“Em Silicon Valley, vê-se muito aquele cenário distópico de mendigos nas ruas sem que os outros olhem para eles, porque há trilionários que ficam nas suas nuvens”

Natural de São Paulo, Martha Gabriel, de 59 anos, é uma das vozes mais requisitadas no Brasil em matéria de inovação e tecnologia, Inteligência Artificial, marketing digital e futurismo (o exercício de traçar cenários num horizonte de dez anos). Formada em Engenharia, consultora, professora, escritora, artista e, sobretudo, palestrante, participou, em setembro, no festival Humanorama, um ciclo de conferências sobre a Humanidade ligado ao Rock in Rio. Começámos e acabámos a olhar para um futuro – fascinante e, ao mesmo tempo, assustador – a décadas de distância, mas pelo meio abordámos o presente e o futuro imediato do trabalho no pós-pandemia (desejo otimista, talvez demasiado). Também cabem nesta entrevista a escassez de água potável em África, os mendigos de Silicon Valley ou a bruxa má da Bela Adormecida.

Defende o ensino do futurismo desde os primeiros anos de escola. Porquê?
Até ao fim do século XX, o mundo pouco mudava durante as nossas vidas. Foi assim ao longo da História da Humanidade, mas, agora, em dez anos, a mudança é tão grande que, se não soubermos traçar cenários, ficamos à mercê do mundo, ao invés de escolhermos o que queremos para nós. Se olharmos para os cenários plausíveis até 2030, há muita coisa diferente que pode acontecer. Por isso, as crianças e os adultos devem ser educados para conseguirem fazer esse exercício.

Que grandes mudanças se adivinham?
As tecnologias já estão aí – Inteligência Artificial, Internet das Coisas, blockchain, big data, robótica, nanotecnologia, impressão 3D, computação quântica –, todas são transformadoras da vida das pessoas e estão superaceleradas. Que coisas boas nos podem trazer nos próximos anos? Por exemplo, resolver o problema de água potável em África, gerar energia sustentável em determinado bairro, só pelo facto de as pessoas andarem em cima da calçada, ou permitir aos médicos a deteção antecipada de uma doença. O Japão imaginou, para daqui a algumas décadas, a sociedade 5.0, na qual tudo ao nosso redor é inteligente, a ponto de se prever e de se acabar com uma pandemia muito antes de ela começar. A área dos alimentos também está hoje em condições de produzir coisas incríveis. Não é só plantar mais comida; é fazer uma seleção genética nos alimentos para serem mais ricos naquilo de que os humanos precisam.

A Inteligência Artificial oferece muitas oportunidades, mas também riscos.
Estamos a viver uma corrida mundial muito grande pelo poder da Inteligência Artificial, uma “guerra fria”. Se não se agir corretamente, vamos criar um monstro. Infelizmente, é um cenário também muito provável. A mesma tecnologia que pode diminuir os problemas do mundo pode aumentar as desigualdades. Estados Unidos da América e China lideram a corrida, e vemos as pessoas que dominam as regras do jogo a criar startups bilionárias, sem aquele entendimento para se criar um impacto positivo na sociedade. Já estive, várias vezes, em Silicon Valley, em São Francisco, e vê-se muito aquele cenário distópico de mendigos nas ruas sem que as outras pessoas olhem para eles. É como se não existissem. Porque há trilionários ali que ficam nas suas nuvens. Teoricamente, com a tecnologia atual, poderíamos não ter fome nem guerras no mundo. Temo-las, porque existem pessoas a lutar por poder.

A corrida à Inteligência Artificial pode acabar em guerra?
Pode gerar guerras. Há uma frase de Einstein em que ele disse que não sabia quais seriam as armas da III Guerra Mundial, mas que na quarta seriam o pau e a pedra. Porquê? Porque, neste caminho tecnológico, se não houver ética, se for essa coisa desenfreada, quem vai destruir a Humanidade não é a Inteligência Artificial, são os humanos. A ética é hoje o tópico mais importante nas universidades e nas empresas, quando o tema é a Inteligência Artificial.

