“Não temos grandes políticos, temos oportunistas, corruptos e interesseiros. Não temos aqueles políticos, aqueles loucos insanos, como o Infante D. Henrique, capazes de vencer o cabo Bojador”

Foto: Luís Barra

É delicada no trato, dura nas palavras. E imensamente generosa na forma como, aos 84 anos, ainda está disponível para conversar. Começamos pelo romance que acaba de lançar entre nós (Um Dia Chegarei a Sagres, publicado pela Temas e Debates) e acabamos nos 200 anos da independência do Brasil, que em 2022 se comemoram. Pelo meio, entusiasma-se quando fala do movimento feminista dos anos 60 e emociona-se ao recordar as suas origens galegas. Académica reconhecida e escritora premiada, foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras, em 1996.

Simplificando, diria que o seu livro mistura Camões, Descobrimentos e uma certa melancolia. O que lhe agrada neste modo de ser português?
Ao longo da História, nos séculos XII, XIII e XIV, os portugueses tinham a reputação de ser mestres casamenteiros. Casaram Isabel com Carlos I, que viria a ser Carlos V e imperador do Sacro Império Romano-Germânico. E como é que os portugueses tinham essa habilidade? Tinham sentimentos, não sei se estes surgiram do mar, isso é um mistério… Mas foi por conta desses casamentos que os portugueses espalharam a melancolia portuguesa pelo mundo. Veja-se o caso de Filipe II, filho de Isabel, ele era um melancólico. Até os brasileiros, que são tidos como alegres, são melancólicos! Aliás, acho que toda a gente finge que é carnavalesco…

Mas a personagem principal do livro é um camponês simples.
Sim, Mateus é filho de uma prostituta, foi educado pelo seu avô. Mas descobre que é filho dessa grandeza de Portugal. Graças a um professor, o menino percebe que, por causa dessa grandeza, uma aldeia pode ser um conglomerado de aldeias, um conglomerado pode ser um país, e um país pode ser uma nação. 

Também é essa a lição do Infante D. Henrique?
Exatamente, o espírito audacioso do Infante D. Henrique. Na primeira vez que fui a Sagres, percebi-o logo. Foram aquelas ventanias enlouquecidas que impuseram uma cartografia oceânica aos portugueses. Havia que ir embora, eles não podiam ficar aqui parados no Litoral. Os ventos daquela região mudaram a imaginação do mundo. 

O que pensa de todo o debate pós-colonialista?
Esse debate não me pertence. Sabe porquê? Não pertence a ninguém, está fora de tempo. Era a época que havia a viver. É como se nós agora começássemos a pensar em retificar o passado, ajoelhar, pedir perdão… Podemos? Não, o mundo precisa é de saber o que aconteceu e não voltar a repeti-lo.

Conhecer a História…
Sim, conhecer a História. Agora, ridicularizar e criticar o que aconteceu? Todos temos de carregar os nossos erros, os quais, de um modo geral, nas suas épocas, não eram erros. Os escandinavos também erravam quando chegavam à costa britânica e matavam. Era a natureza deles, seria a nossa, é a nossa. Temos instintos que nem sempre correspondem à nossa alma, que quer ser sublime.

Hoje [na semana passada, dia 4], a atriz Fernanda Montenegro, sua grande amiga, é eleita para a Academia Brasileira de Letras. 
Você não vai acreditar, estou chorando desde manhã. Admiro-a por causa da minha paixão pelo teatro, é uma atriz brilhante. Mas não só: como eu, a Fernanda também vem de uma família de migrantes, ambas damos um valor extraordinário aos migrantes que foram para o Brasil.

A barbárie desloca a Humanidade para lugares onde ela vai criar redutos mais progressistas. As mudanças são sempre difíceis de prever, mas a nossa capacidade de reabilitar a civilização é imensa

E que valor é esse?
É quase uma banalidade dizer isto: ela é uma brasileira que deu certo. De certo modo, todo o mundo dá certo, do seu jeito, com a sua maneira de ser (não imponho excelências nas minhas relações com as pessoas)… Mas a Fernanda tem, digamos, um grande índice de brasilidade: é corajosa e tem posturas políticas notáveis, mesmo que possamos discordar delas. Também a admiro como feminista histórica que sou. Não creio que todas as mulheres tenham de ter o mesmo padrão comportamental, cada pessoa tem o direito de eleger a sua conduta, mas, nessa linhagem, nessa sequência de valores, ela corresponde a tudo.

