“Temos de admitir que só há ricos porque, em algumas partes do mundo, se vive numa quase escravatura, sem direitos e sem condições mínimas de vida”

“Temos de admitir que só há ricos porque, em algumas partes do mundo, se vive numa quase escravatura, sem direitos e sem condições mínimas de vida”

Dizem que o primeiro desembarque nunca se esquece. Davide Enia chegara há poucas horas a Lampedusa, que conhecia bem da infância e juventude. Filho de sicilianos, a ilha faz parte do seu território afetivo, porém, desta vez, estava ali por outros motivos. Um impulso difuso mas inadiável fê-lo sair de Palermo e rumar ao centro da tragédia humana que está neste momento a ocorrer no Mediterrâneo. “Era novembro e era de manhã”, descreve. Ao porto de Lampedusa acabava de chegar o barco que a guarda costeira resgatara em alto-mar, na noite anterior. “Homens, mulheres e crianças estavam de pé”, prossegue o escritor e dramaturgo italiano. “Eram tantos.”

Como as experiências mais marcantes das nossas vidas, o primeiro desembarque de imigrantes nunca se esquece. Mas Davide Enia quis fazer mais do que não esquecer. Quis procurar um sentido para tudo o que viu, para tudo o que sentiu, para tudo o que não compreendeu. Enquanto a Europa desviava o olhar, Davide optou por dar um testemunho na primeira pessoa. Quis também contar. Garante que não procurou a denúncia, mas recusa-se a ser como aqueles políticos que se fecham nos seus gabinetes ministeriais a tomar decisões sem nunca terem visto os resultados de um bote lançado ao mar e o sofrimento que se encontra em cada resgate.

Notas sobre Um Naufrágio (Dom Quixote, 200 págs., €14,90) é o resultado de todas as perguntas que colocou a si próprio e das poucas respostas que foi capaz de encontrar. Descreve-o como um mosaico que convoca para a sua imagem final peças muito diferentes: memórias de infância, a relação com o pai e, sobretudo, com o tio, a ação humanitária dos amigos que tem e que fez em Lampedusa e o enorme desconhecimento que continuamos a ter das vidas e do sofrimento de quem se atreve a arriscar a vida a atravessar sem segurança o Mediterrâneo. Um livro poderoso que não deixará ninguém indiferente e que pode muito bem incitar qualquer leitor à ação. “A escolha é sempre nossa”, diz.

Nascido em Palermo, em 1974, Davide Enia revelou-se artisticamente no teatro, nomeadamente com Itália – Brasil 3-2, uma peça sobre a mítica vitória do seu país frente à seleção canarinha, no Mundial de 1982. Seguiram-se muitas outras subidas ao palco, com interpretações e textos seus, e incursões na prosa que lhe valeram vários prémios. Continua a não gostar de escrever, mas não sabe fazer outra coisa.

Muitos escritores estão a escrever sobre a tragédia humana que continua a ocorrer no Mediterrâneo. Também teve essa vontade de denunciar?
Lampedusa faz parte das minhas ilhas, da Sicília da minha infância, a que estou ligado por laços familiares. Esta tragédia está a acontecer na minha casa. Muitas vezes, procuramos o longe quando podemos começar por pesquisar o que está mais perto de nós. Mas essa denúncia ou chamada de atenção é um efeito secundário, do qual nem sempre tive consciência. Não foi o que me moveu. A pergunta que eu tinha na cabeça era: como é possível escrever um romance no meio desta crise?

Que resposta encontrou?
Que qualquer projeto literário com essas intenções é impossível, está, desde o início, condenado ao fracasso. Percebi-o assim que cheguei a Lampedusa. Num romance, precisamos de saber o passado das personagens, mas destes imigrantes não sabemos nada, não lhes é dada a oportunidade de partilhar a sua história. Na verdade, devem ser eles a contá-la, deviam ter os meios para o fazer. As nossas palavras não conseguem captar a verdade dos imigrantes.

