“Muito do mal que há no mundo é cometido por pessoas que acreditam genuinamente estar do lado certo da História e se veem como pessoas boas”

Foto: Marcos Borga

Polémico, radical e utópico são adjetivos que lhe atribuem, seja por defender a semana de trabalho de 15 horas, a livre circulação de pessoas ou o rendimento básico universal. Rutger Bregman é um dos pensadores que mais tem dado que falar junto das lideranças de topo e até Yuval Harari, autor de Sapiens, lhe tira o chapéu. No seu novo livro, Humanidade – Uma História de Esperança (Bertrand, 494 págs., €18,81), o bestsellerholandês escrutina ideias feitas sobre a natureza humana através de um fact checkinga mitos vigentes e brinda-nos com verdades felizes, mas pouco abordadas nos media e nas redes sociais: os humanos estão programados para se entreajudarem. Aclamado por publicações de referência, propõe um “novo realismo”, fazendo jus à filosofia de Rousseau, assente no “bom selvagem”, em detrimento do realismo postulado por Hobbes, em que o medo do outro e o poder caminham juntos. Em vez de esperar o pior, olhando o passado, aprendamos com os equívocos da História e restauremos a confiança. Ela ser-nos-á devolvida em políticas públicas mais justas, em vez de esperarmos o pior, como aprendemos no passado.  

O seu livro apela à humanização da espécie. O que é o novo realismo?

Quero redefinir o realismo e mostrar que é possível ter esperança na natureza humana. Não somos cínicos nem monstros e só sobrevivemos por sermos amigáveis, como mostram os evolucionistas. Aqueles que têm uma visão mais positiva do mundo e temem ser ridicularizados por isso são os verdadeiros realistas. O livro pretende mostrar que coisas que se achavam disparatadas ou impossíveis fizeram sentido mais tarde. A História é a mais subversiva de todas as ciências sociais, obriga-nos a questionar o status quo. 

A teoria do verniz (Frans de Waal) e a do gene egoísta (Richard Dawkins) são mitos? 

Sim. A ideia de que a nossa bondade é uma camada fina que estala à mínima provocação vem da Antiguidade Clássica e dos primórdios do Cristianismo. Santo Agostinho dizia que, no fundo, somos todos pecadores. Filósofos iluministas como John Locke ou Thomas Hobbes defendiam que seguir a nossa natureza egoísta nos conduziria à brutalidade, ao caos. É uma ideia recorrente nas tradições religiosas e seculares.

Porque valorizamos as facetas mais cínicas ou trágicas da existência? 

O cinismo é a ideologia dominante difundida por quem está no poder e age por interesse próprio. Se confiamos uns nos outros, podemos trabalhar em conjunto, sem burocracias nem CEO´s, gestores, reis ou rainhas. Há um potencial subversivo e revolucionário enorme na ideia de que evoluímos para cooperar de forma amigável. 

Quando começou a questionar a natureza da nossa realidade? 

Depois de escrever o livro Utopia para Realistas, sobre como ideias que achávamos improváveis se tornam realidade. Uma delas, o rendimento básico incondicional (RBI) para erradicar a pobreza. Procurei investigações realizadas no mundo inteiro e tentei demonstrar que o acesso ao dinheiro permite aos pobres comprarem aquilo que precisam, não aquilo que os peritos entendem que eles precisam. Os estudos mostram que, graças ao RBI, os miúdos melhoram na escola, a saúde também, as pessoas encontram novos trabalhos, criam empresas. Nas digressões havia sempre alguém que comentava: até pode funcionar, mas a natureza humana é egoísta. Decidi aprofundar o tema e mudar perceções vigentes, pois também eu tinha uma visão cínica dos humanos, assente em estudos como os de Philip Zimbardo (Prisão de Stanford) e de Stanley Milgram (máquina dos choques elétricos), ou em obras como O Deus das Moscas[de William Golding]. 

Como foi encontrar uma história verdadeira que deita por terra a ficção trágica de Golding? 