Ainda faz sentido ser feminista em 2021?
Faz, mas não com a violência de agora. Olhe que eu sou feminista, não da década de 20-30, mas da década de 60. Estava em Nova Iorque no apogeu de 1968, invadi casas, estive presente em rebeliões, conheci feministas de primeira linha, como Gloria Steinem ou a Betty Friedan. Vivi o que havia de mais fascinante em todo aquele feminismo que brotava com grande sabedoria das universidades. Foi neste feminismo que me formei. Também sempre admirei o movimento black. Quando vivi em Nova Iorque, andava de metro de madrugada e fazia questão de não me sentar perto dos brancos. Só me sentava junto dos negros, porque, como brasileira, era ali que eu me sentia protegida. É como se percebesse que o branco tinha idiossincrasias perigosas e secretas, e que o negro, como vítima e perseguido, era obrigado a expor as suas dificuldades.      

Em 2019, deu uma entrevista ao Jornal de Letras em que dizia: “O que mais me agita, incomoda e faz chorar é a violência.” Portanto, do racismo ao feminismo, as lutas continuam a fazer todo o sentido, mas não com agressividade?
É o que está a acontecer. Não podemos imitar o nosso inimigo (ou adversário, para suavizar), acho que temos de lhe mostrar as diferenças que existem entre nós e ele. Talvez não dê em nada, mas historicamente resulta, vamos deixando pegadas. Jô Soares [comediante brasileiro e apresentador de talk shows] convidou-me, várias vezes, para ir aos programas dele e, uma vez, disse-me que eu era uma pessoa acima de todos. Senti que tinha de fazer um reparo e respondi-lhe: “Agradeço que reconheça que sou uma mulher gentil, mas pronuncia-se como se a delicadeza fosse uma programação da alta burguesia, da burguesia ou do mundo dos intelectuais. E eu não sou isso, sou uma escritora. Sou gentil, não por razões sociais, obrigações de uma sociedade que, inclusive, muitas vezes, eu não admiro. Sou gentil porque a minha gentileza impede que eu o bofeteie se for grosseiro comigo. Tenho de ser gentil para impedir a minha vontade de o matar.”

Isso também é uma postura política?
Completamente, e foram os meus pais que ma incutiram, uma aprendizagem extraordinária. Estudei num colégio alemão, onde também aprendi posturas comportamentais que têm influência nas minhas reflexões de hoje. Quando vivemos com contrastes e oposições, ou rebentamos e não resistimos ao impacto da diferença ou então aperfeiçoamo-nos. Até a minha religião não me fez raivosa contra Lutero ou contra Carlos V. Nunca me senti escrava de uma religião ou de uma teologia. É muito interessante como, ao longo dos anos, a nossa formação se vai fazendo… 

Como viveu estes dois últimos anos da pandemia? Conseguiu escrever?
A primeira versão de Um Dia Chegarei a Sagres foi escrita em Lisboa, em 2018. Depois, fui para o Brasil, fiz mais umas sete ou oito e, praticamente, acabei o livro no início da pandemia. Fora a minha profunda solidariedade com a dor, as pessoas que morreram, as que estavam famintas, as que perderam os seus empregos, as incertezas do futuro (a incertitude, como se diz em espanhol, uma palavra de que eu gosto muito), tudo isso me abalou, mas, fora isso, estava absolutamente tranquila com a minha condição humana. O que também se deve à minha paixão pela História.

