“O que gostamos ou odiamos é mais importante do que aquilo que pensamos ou sabemos. A raiva tornou-se uma mercadoria”

“O que gostamos ou odiamos é mais importante do que aquilo que pensamos ou sabemos. A raiva tornou-se uma mercadoria”

Durante anos, Ece Temelkuran assistiu (e relatou na televisão e na Imprensa) à afirmação do autoritarismo na Turquia, onde nasceu, em 1973. E quando pensava que seria um problema local, típico da História conturbada do seu país, viu, a partir de Zagreb, onde se exilou, processos semelhantes a acontecer nos Estados Unidos da América (antes da eleição de Joe Biden), no Brasil, na Polónia, na Hungria e em muitos outros países. Com essa experiência escreveu Como Perder um País – Os Sete Passos da Democracia à Ditadura, um livro de enorme sucesso, com sucessivas traduções. Mas não se quis ficar pelo diagnóstico. Em Unidos (Temas e Debates, 256 págs., €16,60), aponta caminhos para o futuro. Podia ser um manual de instruções para salvar o mundo. Ece Temelkuran, que se divide entre a escrita de ficção, a crónica e o ensaio, prefere vê-lo como um compêndio de escolhas, todas ao nosso alcance.

Ainda vamos a tempo de escolher um mundo diferente?
Quero acreditar que sim. E quero que todos também acreditem. É por isso que escrevi Unidos e que continuo a dar conferências um pouco por todo o mundo. Um dos dilemas do nosso tempo é precisamente a sensação de que escolher não está ao nosso alcance. Contudo, todos os caminhos têm uma alternativa, é importante reforçá-lo. Em todos os países, e certamente também em Portugal, as pessoas sentem-se incapacitadas, que a sua ação política (e não só) é inconsequente. Mas essa é uma ideia criada para que deixemos de escolhê-la. 

No seu livro, fala diretamente para o leitor. As escolhas terão de ser individuais?
Numa grande parte, sim. Ingeborg Bachmann, uma das minhas escritoras preferidas, disse que o fascismo começa na relação entre duas pessoas. Invertendo o raciocínio, também se poderia dizer que qualquer dinâmica antifascista, revolucionária ou de mudança começa entre duas pessoas. Como o título do meu livro sugere, não se trata de “eu ou tu”, é “nós”, “unidos”. Não há nenhuma salvação individual, porque as classes mas desfavorecidas podem ser descartadas muito facilmente. A única forma que temos para afirmar a nossa existência, e torná-la consequente, é juntando-nos.

Mas hoje ainda há lugar para grandes mensagens coletivas? 
Mais do que se pensa. Aliás, os populismos de extrema-direita são muito hábeis a manipular essa política das emoções, o que é outra forma de dizer e de manipular as emoções das massas. Eles gritam “chega”, como aqui em Portugal, dizem que querem fazer um país “grande outra vez”, referem-se constantemente a um “orgulho nacional”, alegam que fomos “deixados” para trás, mas que o partido “está convosco”. O campo da política das emoções foi completamente abandonado pelos movimentos progressistas. E quando há um vazio, ele é sempre ocupado rapidamente.  

Tem defendido que o fascismo já está a fazer o seu caminho, mesmo que não seja reconhecido como tal. Porquê?
Se esperarmos que o fascismo se instale, como aconteceu antes da II Guerra Mundial, depois será demasiado tarde para agir. O fascismo é um conceito histórico, mas também é uma ferramenta política, muito atrativa hoje em dia. É urgente apontar o dedo e dizer: o fascismo começa assim. Como escritora e pensadora, julgo que esse é o meu papel. Alertar as pessoas por forma que possam fortalecer o seu ativismo e reconhecer esta onda que está a percorrer muitos países. Há quem pense que, por não haver uniformes nem botas militares, por os partidos continuarem a funcionar, mesmo que desvirtuados, o fascismo é impossível.