É por isso que diz temer mais os humanos do que as máquinas?
Exatamente. Porque somos nós que estamos no comando de tudo isto. Nos anos de 1970, os grandes pensadores de Inteligência Artificial da época já antecipavam esse risco. Eles só achavam que ia ser mais rápido do que está a ser.

Numa das suas palestras, fala das habilidades essenciais para o futuro. Que habilidades são essas?
Considero essa a minha palestra mais importante. Podemos dividir as habilidades em três categorias. A primeira é a capacidade de analisar, através do pensamento crítico, um mundo que muda muito depressa. Em alguns aspetos, ela está ligada ao conceito de futurismo. Temos de ouvir as várias partes envolvidas para traçarmos possíveis cenários. Mas o pensamento crítico também permite entender os sinais que outros não veem. Houve quem antecipasse a pandemia deste coronavírus, por exemplo, porque estava atento. Estamos numa panela de pressão cheia de coisas a acontecer e, se não prestarmos atenção, ficamos para trás.

Quais são as outras categorias de habilidades essenciais?
O segundo leque de habilidades são as de adaptabilidade constante à mudança, as chamadas soft skills, como a comunicação, negociação, gestão de equipas, agilidade, colaboração, resiliência, criatividade, às quais teremos de juntar a simbiose tecnológica, porque a tecnologia é a base para se operar o mundo como ele existe hoje. Por fim, na terceira categoria surgem as habilidades humanas. Estamos a ficar tão anestesiados, tão robotizados que estamos a perder a humanidade.

São estas características que vão fazer a diferença num mercado de trabalho cada vez mais ocupado por máquinas?
Com certeza. Não adianta competir com as máquinas, porque vamos perder. Não competimos com a velocidade de um carro, as pernas não aguentam. Não competimos com o cálculo de rota do Waze ou do Google, não sabemos fazer aquilo. Vamos admitir que elas estão automatizando tudo. Como podemos marcar a diferença? Em primeiro lugar, sabendo usar a máquina e, depois, fazendo o que elas não fazem, desenvolvendo as habilidades que referi.

Acredita que algum dia elas vão igualar-nos até nessas habilidades?
Algumas previsões de futuros indicam que, dentro de quatro ou cinco décadas, elas vão fazer tudo o que nós fazemos. Qual será então o xeque-mate para continuarmos a ser relevantes? Misturarmo-nos com elas, passo a passo. Há quem diga que será por essa altura que as máquinas vão destruir os humanos ou, então, que nos vamos tornar senhores do universo. Não importa, alguma grande mudança vai acontecer. Acredito que, se nos misturarmos com as máquinas de maneira adequada, não haverá diferença entre nós e elas, quando esse tempo chegar.

Talvez a imortalidade venha antes do teletransporte. Já existe tecnologia de edição genética, que eticamente não pode ser usada. Tenho a certeza de que ambas vão acontecer, mas não no meu tempo

Centremo-nos no presente e no futuro imediato: no pós-pandemia, vamos voltar ao escritório, ser mais remotos ou a maior tendência será um regime híbrido?
Com certeza será híbrido, mas em vários graus. A pandemia mostrou que é muito mais conveniente e eficiente fazer algumas coisas de forma digital, mas também mostrou que outras se fazem melhor presencialmente. O híbrido que emerge é uma mistura das preferências pessoais com as características do negócio e da infraestrutura que se tem.

O que um bom líder digital tem de ter de diferente?
Vai ter de conciliar o melhor caminho para o negócio com a preferência dos colaboradores. É complexo, porque estamos a sair de um cenário em que fomos radicalmente empurrados para o online e a entrar noutro de conciliação de todas essas demandas, que antes eram inexistentes. Mas tanto há quem queira trabalhar remotamente como aqueles que preferem um regime presencial. Um bom líder digital não tem de ser especialista em nada, mas tem de ser um excelente articulador de habilidades.