É por isso que chama a este livro “notas”, Notas sobre Um Naufrágio?
Exatamente. Escrevi este livro para processar a morte de tantos imigrantes que eu e muitos amigos testemunhámos, em Lampedusa, e perceber o impacto que isso teve em mim. Não sei se quero denunciar ou acordar o leitor, mas se, ao ler estas páginas, uma pessoa começar a pensar nestes assuntos, incluindo o poder das relações familiares, outro tema muito importante neste livro, só posso dar-me por contente. Claro que estou consciente, como diz alguém no meu livro, de que toda a gente sabe o que está a acontecer e finge não saber. Cada testemunho é uma gota, mas muitas gotas fazem um oceano.

A leitura do seu livro é uma experiência muito forte. E começa pela descrição da própria ilha, como ela se fosse um território de outra dimensão.
E, às vezes, parece mesmo… É uma ilha que te coloca entre o real e o simbólico, o que faz com que tudo seja o que é e outra coisa qualquer. Faz parte da Europa, mas está mais perto do continente africano. É muito procurada por turistas, mas os imigrantes à espera do seu destino estão atualmente em larga maioria. É preciso lançar pontes, porque muitas vezes só se quer ver uma parte da ilha.

Chega a descrever Lampedusa como “palavra-contentor”. Porquê?
Porque concentra em si um conjunto contraditório de conceitos, forças e tensões: migração, fronteira, naufrágio, solidariedade, turismo, verão, marginalidade, milagre, heroísmo, desespero, suplício, morte, renascimento, resgate. Como interpretar esta realidade tão confusa e contraditória?

O Mediterrâneo sempre foi um mar que uniu povos e civilizações, mas que hoje mata. O que diz essa alteração do mundo contemporâneo?
O fenómeno da imigração é um espelho que nos devolve uma imagem chocante. O rosto da Europa e dos EUA assemelha-se ao rosto da besta. Temos de admitir que só há ricos porque, em algumas partes do mundo, se vive numa quase escravatura, sem direitos e sem condições mínimas de vida, e que, em muitos casos, são essas populações que, sem terem alguma contribuição significativa para as alterações climáticas, mais sofrem com isso. O espelho de Lampedusa mostra-nos que estamos a dar respostas erradas a perguntas igualmente erradas. Vendemos armas a um país que, pouco tempo depois, cai num conflito militar. Para onde há de ir a sua população? Criamos zonas do mundo em seca severa. É aceitável esperar que as pessoas fiquem onde não é possível viver? Temos de mudar o nosso estilo de vida.

Em que sentido?
Às próximas gerações estamos a deixar pouco mais do que lixo e desentendimento entre as pessoas. Isso não é tolerável. O ser humano mudou a sua essência. Já foi caçador-recoletor, agricultor, citadino. Hoje, é apenas visto como um consumidor. Se tens dinheiro, és bem-vindo à Europa. Se não tens, podes desaparecer no fundo do mar. Isto não é um modelo social; é uma arma de destruição em massa. A Europa vai matar-se a si própria, se não mudar esta sua conceção.

O problema começa quando vemos os imigrantes como alguém que precisa de ajuda e não como pessoas?
Exato. Na forma como os descrevemos estamos logo a colocá-los num nível inferior. Como diz Paola, uma amiga cujo trabalho humanitário eu retrato no livro, falamos demasiadas vezes dos imigrantes como números ou estatísticas, mas eles são muito mais do que isso: são pessoas como nós, acalentam esperanças e preces, inquietudes e tormentos. Todos nos construímos no confronto com o Outro, qualquer que seja. Mas, para isso, temos de estar todos ao mesmo nível. Não somos iguais a ninguém, somos todos diferentes. Essa é a nossa riqueza.

