“Napoleão teria desenhado uma Europa em que, ao permitir certos movimentos, talvez não tivesse havido os nacionalismos que provocaram terríveis tragédias no século XX”

“Napoleão teria desenhado uma Europa em que, ao permitir certos movimentos, talvez não tivesse havido os nacionalismos que provocaram terríveis tragédias no século XX”

Nova-iorquino de raízes polacas, há muito a viver em Inglaterra, Adam Zamoyski acredita que esta educação plural lhe deu vantagens para escrever a “biografia definitiva” de Napoleão Bonaparte (1769-1821), o génio militar e imperador de França entre 1804 e 1814 que mudou a Europa. O autor e historiador de 72 anos criou um “monumento” incisivo, elegante e revelador em Napoleão – O Homem por Trás do Mito (Crítica, 769 págs., €25,90), porque acreditava que as muitas biografias já existentes falhavam as questões importantes: “Não havia um único livro que fosse justo com Napoleão, que o compreendesse, que desse um retrato satisfatório sobre o ser humano que ele era”, diz à VISÃO, via Zoom. Isto é, com todas as suas contradições e definições: génio, ícone, monstro, ditador, criatura fascinante.

Comecemos por um exercício de História alternativa: se Napoleão tivesse sido o vencedor da História, que Europa teríamos hoje?
Se Napoleão tivesse conseguido que Alexandre I, o czar da Rússia, alinhasse nos seus planos, deixando-o dominar a Alemanha, Napoleão teria vencido a Guerra Peninsular [o conflito entre o Primeiro Império francês e a aliança de Grã-Bretanha, Irlanda, Espanha e Portugal pelo domínio da Península Ibérica, entre 1807 e 1814, durante as Guerras Napoleónicas] e chegado a um acordo desejado: Inglaterra seria a senhora dos oceanos, mas França dominaria a Europa. Se ele tivesse alcançado tais objetivos, então o atual sistema político-social existiria há 200 anos, possivelmente numa versão mais autoritária. Napoleão, como um ditador benévolo, queria que as pessoas tivessem boas vidas. Tivesse ele atingido os seus objetivos, Napoleão teria desenhado uma Europa em que – ao permitir que existissem certos movimentos nacionalistas, na Polónia, em Itália – talvez não tivesse havido os nacionalismos que provocaram terríveis tragédias no século XX.

Teríamos uma União Europeia (UE)?
Teríamos tido a UE muito mais cedo na História. Se se olhar para o modelo da construção da UE atual e dos seus Estados-membros, este é, essencialmente, um modelo napoleónico, que inspirou fortemente o sistema judicial e a ideia de um Estado central forte ao qual o cidadão está obrigado a sujeitar-se. O Reino Unido abandonou a UE porque todas as instituições inglesas derivam de um modelo radicalmente diferente do modelo napoleónico.

Um comediante poderia sentir-se tentado a apontar influências entre a ambição de Napoleão e a de Putin, por exemplo. Podemos olhar para situações recentes na Europa, como a tensão na fronteira da Polónia com a Bielorrússia, ou a ameaça de conflito entre Rússia e Ucrânia, e estabelecer uma ligação com a mitologia napoleónica?
Não há comparação possível entre Putin e Napoleão: Putin está obcecado com o poder, e com essa ideia subterrânea de fazer a Rússia great again [novamente grande]. Mas ele não tem qualquer preocupação com as condições de vida do povo. Napoleão era um filho do iluminismo europeu: ele acreditava que todos os cidadãos deviam ser iguais perante a lei, cria numa meritocracia baseada no talento e na inteligência. Algo muito diferente do sistema cultivado à imagem da máfia por Putin e por tantos outros ditadores, para não mencionar Lukashenko. O maior erro de Napoleão foi, em 1807, quando venceu os russos e não acatou a opinião do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, [Charles-Maurice de] Talleyrand: “A melhor decisão a tomar é transformar a Áustria dos Habsburgos no seu principal aliado estratégico e reconstruir uma Polónia mais forte, garantida por Áustria, França e Alemanha, e manter a Rússia fora da Europa.” Se Bonaparte tivesse seguido este conselho, Alexandre I da Rússia não teria chegado à Europa. Mas Napoleão continuou a tentar criar uma aliança com o czar – um erro. Basta recordar que, durante a Segunda Guerra Mundial, o Presidente americano Roosevelt acreditou que seria possível estabelecer uma aliança com Estaline. Ninguém cria amizades com gente assim…  

