“Existe uma reconfiguração social das bancadas: os ricos nos estádios e os pobres à frente da televisão”

Foto: José Carlos Carvalho

O lusodescendente Mickaël Correia é o autor do livro Uma História Popular do Futebol, editado em Portugal em 2020 (Orfeu Negro), depois de ter sido lançado em França, onde o jornalista nasceu há 38 anos, filho de pais naturais da Covilhã. Num destes dias, o profissional do Mediapart, um jornal de investigação online publicado em francês, inglês e espanhol, passou por Portugal e conversou com a VISÃO sobre histórias do futebol para lá dos golos e das vitórias, que desvendam o lado menos conhecido da História do desporto mais popular do planeta – desde os primórdios, quando as mulheres, por exemplo, jogavam com botas de salto.

No livro, defende a tese de que o futebol nasceu em Inglaterra, no séc. XIX, como forma de controlar a classe operária. Qual era o contexto?
Nas escolas privadas de Inglaterra, formava-se a elite aristocrática e, quando os alunos dessas escolas se tornaram patrões, quiseram fazer do futebol um instrumento de controlo social sobre os operários. Era preciso incutir-lhes novos valores, como o da obediência ao líder, muito importantes para as conquistas coloniais e para a Revolução Industrial. Tal como nas linhas de montagem, também no campo cada um tinha a sua função.

Até que ponto o descanso semanal, que se tornou obrigatório em Inglaterra em 1854, impulsionou a prática do futebol?
Permitiu que se jogasse ao sábado à tarde, depois do trabalho, e ao domingo, depois da missa. E quando os operários regressavam às fábricas, na segunda-feira, o futebol era motivo de conversa. Muitos deles tinham chegado às grandes cidades em resultado de um êxodo rural, e o futebol foi muito importante para construírem uma nova identidade de bairro, um sentimento de comunidade que tinham perdido.

A expressão “jogo entre solteiros e casados” não é apenas uma metáfora para designar jogadores medíocres nos dias que correm. Até então, aconteciam mesmo jogos de solteiros contra casados.
Era uma prática muito tradicional, sobretudo na primavera. Por vezes, eram os mais jovens contra os mais velhos ou uma freguesia contra outra. Era um ritual.

E também entre paróquias.
Sim. Os terrenos baldios à volta das igrejas eram muito usados para jogar. Antes de se criarem as regras, o que aconteceu em 1863, as portas das igrejas cumpriam a função de baliza. A equipa que conseguisse lá meter a bola ganhava.

De onde aparece o fair play no futebol?
O fair play traduz o espírito nobre e aristocrático dos cavaleiros da Idade Média. Em meados do séc. XIX, imperava a ideia de que o mais importante não era o resultado final, mas a beleza do gesto. Quando as classes operárias se envolveram, e sendo o futebol parte da sua identidade, o mais importante passou a ser a confrontação, o fazer tudo para ganhar à outra equipa. Os primeiros episódios de hooliganismo nos estádios ingleses aconteceram logo entre 1880 e 1890.

Como se disseminou o futebol por outras parte do mundo a partir de Inglaterra?
Havia estrangeiros a estudarem nas escolas privadas em Inglaterra e, quando regressaram aos seus países, levaram o futebol. Foi o que aconteceu em Portugal. Um aristocrata aprendeu lá o futebol e depois começou a jogar com os amigos em Cascais. No Brasil, aconteceu exatamente a mesma coisa. Além disso, os portos das grandes cidades industriais foram um ponto de entrada do futebol no mundo. Em França, começou em Le Havre, no Norte, e, em Espanha, o ponto de partida foi em Bilbau. Outro fenómeno importante foi a rede do império colonial britânico. Marinheiros e soldados levaram o futebol para África e para a América do Sul, e é curioso que os clubes foram sendo criados ao longo das linhas de comboio que iam sendo construídas. Enquanto os engenheiros e os operários jogavam futebol, os locais ficavam a conhecer o jogo.