A História, como se sabe, tem o hábito de se repetir.
Este não é um assunto que tenha ficado enterrado nos campos de batalha da II Guerra Mundial. Continua vivo. Tenho falado para diferentes plateias, em várias geografias, e noto uma falta de entusiasmo muito grande em relação à proteção da democracia. Muitas pessoas perderam a ligação emocional ou até política com o regime democrático, em parte porque ele se esvaziou de um dos seus elementos fundamentais: a justiça social.

Perderam a fé e a esperança na democracia, como sugere em Unidos?
Sim, mas essas são palavras muito perigosas. É preciso ter cuidado quando as usamos. Muitos perguntam-me: e não há esperança? Fé? 

E não há?
Será isso consequente? Se eu disser que há esperança, alguma coisa mudará na vida das pessoas? E se eu disser que não há, o efeito será diferente? Aquilo que destrói os seres humanos é a falta de rumo. Há uma nova geração que está a crescer e a interrogar-se se os seres humanos merecem existir, tanto como merecem as outras espécies. E não é fácil convencê-la do contrário, quando os representantes imorais da Humanidade e os seus devotos estão a sondar as profundezas daquilo que conseguimos aguentar moralmente. 

O sistema em que vivemos tem estigmatizado a realidade, ao ponto de considerá-la como qualquer coisa suja. Nesta perspetiva, é preciso protegermo-nos desse contacto. A crise dos refugiados está nas bocas do mundo, mas quantos refugiados conhecemos?

É preciso ativar o coração humano? 
Eu também tive de fazer esse esforço, porque vi a ascensão do autoritarismo na Turquia, o que levou ao meu exílio. E foi devastador ver noutros países, nomeadamente na Europa, a concretização do enfraquecimento gradual da democracia, como é o caso do fim da separação de poderes entre política e justiça. Hoje, é cada vez mais importante acreditarmos em nós, seres humanos, porque acreditar dá-nos a capacidade de fazer promessas e a determinação para concretizá-las. Tendemos a esquecer que a nossa espécie é realmente capaz de reinventar-se por completo. 

De onde vem esta agitação toda que tem revirado as democracias? Consegue identificar? 
Há muitos fatores. Um dos mais importantes será certamente a crise do capitalismo, por que estamos a atravessar, a tensão entre o consumo e as preocupações ecológicas. Mas, talvez, o mais decisivo seja o facto de estarmos mergulhados numa nova dinâmica de comunicação – as redes sociais – que não é compatível com as instituições democráticas criadas no século XIX. Nenhuma democracia consegue regular o Facebook, nem por lei (pelo menos até agora) nem por valores, porque esses estão igualmente em disputa. É um perigo para as democracias mas também para os indivíduos, sobretudo porque esta nova esfera de diálogo está a ser invadida, dominada e manipulada por quem lucra com a confusão e a zanga das pessoas.

Porque estão zangadas as pessoas? 
Por causa das injustiças sociais, claro, mas também porque, por vezes, parece que vivemos numa tempestade perfeita, sobretudo nos dois últimos anos. Pandemia, alterações climáticas, autoritarismo. São demasiados medos ao mesmo tempo. Num certo sentido, parece que já estamos a fazer o luto pelas coisas que vamos perder. 

Em que sentido? 
Devido à crise climática, olhamos para uma árvore e sentimos que ela não vai estar lá por muito tempo. Contemplamos o mar e pensamos que o seu nível vai subir. Analisamos a política e imaginamos que será tomada por forças indomáveis. É um lamento mais imaginado do que real, mas resulta desta noção de que não teremos a capacidade de proteger o que está aqui. Choramos pelos dias que hão de vir. 

O que pode fazer a diferença?
A atenção constante, a persistência. Há pouco tempo, conheceu-se, através de uma fuga de informação, um relatório da Alamos, uma empresa do Canadá que está a produzir ouro no monte Ida, no Noroeste da Turquia. Nele avaliava-se o risco da operação, e o mais chocante foi que se percebeu que a empresa já contabilizava nos seus custos um atraso resultante de eventuais protestos e manifestações das populações. Era uma estimativa de seis meses, com o valor correspondente. E, de facto, as pessoas protestaram, tiveram alguns avanços e o assunto depois esmoreceu.