Aconteceu em 1975, com crianças perdidas numa ilha deserta. Localizei-as – hoje têm mais de 70 anos – e ao capitão que as resgatou, que morreu há meses. Contaram-me como tudo se passou, ilustrando o triunfo da resiliência humana, da capacidade de adaptação e da amizade humana. Se fosse feito um filme em Hollywood, seria encarado como lamechas ou irrealista: “As crianças não se comportam assim.” O que pretendo dizer é que nos tornamos nas histórias que contamos a nós mesmos. Seria importante que os milhares de jovens que leram a história [de Golding] nos programas escolares tivessem acesso a esta, sobre a capacidade de confiar, da lealdade e do companheirismo. Se fossem arrogantes ou narcisistas não teriam sobrevivido. 

“Podemos superar o preconceito, o racismo, o ódio e a violência. Estamos programados para o contacto face a face”

Essas qualidades também podem conduzir-nos aos piores caminhos pelas melhores razões. Porquê?

É um dos factos mais perturbadores da natureza humana. Fazemos coisas terríveis em nome da lealdade e da fraternidade. No livro falo dos soldados alemães que continuavam em combate, nos anos 1940, motivados pela lealdade, ou do fanatismo ideológico dos nazis de topo, que achavam estar a fazer a coisa certa. Somos facilmente intoxicados ao ponto de acreditar que se pode violar direitos humanos básicos por uma boa causa. A figura do Joker, o psicopata sádico que se diverte com a tortura e a violência, existe na realidade, mas é raro. Muito do mal que há no mundo é cometido por pessoas que acreditam genuinamente estar do lado certo da História e se veem como pessoas boas. 

Como encara os movimentos anti vacinas que surgiram na pandemia?

Há uma tendência falaciosa, por parte das pessoas que defendem o uso da máscara e a vacinação, a interpretarem quem não o faz como egoísta, mas elas estão mesmo convencidas de que as medidas são imorais. Nos Estados Unidos da América, onde a polarização é maior, basta perguntar se é republicano ou democrata. Usar máscara ou ser vacinado tornou-se um símbolo do grupo dos democratas. É um dos paradoxos que abordo no livro: evoluímos para ser amigáveis, mas também somos tribais ao ponto de dar um tiro no pé e colocar vidas em risco. 

O “eu” e o “nós” é fruto da nossa programação cerebral? 

Sim, pelos mecanismos neurobiológicos ligados à função paradoxal da ocitocina, inicialmente designada de “hormona do amor” ou da conexão humana. Só mais tarde os cientistas perceberam que ela também nos leva a desconfiar dos estranhos. Não é uma contradição, são duas faces da mesma moeda. Quero enfatizar que podemos superar o preconceito, o racismo, o ódio e a violência.  

De que forma?

Através do contacto humano. Estamos programados para o contacto face a face. Olhar nos olhos ou corar por sentir vergonha torna muito difícil odiarmo-nos. Eu próprio passei por isso: estar com pessoas que vi na televisão ou conheci via Twitter levou-me a constatar que são bem mais simpáticas do que pareciam. Também me disseram que eu era menos parvo e arrogante do que julgavam! 

Na cimeira de Davos, em que participou, isso também aconteceu?

É fácil pensar que as elites só querem dominar o mundo e se regem pela ganância e o interesse próprio, mas encontrei lá pessoas fantásticas, curiosas, com que se pode ter conversas interessantes. Num plano estrutural, porém, há uma espécie de cegueira que arruína o sistema. Por exemplo, deslocam-se nos seus jatos privados para falarem de inclusão e de participação. Quando David Attenborough apresentou o seu filme [A Life on Our Planet], no auditório principal, levou a audiência às lágrimas. Não eram monstros ou narcisistas, que existem, mas são muito poucos. 

Porque diz temer que o cinismo dos ativistas ambientais se converta numa profecia que se cumpre?

Alguns ambientalistas pressupõem que os humanos só querem consumir e destruir o planeta. É perigoso acreditar nisso. Se assim for, para quê fazer alguma coisa? Corre-se o risco de perder o otimismo e a coragem.  

