos estão predeterminados pelas buscas que fizemos antes, ou seja, tendemos a encontrar coisas que confirmam aquilo em que já acreditamos.

De que forma os meios de comunicação social devem lidar com elas?
É uma pergunta muito difícil. Quando uma teoria ganha muito impulso, notoriedade, há matéria a ser noticiada. Há uma espécie de pânico das teorias da conspiração nos média. As pessoas estão muito preocupadas com o assunto, ligam temas a teorias da conspiração que podem não o ser, como o facto de haver pessoas que não querem ser vacinadas. Fazem um balanço entre: Devo ignorar? Ao reportar vou tornar isto mais popular? Ou devo mesmo falar sobre o assunto? Se o fizer, qual a melhor maneira?

Como é que os governos e a sociedade podem lutar contra estas teorias?
A educação é importante. A tendência para acreditar em teorias baixa de acordo com o nível de instrução, quanto mais formação se tem, menos se acredita.

Qual a teoria mais louca com que se deparou?
A mais absurda é aquela que alega que somos regidos por uma elite de extraterrestres de origem réptil, que colonizou a Terra há milhares de anos, e que se alimenta da energia negativa dos seres humanos. Outra foi posta a circular depois de Donald Trump ter perdido para Joe Biden, em 2020. Um dos advogados de Trump dizia que Hugo Chávez, que morreu em 2013, era o responsável pela derrota dos republicanos.

E a mais recente?
Uma que está a ganhar forma é a que se refere ao “grande reset”, está relacionada com a Covid-19. O coronavírus será parte de um plano para se fazer um “grande reset” e que o mundo vai ser diferente depois da pandemia. Os conspiracionistas da América do Norte falam disto como uma oportunidade para o comunismo e, na Europa, como uma oportunidade para o novo liberalismo. A próxima onda com que vamos ter de lidar estará, provavelmente, relacionada com as alterações climáticas: que não existem; ou que eventos meteorológicos como tornados são uma maquinação do governo norte-americano. Há uns anos, o Presidente do Irão dizia que não chovia no seu país porque os presidentes de Israel e dos EUA tinham destruído todas as nuvens antes que estas chegassem ao território.

Há teorias para todos os gostos. Até as mãos de Angela Merkel também foram alvo.
Os teóricos da conspiração veem sinais em todo o lado. O facto de Merkel normalmente juntar os dois polegares e os dois indicadores – um gesto como outro qualquer para não ficarmos com as mãos penduradas quando falamos com alguém –, e os seus dedos formarem um losango, deu aso para alegarem que ela pertence a uma sociedade secreta que quer dominar o mundo

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