Porque é que os pubs em Inglaterra e os cafés em França foram o embrião de muitos clubes?
Os terrenos baldios próximos foram os primeiros campos de treino para algumas equipas e era prático usarem os pubs e os cafés para arrumarem as bolas e todo o material, além de servirem as refeições antes e depois. Em Paris, todos os clubes tinham a sua sede num café.

Qual foi a relevância das grandes guerras mundiais no futebol?
A Primeira Guerra Mundial difundiu-o, porque fora de Inglaterra não era tão popular. Nos dias de guerra mais tranquilos, os soldados jogavam entre eles. Havia sempre alguém que tinha uma bola e outros que não sabiam que jogo era aquele, sem esquecer a famosa partida entre alemães e ingleses, no Natal de 1914, que se transformaria num escândalo. Mais tarde, as guerras coloniais em África tiveram o mesmo efeito de difusão.

E a Alemanha nazi, tentou aproveitar-se do futebol?
Tentou, mas Hitler nunca gostou de futebol, preferia boxe e corridas de automóveis. Ainda fez uma seleção conjunta com os austríacos, que na época eram muito bons, mas não teve grande sucesso. Mussolini aproveitou melhor com a Itália.

De que forma?
O futebol passou a ser visto como uma boa maneira de encarnar o espírito de uma nação e isso refletiu-se na organização do mundial de 1934, em Itália. Foi aí que os hinos começaram a tocar antes das partidas. Mussolini também convidou adeptos de outros países a deslocarem-se a Itália e incentivou transmissões radiofónicas para outros países nas respetivas línguas. A partir desse momento, o futebol deixou de ser malvisto pelas autoridades, que passaram a usá-lo como instrumento. Ainda há pouco tempo, no mundial de 2018, na Rússia, vimos algo parecido. Putin tinha ajudado o seu amigo Bashar al-Assad na guerra da Síria, nomeadamente nos crimes de guerra em Alepo, e três meses depois era uma estrela internacional porque a organização do mundial foi uma operação de comunicação muito boa. Isto começou há quase 100 anos, com Mussolini.

Em Espanha, o Real Madrid foi, durante muitos anos, conotado com a ditadura de Franco e o Barcelona com a oposição. Porquê?
A rivalidade foi bastante construída durante o regime franquista. O grande clube da capital, apoiado por Franco, que meteu muito dinheiro lá dentro, e o rival de Barcelona, que depois da guerra civil 1936-1939 tinha de ser igualmente batido no campo de futebol, da mesma forma que a Catalunha tinha de se calar com as ideias republicanas e independentistas. O futebol foi um instrumento de propaganda para acabar com estas reivindicações e, até aos anos 60, o FC Barcelona viveu tempos difíceis.

O fair play traduz o espírito nobre e aristocrático dos cavaleiros da Idade Média. Quando as classes operárias se envolveram, o mais importante passou a ser a confrontação, o fazer tudo para ganhar à outra equipa

No livro, aborda o papel que coube ao futebol na descolonização de vários países em África. Qual destacaria?
Foi muito importante na independência da Argélia em relação à França, uma aventura incrível. A guerra já tinha começado há uns três anos e a Argélia estava a perder muitos homens. Precisavam de uma estratégia alternativa e, em 1958, criaram uma seleção de futebol para servir de instrumento à independência. Doze jogadores que atuavam na primeira divisão francesa, e alguns até iriam representar a França no mundial da Suécia, decidiram sair do país, clandestinamente, para estarem ao lado do movimento independentista argelino. Até 1962, quando se concretizou a independência, fizeram vários jogos internacionais e pediam sempre que tocasse o hino argelino. Um dia, ganharam um jogo na Jugoslávia e os adeptos da casa, apesar da derrota, começaram a cantar Argélia Livre. O primeiro chefe de estado da Argélia, Ferhat Abbas, disse: “Esta equipa antecipou a revolução em dez anos.”