Já se planeava pensar nas cedências feitas e contando com os picos de atenção? 
Exatamente. A revolta das pessoas passou a ser uma operação contabilística, convertida em dinheiro, porque, muitas vezes, essa revolta assenta na raiva, a linguagem privilegiada das redes sociais. Nas últimas décadas, o espaço público infantilizou-se. O que gostamos ou odiamos é mais importante do que aquilo que pensamos ou sabemos. A raiva tornou-se uma mercadoria. Consome-se a si mesma, na ilusão de uma ação política. A solução tem de estar na determinação, na vigilância permanente, no compromisso. É quase um trabalho de missionário. 

É por isso que Greta Thunberg irrita tanta gente? 
Sim. Não larga o assunto nem joga com emoções, mas com factos científicos. Não altera a mensagem, centra-se sempre na mesma ideia e nos mesmos avisos. 

Defende ainda, no seu livro, que devemos ver a realidade completa. Qual é a sua mensagem? 
O sistema em que vivemos tem estigmatizado, sobretudo a partir dos anos 80, a realidade, ao ponto de considerá-la ou de apresentá-la como qualquer coisa suja. Nesta perspetiva, é preciso protegermo-nos desse contacto ou observá-lo a partir de uma distância de segurança. Como se a vergonha gerada pela nossa indiferença fosse mais fácil de lidar do que qualquer risco decorrente de um encontro com aquilo que é real. A crise dos refugiados e dos migrantes está nas bocas do mundo, mas quantos refugiados conhecemos? Quantos sírios? Quantos afegãos? As nossas discussões, e em particular os nossos argumentos, seriam mais relevantes se tivéssemos a oportunidade de um contacto mais forte e permanente com a realidade. 

Temos de nos desafiar mais? 
Se és mãe solteira e se precisas de cuidar dos teus filhos, tens desafios suficientes. E muitos outros exemplos poderiam ser dados. Cada um saberá decidir e responder pelas suas vidas. O que eu sei é que o eu performativo, aquele que se revela nas redes sociais, tende muitas vezes a colocar a realidade em segundo plano, esquecendo que essa realidade é feita por pessoas que lutam, todos os dias, incluindo pela sobrevivência. 

Isso também se liga a outro dilema que nos deixa. Optar por ter o suficiente. Como definir o suficiente? 
Adoraria perguntar isso a Jeff Bezos ou a Elon Musk, que já não são o rosto dos super-ricos, mas dos superprivilegiados implacáveis. Serão eles felizes, sendo os mais ricos do planeta? Parece que não, porque continuam à procura de mais e de mais. Para eles, a Terra não é suficiente. A questão, no entanto, é complexa. A economia do menos é decisiva para os desafios ecológicos e climáticos que temos pela frente. Mas será capaz de criar um novo modelo? O capitalismo aponta sempre para o mais, como se a nossa vida perdesse sentido se nos considerássemos satisfeitos. Pergunto muitas vezes em Zagreb, onde agora vivo, como era a vida durante o socialismo jugoslavo. Muitos dizem-me que tinham menos, mas o suficiente. Haverá certamente erros de perceção nesta imagem, mas este pode ser um caminho. Como escreveu Kurt Vonnegut [escritor norte-americano], “a felicidade é o conhecimento de ter o suficiente”. Será também a melhor arma contra a ganância e a voragem do consumo. 

Começámos com a palavra escolha. Com que palavra deveríamos acabar? 
Dignidade. É a que pode dar sentido às nossas escolhas e agregar todas as lutas contemporâneas, sobretudo as da identidade. Se é verdade que a pandemia tem mostrado o pior do ser humano, também tem trazido ao de cima o que ele tem de melhor. Governadores a contrariarem ordens presidenciais, como aconteceu no Brasil ou nos Estados Unidos da América, cidadãos a organizarem grupos de solidariedade, pessoas a saírem à rua, arriscando as suas vidas, para dizerem que Black Lives Matter. A defesa da dignidade individual e coletiva é a bandeira que pode unir-nos rumo a um mundo diferente.

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