Em que sentido?
Como estudo História desde menina, conheço a tragédia, os genocídios, as grandes pragas… Alguém sabe que a varíola liquidou milhões de pessoas? Também adoro Boccaccio, conheço toda a sua obra. Foi ele que abandonou o medieval e, através de uma criação importantíssima, abriu as portas ao Renascimento. Divina Comédia era apenas Comédia, e foi Boccaccio que o renomeou, chamando-lhe Divina Comédia e, assim, revalorizou Dante. É a obra de arte, a praga, o fracasso tremendo da Humanidade, os genocídios, as mortes… As pessoas eram bárbaras, mas criaram civilizações. A barbárie desloca a Humanidade para lugares onde ela vai criar redutos mais progressistas.  

Aceita a tragédia e a miséria, é isso?
Não, não quer dizer que eu aceite a tragédia e a miséria, mas sei que saímos dela. Não sei como, as mudanças são sempre difíceis de prever, mas a nossa capacidade de reabilitar e de fazer reparos à civilização é imensa. Somos seres como que voltados para renovar a cultura. 

Vale a pena ser otimista?
Vale. Agora, há outra coisa que quero dizer sobre os nossos tempos: não temos estadistas. Não temos grandes políticos, temos oportunistas, corruptos e interesseiros. Não temos aqueles políticos, aqueles loucos insanos, como o Infante D. Henrique, capazes de vencer o cabo Bojador. Acho que não temos esses homens. E isso é que eu temo, temo a falta de diálogo e de paixão utópica.

Que papel podem os intelectuais, os escritores e os artistas desempenhar nesse caldo explosivo, digamos, de afastamento entre o povo e as elites políticas?
Vou-lhe dizer uma coisa que talvez não aprecie: primeiro que tudo, o intelectual precisa de perder a sua arrogância. Acho o intelectual muito arrogante. Julga ter preceitos – imutáveis, segundo ele – que devem ser preservados, seguidos pelo povo, e que o povo não entende o que eles dizem porque o pensamento dele é sublime. No meu romance, Mateus representa a pobreza. Tenho uma atração profunda pelos pobres. Não, não quero que eles permaneçam pobres, quero que eles saiam da miséria. Gosto deles porque há neles um resguardo antigo, uma língua secreta, nos sentimentos, na nobreza. Veja, por exemplo, como os pobres são apaixonados pela família. Agora, não tenho dúvidas de que os intelectuais desempenham uma função nobre, mas acho que não podem exceder-se. Não podem julgar que são donos da verdade do mundo, donos da teologia, donos de Deus.   

Tem sido uma observadora privilegiada de Portugal. Como vê a atual situação política?
Não me sinto senhora das circunstâncias. Conheci uma Espanha e um Portugal miseráveis. Quando vim para cá, em menina, trouxemos um espanto de bagagem, malas, malas e malas de comida, feijão e arroz, sabão e sabonete, fazendas e sapatos… Nem se imagina. E dinheiro, para nos podermos sustentar na Galiza e também para dar à família. O que era a Europa no pós-guerra? É isso, vamos ser responsáveis, vamos estudar História. Portanto, para responder à sua pergunta, acho que Portugal melhorou muitíssimo. Não posso discutir questões mais ideológicas, mas vejo que Portugal tem feito alianças sólidas no Parlamento. Há uma palavra que ainda não entendi o que significa…

Geringonça? É um aparelho improvisado, com defeitos, mas minimamente funcional.
Formidável, é isso. Portugal tem um prémio Nobel da Literatura, artistas e escritores importantes, preserva a língua portuguesa, que é um feito histórico muito difícil. Tem saúde e educação grátis, coisas que traduzem um enorme progresso.

No Brasil, 2022 vai ser um ano importante. Há eleições presidenciais e comemoram-se os 200 anos da independência…
Ah, ia criticá-la se não me falasse nisso [risos]: vou agora ser eleita vice-presidente da Academia Brasileira de Letras e quero lutar por esses 200 anos de independência. D. João VI foi importantíssimo no Brasil, D. Pedro I também, mas D. Pedro II era um génio! Vamos ter de trabalhar a sua figura. Era um grande estudioso, lia literatura francesa, adorava Victor Hugo. Um dia, quis visitar Victor Hugo, escreveu-lhe, mas não obteve resposta. Então, apanhou um fiacre, bateu à porta e, quando lhe perguntaram quem ele era, D. Pedro II respondeu: “Sou o segundo imperador do Brasil.”

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