O que se perde com o trabalho remoto?
As reuniões de criatividade não são tão boas através da tecnologia e perdem-se momentos não planeados, aquelas pequenas coisas que acontecem à nossa volta, que vemos ou ouvimos sem querer e que nos influenciam positivamente.

Há trabalhadores que se queixam de trabalharem mais em casa. Qual a explicação?
A explicação está em não ter uma divisão de ambientes. Para quem trabalha em casa, e a minha vida é digital já há mais de 20 anos, se não tiver disciplina e se não delimitar espaços, a pessoa simplesmente não percebe e dá continuidade ao trabalho. Por outro lado, é necessário limitar os outros e colocar barreiras. As empresas devem ter políticas claras para que o trabalhador saiba quando pode ou não deixar de responder a algo, porque urgência todos temos, mas tratar tudo como urgência e invadir sábados, domingos, feriados e noites não é produtivo nem é bom para ninguém. É assédio intelectual ao trabalhador.

No mundo dos negócios, considera a arte de contar boas histórias uma arma poderosíssima para influenciar o outro. Que arma é esta?
O ser humano foi configurado biologicamente para ser atraído por histórias, sobretudo as más. As pessoas comentam que os jornais sangram de tantas notícias más, mas prestam mais atenção a essas, porque é uma forma de evitarem que o mesmo lhes aconteça, é um meio de sobrevivência. O ser humano chegou até aqui evitando muito mais os perigos do que experimentando o prazer e, apesar da evolução nos últimos dois séculos, os nossos genes não mudam assim tão depressa.

Recentemente, participou no festival Humanorama, um ciclo de conversas sobre a Humanidade ligado ao Rock in Rio. O tema era precisamente sobre contar histórias. Do que se falou?
Ao longo da História da Humanidade, as histórias foram contadas por pessoas que venceram as que não puderam falar. Mas não existe uma só história, há mais visões. Nos últimos anos, nota-se uma diversidade maior. Costumo dar o exemplo dos filmes da Disney. Antes, a princesa era uma garota que esperava o príncipe para ter uma vida feliz, e agora não, ela vai e conquista para ser feliz. Já na Bela Adormecida, há uma bruxa má, mas o filme Maléfica conta a sua versão e então, quando entendemos o seu lado, começamos a adorar a bruxa.

Tem o hábito de citar frases. Uma das suas preferidas é de Charlie Chaplin: “Que os nossos esforços desafiem as impossibilidades. Lembrai-vos de que as grandes proezas da História foram conquistas daquilo que parecia impossível.” O que parece hoje impossível há de transformar-se em grande proeza?
Teletransportar, que por enquanto parece impossível para todos os cientistas. Se um dia o conseguirmos, teremos vencido o limite da nossa dimensão física. E a outra coisa que parece impossível, embora o seja cada vez menos, é viver para sempre. A busca da imortalidade é a última fronteira da Humanidade. Tenho a certeza de que ambas vão acontecer, mas não no meu tempo.

O teletransporte chegará primeiro?
Talvez venha antes a imortalidade. Já existe tecnologia de edição genética que eticamente não pode ser usada. Nós somos um robô de ADN. Se se souber operar, vai-se lá e altera-se. Estamos no limite de aplicar tecnologias para nos irmos consertando, de modo a não morrermos. No futuro, vai dar para ligar tecnologia às nossas moléculas mas também para modificar a nossa genética. Por exemplo, termos o olfato de um cão ou guelras para respirar debaixo de água. Qual é o grande limite? Não é só ético, ele é também ecológico. Imagine-se que cada um resolvia inventar à sua maneira, teríamos o potencial para uma catástrofe ecológica gigantesca. Mas a tecnologia está aí.

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