“É como se houvesse um desconfinamento comportamental agudo, que tende a ser transitório”

Foto: Luís Barra

Desde que se licenciou em Medicina e fez a especialidade em Psiquiatria, nos anos 1990, dedica-se à causa da saúde mental. “Nunca me fartei, é o que eu gosto de fazer”, assegura. Aos 59 anos, cultiva a arte do encontro e tem o dom da palavra, escrita – livro: Procura de Si e Liderança (ed. Caminho) – e falada, como no programa Pensamento Cruzado, de que foi autor, na TSF. Diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Casa de Saúde do Telhal, é também membro do Conselho Nacional de Saúde Mental e pertence ao conselho científico da Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Breves. Fomos ao seu encontro para conhecer a leitura que faz do estado mental dos portugueses e apurar os desafios do pós-pandemia.

O que representaram para si estes 19 meses de prática clínica?
No hospital, foi um desafio enorme mobilizar planos de contingência para proteger os colaboradores e os doentes internados, entre 430 e 450. Este tempo representou um período de reflexão muito rico: o ser humano tornou-se arrogante, julgando que controlava tudo por ter um desenvolvimento técnico-científico. A pandemia devolveu-lhe a humildade, fê-lo ver que não conseguia gerir a falta de controlo e a incerteza. O medo, a ansiedade e a angústia existencial pandémica tiveram um impacto transversal nas famílias e nas organizações. Se o medo é a perceção de uma ameaça e a ansiedade é a apreensão da antecipação de uma ameaça futura, então a angústia é o último grau da escala. É muito invasiva, vai ao fundo de nós e tem que ver com a perda de sentido.

Ainda se sente essa angústia?
Nuns casos sim, noutros não. A angústia foi transversal, mas vivida de forma diferente. Nos jovens, a capacidade de se projetarem no futuro ficou hipotecada, sem rituais de passagem nem festas antes ou depois do curso; isto abalou o sentimento de pertença. Os mais velhos sentiram que a pandemia lhes amputava a possibilidade de viverem os anos que lhes restavam; foi a angústia do tempo curto. A geração do meio ficou entalada entre estas duas e com preocupações de subsistência. Agora as coisas estão melhores, mas nem toda a gente fez o desconfinamento emocional, muitos ainda estão a viver o stresse pós-traumático, no entanto o ser humano tem uma grande plasticidade. Em momentos de aflição, há um maior sentido de comunidade e de solidariedade, mas depois tende-se a voltar ao registo anterior, à polarização, aos populismos.

Essa polarização é sintoma de uma sociedade doente?
Saímos da era industrial para a era digital, que tem coisas boas e outras complicadas. Costumo dizer que vivemos na sociedade 5V e 5C. O que quero dizer com isto? Muito volume, velocidade, volatilidade, voracidade e vacuidade. No século XIX, Schopenhauer afirmou: “Toda a gente gosta de opinar, mas poucos gostam de pensar.” Isto está muito acentuado, agora. Os 5C: muito consumo, competição, concorrência, cosmética e caos. Uma identidade construída nestes dois polos e na fetichização do poder e do sucesso sente uma angústia existencial. Por outro lado, há uma certa idealização da vulnerabilidade. [A atleta olímpica] Simone Biles falou disso, e bem, mas será muito chato se a autenticidade e a vulnerabilidade forem encaradas como valores de mercado. Há o risco de o marketing existencial, que vende estilos de vida, mercantilizar as relações e a empatia e transformá-las em produtos.

O regresso da socialização e da vida noturna era esperado ou passou-se de um extremo ao outro?
Depois da saturação pandémica, havia o desejo latente de descompressão. O cérebro pré-frontal, que avalia os riscos e mede alternativas, esteve centrado nas medidas de proteção e conteve a parte instintiva. Agora, o cérebro executivo está a dar espaço aos impulsos, a compensar. Pessoas menos autorreguladas podem fazer mais disparates, diluindo a consciência crítica quando estão em grupo. É como se houvesse um desconfinamento comportamental agudo, que tende a ser transitório.

O que dizer da violência, doméstica e não só, ou da impunidade de quem foge à lei? É possível reabilitar o lado sombrio da sociedade?
Ao sairmos da pandemia, o que existia antes voltou: uma sociedade polarizada, em que as pessoas não encontram o caminho do meio porque o sentimento de pertença foi contaminado. Na era digital, olhamos demasiado para os pés e menos para o rosto, o que enfraquece a nossa capacidade empática. Quando se mata alguém num jogo virtual, não se veem as consequências; é preciso o registo verbal e o não verbal para se perceber o sofrimento que se pode provocar. Atentar contra a dignidade dos outros potencia o ressentimento que leva as pessoas a unirem-se contra um suposto inimigo comum e a identificarem-se com grupos e registos populistas.

Isso também aconteceu com a vacina? Houve gente a condenar o pensamento único.
É a velha dialética civilizacional entre a liberdade e a segurança: se se tem mais de uma, tem-se menos da outra. Perante uma ameaça, as pessoas aceitam melhor a privação da liberdade. Passado o perigo, é legítimo terem direito às suas escolhas. Como a pseudoinformação que inunda o digital, é preciso haver uma boa pedagogia e alguma humildade, também em relação à Ciência.

Como gere estas questões nas consultas, numa altura em que aumentaram as dependências e a polarização de que fala?
O problema está em quem não vai à consulta, ou porque não acha necessário ou porque certos comportamentos danosos são um refúgio para a angústia. Isto apesar de haver hoje uma maior consciência da importância da saúde mental.