Ao longo de Notas sobre Um Naufrágio conversa com muitas pessoas, como é o caso de Paola, que desenvolvem um trabalho humanitário extraordinário, de enorme abnegação. Podemos considerá-las heróis contemporâneos?
Seria um erro fazê-lo. Todas as pessoas com quem eu falei, alguns amigos de longa data, outros de quem me tornei muito próximo com a escrita deste livro, são pessoas que tomaram a decisão certa na altura em que foram chamadas a tomar uma posição. Vê-las e celebrá-las como heróis é o caminho mais rápido para nos distanciarmos dessa realidade e para nos isentarmos das nossas próprias ações. Se são feitos heroicos, não o são para mim. Qualquer pessoa pode, com as suas decisões, salvar vidas.

Se tens dinheiro, és bem-vindo à Europa. Se não tens, podes desaparecer no fundo do mar. Isto não é um modelo social, é uma arma de destruição em massa

Estamos necessitados de pessoas que consigam fazer o que está certo?
Precisamos de pessoas que consigam conectar-se consigo próprias e assumir a responsabilidade de cada escolha que fazem. Podem decidir não fazer nada, e continuar com a sua vida, ou podem tentar ter uma contribuição positiva no mundo. No caso da imigração no Mediterrâneo, podem seguir o exemplo da Europa, que muitas vezes age como se não fosse nada com ela, ou tentar fazer a diferença, por mais pequena que seja.

Adaptou este livro a uma peça de teatro. Qual a diferença entre os dois?
Em palco, é mais fácil jogar com os silêncios, com as expectativas do espectador. É ainda qualquer coisa mais performativa, pois também interpreto a peça. Romance e teatro são duas formas de expressão, não as distingo muito bem. Na verdade, nunca pensei que eu um dia me tornaria escritor. Para ser sincero, não gosto de escrever, estar aquele tempo todo sentado ao computador, mas é a minha vocação natural. Começo a pensar num assunto e só sou capaz de parar quando ponho tudo em página. E depois voltar a escrever e a escrever e a rever e a rever… No final desse processo, sim, posso dizer que tirei dentro de mim o que tanto me inquietava.

É uma espécie de catarse?
É uma tentativa de dar sentido à realidade. Cresci em Palermo, nas décadas de 70 e 80, numa época de muita violência, incluindo atentados à bomba. Escrever foi uma reação emocional à falta de sentido que via à minha volta e que, infelizmente, ainda continua.

O naufrágio de que fala no seu livro é também familiar. Como a relação com o seu pai e com o seu tio entrou em todo este processo literário?
Durante o período de escrita do livro, viajava até Lampedusa a cada 20 dias. Tinha mais perguntas do que respostas. E algumas questões tinham uma ligação muito ténue com o que acontecia na ilha. Quem sou eu? Do que ando à procura? O que me trouxe até Lampedusa? Numa das viagens, decidi convidar o meu pai que, como qualquer bom siciliano, é um mestre nos silêncios. Mas a sua presença foi muito importante.

Porquê?
Desde logo porque, além de médico reformado, é fotógrafo amador. O seu olhar era informado mas também exterior, como o meu, afinal, embora eu usasse outra ferramenta, a escrita. Foi ele a sugerir que eu encontrasse uma situação parecida às que eu presenciava no desembarque dos imigrantes, que eu buscasse dentro de mim, com as devidas distâncias e num exercício quase impossível, qualquer analogia capaz de me ajudar a compreender a sensação de desnorte que vi no rosto de cada imigrante.

Foi esse o caminho que o levou à doença do seu tio?
Sim, que era qualquer coisa que eu não queria aceitar, nem o meu pai… Era o nosso naufrágio familiar. Perceber que qualquer projeto literário sobre a tragédia dos imigrantes no Mediterrâneo estava, desde o início, condenado ao fracasso deu-me a liberdade para ser mais atento ao Outro e o mais íntimo possível. Nesse sentido, este livro é uma colagem de vários objetos que dialogam entre si. Um mosaico da Humanidade que nos une, qualquer que seja a nossa condição.

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