Diz que Talleyrand é quem mais cedo percebe a grandeza do futuro imperador. Mas a biografia não tem pudores em descrever Bonaparte como um homem cheio de falhas…
Como todas as grandes figuras históricas, ele tinha virtudes e defeitos. Napoleão tinha complexos sociais e raciais: desde muito cedo, apercebeu-se de que era resultado do colonialismo. Tinha também complexos físicos: era um homem pequeno e nada atlético. E sofria de complexos intelectuais, porque, apesar de se ter educado a si mesmo até obter um nível de instrução muito superior a todos os que o rodeavam – e de impressionar até Goethe –, tal como todos os autodidatas, ele tinha a sensação de não possuir o conhecimento adequado. Tal tornava-o por vezes agressivo, minava a sua autoconfiança, sentia que tinha sempre de provar algo. Um dos aspetos que considero mais trágicos em Napoleão é ter observado que, em 1813 e 1814, este homem teve inúmeras oportunidades de se salvar a si próprio e ao seu trono, e até de criar condições para um posterior regresso e vingança, mas ele sentia que não podia regressar a Paris sem ter derrotado todos os seus inimigos, porque perderia o respeito dos seus súbditos. Mas os parisienses não se teriam importado nada com essa decisão: estavam fartos das guerras e queriam prosseguir com as suas vidas.

O ter nascido no território então colonizado da Córsega, a pobreza das suas raízes, a falta de pergaminhos aristocráticos, podem explicar a sua ascensão vertiginosa ao poder? Ou isto é só psicanálise de bolso?
Não creio que o seu objetivo primordial fosse o poder. É claro que Napoleão tinha ambições, mas o que ele mais desejava era controlar – era um grande maníaco por controle. Ele percebia que a forma como a Europa estava então organizada era idiota: havia monarcas inúteis, os Estados eram governados por ministros escolhidos porque os reis gostavam das esposas destes ou porque as amantes influenciavam estas escolhas, havia desperdício, superstições medievais… Era uma confusão. E Napoleão tinha vocação para ser o grande organizador. E a maneira de Napoleão conseguir colocar as coisas em ordem na Europa era assumindo o poder absoluto.

A sua biografia esforça-se por nivelar Bonaparte aos outros líderes da época. O general herói de 24 anos é apenas um mito?
Ele era, indubitavelmente, um general admirável. Napoleão trabalhou afincadamente nas campanhas militares francesas, passando noites, semanas, meses até, a estudar os mapas dos territórios e as informações recebidas. Ao contrário de tantos outros oficiais, ele sabia o que fazia desde o início. Muitos dos seus opositores eram diletantes que tinham ascendido por tradição. Ele não sabia como lidar com as tropas, mas era exímio a adornar os sucessos com qualidades épicas através de propaganda. E era um mentiroso sem vergonha, que falseava números e factos para engrandecer as vitórias.

Ganhou fama de “semideus”, e de ceifador de milhões de vidas…
Napoleão não era, seguramente, mais cruel ou insensível à vida humana do que qualquer outro líder. Um dos maiores disparates que as pessoas dizem sobre Napoleão é defender que ele foi causador do maior sofrimento e perdas humanas de que havia memória… Ele apenas começou duas guerras: uma contra a Rússia, em 1812, perante a ameaça de Alexandre I, e outra contra Espanha, em 1807, quando sentiu que tinha de se defender das incursões britânicas no continente. Todas as demais guerras foram causadas pelas outras potências, cujos exércitos eram tão destrutivos quantos os exércitos napoleónicos.   