O que pensar, então, dos psicólogos sociais que referiu há pouco, cujos trabalhos têm telhados de vidro? 

Philip Zimbardo era um ativista progressista, queria genuinamente reformar ou abolir o sistema prisional. Meteu estudantes numa cave com uniforme de guardas e instruiu-os a terem condutas monstruosas. A estratégia teve o resultado oposto: os republicanos reforçaram as políticas vigentes. A Experiência da Prisão de Stanford ilustra o que pode correr mal na ciência e devia ser removido dos currículos universitários. Stanley Milgram era um cientista muito ambicioso e o tiro saiu-lhe pela culatra. Porém, o estudo [instruir sujeitos a dar choques elétricos a quem estava na sala ao lado, que simulava recebê-los de facto] foi replicado por investigadores íntegros, com resultados semelhantes: uma proporção significativa das pessoas estava disposta a acionar o botão em voltagens que podiam ser letais, embora eu não acredite que se tratou de obediência cega: o visionamento das imagens de laboratório permite dizer que foram ingénuas, ou pouco críticas, por acreditarem que ajudavam a ciência sendo bons sujeitos. 

Quando é que a desobediência se revela a melhor solução? 

Em tempos de prosperidade, prevalece o Homo Cachorrinho, que evoluiu para usar o superpoder da amizade e da cooperação e sobreviver. Em tempos de crise, de guerra ou de injustiça, esse é também o problema, pois é preciso ir contra a corrente correndo o risco de ficar sozinho. Escrevi uma dissertação sobre combatentes da resistência durante a II Guerra Mundial, em que era notória a tendência para ser incómodo. Foi o caso do holandês Arnold Douwes: expulso da escola várias vezes, não tinha trabalho, mulher ou filhos, era um marginal sem lugar na sociedade. Rumou aos Estados Unidos da América, onde foi considerado um comunista radical e recambiado para a Holanda. Quando estalou a guerra, formou uma rede de resistência, convenceu judeus a fugirem para zonas rurais e praticamente forçou residentes da zona leste a acolherem-nos, deixando-os às suas portas. Salvou 300 judeus tendo uma atitude oposta à natureza amigável que referi. Grandes reformadores como Nelson Mandela e Martin Luther King mudaram o curso da História porque se dispuseram a ser impopulares. A ativista ambiental Greta Thunberg também teve a coragem de ir contra o pensamento dominante, criando grande desconforto, o combustível da mudança. Talvez seja um tema para o meu próximo livro!

E se o nosso superpoder não vingar? Einstein especulava sobre o fim da Humanidade, creio…

Ele dizia que, a haver uma terceira guerra mundial, seria com pedras e paus. Alertou-nos para os riscos existenciais colocados pelo receio da guerra nuclear. A tragédia da humanidade é que a maioria é decente, mas uma minoria pode estragar tudo. Hoje, os avanços na biologia sintética permitem desenhar um vírus com um período de incubação longo e altamente contagioso que, em caso de fuga do laboratório, pode ser usado por um psicopata…   

No seu livro, os jornalistas ficam mal na fotografia. Quer comentar? 

A psicologia mostra como seguir notícias pode conduzir ao síndroma do mundo mau: fica-se com a ideia de não poder confiar nas pessoas. O jornalismo construtivo é outra coisa: permite distanciamento, centra-se nas forças estruturais que nos afetam e apresenta soluções. Há que pensar bem sobre o tipo de informação que pomos na boca, da mesma forma que escolhemos o que vamos comer.

O que está ao nosso alcance para alimentar a esperança?

Distanciar-se do ruído noticioso e pensar como ter uma vida com significado e ficar do lado certo da História. Nunca seremos anjos, certo? Volto a Greta Thunberg. Primeiro, convenceu os pais a comprar um veículo elétrico e painéis solares. Depois levou a mãe, cantora de ópera célebre, a não fazer viagens aéreas. A seguir, deu mais um passo radical e tornou-se vegan. Só então avançou para o protesto diante do Parlamento sueco. Se conseguimos mudar-nos, mudar o mundo é canja.

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