No Brasil, já nos anos 1980, a chamada democracia corinthiana, em que até a equipa titular era decidida por votação, teve influência na queda da ditadura militar?
Foi um laboratório da democracia. Com as suas vitórias, os jogadores do Corinthians, liderados por Sócrates e Wladimir, demonstraram que a democracia não só era possível como funcionava. Por outro lado, ao participarem nas manifestações de rua, legitimaram-nas. O povo brasileiro pensou: “Se funciona num clube de futebol, pode funcionar na sociedade.” Curiosamente, nos protestos contra Jair Bolsonaro, veem-se muitas bandeiras de adeptos corinthianos.

No primeiro jogo internacional entre mulheres, um Inglaterra-Escócia realizado em maio de 1881, foi a indumentária que concentrou as atenções da Imprensa. O que vestiam?
Em plena era vitoriana (segunda metade do séc. XIX), muito conservadora, foi um escândalo social e moral quando as primeiras jogadoras apareceram de calções. Na Imprensa não interessava o jogo nem os resultados. O que importava era o que elas vestiam. Chegaram a jogar de botas de salto. No fundo, havia o medo de que as mulheres se tornassem viris, quando o seu papel, na sociedade da época, era ter filhos e ficar em casa.

Entretanto, os equipamentos foram uniformizados com os do futebol masculino e as mulheres estão hoje mais ativas do que nunca na luta por um tratamento igualitário. É uma batalha perdida?
É uma batalha em curso, como se viu no último mundial, em 2019, em que uma das melhores jogadoras do mundo, a norueguesa Ada Hegerberg, o boicotou por não existir igualdade salarial entre homens e mulheres. Foi um gesto muito corajoso. Assim como as greves que as jogadoras norte-americanas têm feito pelo mesmo motivo.

No livro, cita uma tarja exibida por adeptos tunisinos, em 2017, que dizia, sobre o futebol: “Criado pelo pobre, roubado pelo rico.” Concorda com esta ideia?
Claro que hoje estamos a ver a apropriação do futebol pelo império capitalista, digamos assim. Há um ponto de rutura. Durante a pandemia, o futebol-negócio quis continuar com os jogos. Há tanto dinheiro envolvido que nem se importaram que os estádios estivessem vazios. Do outro lado, tivemos quase 400 associações de adeptos a dizerem que o futebol sem adeptos não é o verdadeiro futebol e que só voltariam aos estádios após a pandemia, porque a saúde é mais importante. A rutura vê-se também no preço dos bilhetes. Um bilhete anual na Premier League inglesa custa 600 ou 800 euros. Quem pode pagar isso? Em França, o bilhete mais barato para ver o Paris Saint-Germain é 60 ou 70 euros. Há uma reconfiguração na composição social das bancadas: as pessoas ricas nos estádios e as pobres à frente da televisão.

A Superliga europeia de clubes, conforme foi apresentada, só para os clubes mais ricos, seria o expoente máximo do futebol mercantilizado?
É uma continuação histórica do que começou no final do século XIX, quando os patrões industriais começaram a profissionalizar o futebol. A Superliga vai acabar por acontecer, de uma maneira ou de outra. É o modelo do basquetebol da NBA, uma corrida ao lucro.

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo são idolatrados como foram Pelé e Maradona?
Messi e Ronaldo são marcas, o futebol já não é idealizado como antigamente. Qual a pertinência desportiva de ter Messi no Paris Saint-Germain quando já têm Mbappé e Neymar? Nenhuma. Foi contratado para gerar mais merchandising e lucro. São ícones mais limpos, vamos dizer assim, com muito marketing à volta deles, mas falta-lhes um pouco de humanidade, que Maradona tinha de sobra. Ele era a encarnação do melhor e do pior da humanidade ao mesmo tempo, e por isso muita gente teve tanta afeição por ele. Claro que, neste sentido, Ronaldo e Messi são mais um produto do que seres humanos, e por esse motivo a paixão dos adeptos é diferente.

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