O modelo da construção da União Europeia é, essencialmente, um modelo napoleónico, que inspirou a ideia de um Estado central forte ao qual o cidadão está obrigado a sujeitar-se

Que outros mitos refuta aqui?
Primeiro que tudo, essa ideia de que Napoleão era uma espécie de génio incomparável, ou possuidor de qualidade divina. Ele era uma figura espantosa, porque trabalhava como ninguém, tinha um cérebro organizado e uma memória prodigiosa, podia dormir duas horas no meio da batalha, e era excecional de muitas formas. Mas debaixo de tudo isso, existia um pequeno homem que, no fim da sua vida, só queria assentar, de forma muito burguesa, com a mulher e o filho. Isso pressente-se quando Napoleão foge para Elba: ele rodeia-se de uma pequena corte a fingir, mas sente-se contente por não ter de combater. E sente-se o mesmo alívio na sua chegada ao exílio, em Santa Helena. Se os britânicos lhe permitissem ter a família e os seus prazeres, e o tratassem por Sua Majestade, ele ficaria contente.

Como um velho da Córsega, a meditar sob uma oliveira…
Napoleão deixou a Córsega muito cedo, e fez tudo para se tornar francês. Depois, para ganhar credibilidade popular e alinhar-se com as modas da época, atentas às questões das nacionalidades, assumiu-se como um patriota corso. Mas assim que chegou ao poder, detestava quando alguém mencionava as suas raízes. Para ele, França representava o iluminismo, o Novo Mundo, a nova ordem que devia reger o mundo, a nação moderna.

Escreve que o jovem Napoleão pensou em suicidar-se. Foi um tédio momentâneo?
É difícil aferir a seriedade dessa confissão. À época, ele não era um adolescente embora tivesse, em muitos aspetos, uma mente juvenil. Veja-se a maneira como viveu a sua ridícula história amorosa com Josefina. Pode-se talvez descartar a história como um gesto romântico: sabe-se que Napoleão andava então a ler Paul et Virginie [novela de Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre, de 1788] e Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe [1774], literatura que alimentava os pensamentos negros de adolescentes frustrados. Napoleão podia ter-se suicidado por se sentir pouco apreciado, pois achava que podia fazer as coisas melhor do que os outros.

Conhecer Josephine, futura imperatriz que precisou de ser conquistada para casar com ele, foi um marco simbólico para Napoleão: ele assina pela primeira vez como Napoleon em vez de Napoleone, o apelido original…
É muito interessante: Napoleão era, afinal, oriundo da Europa mediterrânica, o pai foi uma figura apagada, a mamma era muito importante para ele, mas tratava-o com imenso desrespeito. Numa mulher, ele precisava de encontrar uma outra mamã… O casamento foi um ritual de passagem. Napoleão descobre as maravilhas do sexo, vive num estado de euforia, escreve cartas apaixonadas. Josephine trai o marido, ridiculariza-o. O que é interessante é que é neste momento que ele amadurece: Napoleão regressa da gloriosa campanha no Egito e quer divorciar-se. Mas compreende que um divórcio o fará parecer um tolo. Ele ama-a, continuam a ter bom sexo, e Josephine percebera já que Napoleão vai chegar longe.

Defende que existe sempre uma “dimensão moral” na avaliação de Napoleão na História. Porquê?
É muito estranho (uma questão de moda?) as pessoas avaliarem certas figuras históricas com um conjunto de categorias morais diferentes. Um bom exemplo no século XX é o de Hitler e Estaline: Hitler é uma figura completamente indefensável e monstruosa, ao passo que de Estaline dizem ter sido um ditador… Napoleão é visto como o ogre do seu tempo, responsável por trazer guerra e carnificina de milhões. Mas ninguém usa as mesmas acusações para descrever Alexandre I da Rússia, que insistiu em dominar a Europa Central, em fazer guerra na Turquia, em dominar a Polónia, e foi responsável por guerras que causaram a morte de milhões de súbditos. E Wellington foi um bom general, mas fazia o que era necessário para ganhar batalhas, incluindo medidas extremas como as usadas nos conflitos com a Índia. Tal como o “heroico” Almirante Nelson: a razão por que a marinha britânica era tão eficiente era também porque os seus soldados recebiam um prémio monetário pela determinação em batalha. Todos estes mitos são perpetuados nos livros de História, mas quando as crianças crescem, e se tornam historiadores, compreendem a verdade.

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