A saúde mental vai deixar de ser o elefante na sala na agenda política e no Orçamento do Estado?
O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) prevê €85 milhões para a saúde mental. É significativo saber que mais de um quinto da população portuguesa tem uma perturbação psiquiátrica: são 22,9%, segundo os dados epidemiológicos. Em 2030, a depressão será a grande responsável pela carga global de doença, um indicador que mede a estimativa de perda dos anos de vida por morte prematura por doença ou por incapacidade. Neste momento, em Portugal, as doenças mentais estão em segundo lugar na carga global de doença, a seguir às cardiovasculares e às cerebrovasculares. A saúde mental ainda é, embora menos, o elefante na sala.

O poder reivindicativo da saúde mental é diferente do da doença oncológica, por exemplo, e tem implicações na forma como aceitamos o impacto disso na produtividade do País

Também porque o acesso aos serviços públicos é limitado?
Por vezes, até há esse acesso, o problema é a continuidade. Não faz sentido chegar a uma urgência com uma tentativa de suicídio e depois esperar dois meses por uma consulta. O menor foco na pandemia fez com que a falta de resposta nos cuidados de saúde primários voltasse a ser visível. O slogan do Dia Mundial da Saúde Mental – “Saúde Mental num mundo desigual” – é um oxímoro: os países com mais suporte social conseguem calibrar a boa qualidade da saúde mental. No nosso, as determinantes sociais têm um grande impacto e falta uma abordagem sistémica, com equipas multidisciplinares.

O que está planeado neste campo?
As recomendações do Conselho Nacional de Saúde Mental vão no sentido de dar respostas: é preciso ter serviços de saúde mental nos hospitais gerais onde ainda não existem, cuidados continuados para doentes mentais graves, que carecem de reabilitação psicossocial, e equipas comunitárias para chegarem às pessoas. As poucas que existem vão a casa dos doentes mentais de superior complexidade ver como eles estão e avaliar se é possível mantê-los lá ou se precisam de ir para o setor social convencionado, pago pelo Estado.

Mas quem precisa destes apoios e não os têm fica sem opções, por não poder pagar os privados.
Os institutos hospitaleiros já internam doentes crónicos ao abrigo de uma circular de 2014, referenciados pelos serviços de psiquiatria, mas o acordo em vigor data de 1983. Na altura, davam-se medicamentos e apoio de enfermagem. Temos um grupo de trabalho, com a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), para rever esse acordo em função das necessidades identificadas pela tutela – por exemplo, os casos com deficiência e alterações comportamentais graves – e definir um caderno de encargos com um modelo de intervenção e financiamento. Isto está a ser discutido há um mês, em encontros quinzenais, o PRR também obriga a redefinir o Plano de Saúde Mental, previsto na Resolução 49/2008 do Conselho de Ministros, e que está por concretizar. 

Porque estamos ainda neste ponto? É um problema cultural?
Vejo três razões para isso. O poder reivindicativo da saúde mental é diferente do da doença oncológica, por exemplo, e tem implicações na forma como aceitamos o impacto disso na produtividade do País. Além do estigma – sentir vergonha ou culpa em assumir a doença –, há o problema de operacionalizar planos, de uma clivagem entre aquilo que cabe ao Ministério da Segurança Social e o da Saúde. Esta separação impede que trabalhem de forma integrada no terreno, com agilidade e em parceria.

Falando em produtividade, como encara a reorganização do trabalho?
Depois da pandemia, tenho sido muito solicitado para falar e dar formação em liderança. Os departamentos de Recursos Humanos das organizações estão a aproveitar para pôr na agenda a preocupação com o bem-estar, a sua influência na produtividade, e para criarem ambientes de trabalho mais saudáveis e menos tóxicos. Neste momento, qualquer liderança tem de ser contextual e flexível, porque as realidades são muito diferentes. Alguns preferem o teletrabalho porque gerem melhor o dia e estão mais tempo com os filhos, outros gostam do presencial e desligam do trabalho em casa, e há quem tenha ficado com aversão ao sofá, associado às tarefas profissionais em vez de servir para relaxar, numa casa pequena. No modelo híbrido, que será para ficar em muitas empresas, as lideranças devem compreender as necessidades básicas que a pandemia atacou: sobrevivência, segurança psicológica ou como são reconhecidos os esforços das pessoas.

E o que verificou até agora?
Há de tudo. Temos muitos chefes e poucos líderes. Os chefes querem a presença física dos colaboradores para ver e controlar os comportamentos, como se isso fosse igual a produção. Outras organizações permitem que as pessoas organizem o seu tempo, desde que os resultados apareçam. E há colaboradores que gostam de estar em casa, mas sentem falta do momento do café, onde podem fazer uma pausa e socializar. É preciso reinventar, integrar as coisas boas e eliminar as gorduras das coisas más, criando-se um sentimento de pertença, de reconhecimento e de realização. Não há modelos perfeitos, há desafios. Boa parte das empresas está atenta à possibilidade de delegar, de capacitar e de criar outro tipo de clima, com soluções à medida. Isto leva tempo e requer exemplaridade. Um exemplo: perguntar a um colaborador se o filho doente está melhor, mas, se não for autêntico, é melhor não o fazer, porque está ali uma pessoa, não um produto de consumo.

A própria designação “recursos humanos” tem muito que se lhe diga…
Agora é gestão de pessoas: elas têm competências, recursos, mas não são recursos. A consciência do impacto que o meu exemplo tem nos outros é que pode provocar mudança, e isso é uma coisa interna.

Faz meditação e taekwondo. São uma vacina de saúde mental?
Fui federado de taekwondo, mas deixei porque tenho artroses da anca. Pratico meditação transcendental, mas não a imponho a ninguém. Defendo que a sociedade não tem de ser medicalizada. O desporto, o pilates, o ioga e as práticas meditativas facilitam a regulação de emoções e o controlo das respostas fisiológicas aos fatores de stresse, promovendo a saúde mental.

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