“Há uma noção de bem comum importante e que veio para ficar. Não posso olhar para o meu negócio de forma isolada”

Foto: Marcos Borga

Há três anos, Clara Raposo foi a primeira mulher eleita presidente do ISEG. Metade desse tempo foi vivida em pandemia. Semanas depois de o Instituto Superior de Economia e Gestão fazer 110 anos, a sua dean fala sobre os desafios de adaptação que a Covid-19 trouxe às universidades, o que espera da recuperação da economia nacional e também do trabalho que ainda é preciso fazer para garantir uma Economia com maior diversidade de vozes. “Em muitas reuniões onde vou, sou a única mulher ou há poucas mulheres presentes”, sublinha à VISÃO.

Todas as instituições tiveram de se adaptar à pandemia. Como correu no ISEG?
Foi uma loucura no início. A Universidade de Lisboa, e o ISEG, até foram dos primeiros a fechar. São datas que eu não esqueço. A 10 de março de 2020 foi decidido: “Vamos deixar de funcionar assim.” Tínhamos zero experiência de funcionamento online e em três dias aprendemos e colocámos tudo a funcionar online. Apesar das preocupações com questões de saúde e as dificuldades de alguns alunos em ter os meios necessários para acompanhar as aulas, os primeiros seis meses foram um período de grande transformação. Tive oportunidade de experimentar coisas que, de outra maneira, nunca teria conseguido naquela escala.

E que acharia impossível.
Impossível. As pessoas na universidade têm de ser bastante persuadidas para fazermos as coisas com qualidade. Foi um período de muita mobilização e comunicação. De alteração radical na nossa forma de comunicar. Foi preciso muita liderança e ir buscar skills que eu não sabia que tinha. Mas acabou por ser muito bem-sucedido. Tínhamos os meios tecnológicos e nem sabíamos. A adaptação foi difícil, mas rápida. Houve muita solidariedade, o ISEG também é uma escola de causas.

E do lado dos alunos? Conseguiram retirar o mesmo das aulas à distância?
Não conseguem tirar o mesmo, mas tiram outras coisas. Perdeu-se obviamente a socialização, e isso, para alunos que entram pela primeira vez na universidade, é necessariamente diferente e condiciona muito. A proximidade física, olhar para o colega e chamar o professor é mais fácil em sala de aula do que à distância, mas consegue-se fazer. E, se calhar, até temos pessoas que, por falta de alternativas, estudaram mais e tiveram mais sucesso. Isto foi no primeiro confinamento. No primeiro semestre deste ano letivo já funcionámos em regime presencial, semana sim, semana não. Podia vir de máscara…

E aí como correu?
Também gostei. Dei aulas seis semanas este ano, para passar pela mesma experiência, e tenho a dizer que é dificílimo. É extremamente cansativo e o resultado não é tão bom como quando fazemos totalmente online ou presencialmente. E também vamos aperfeiçoando: ter boas formas de comunicação digital, prepararmo-nos melhor para quando pudermos -escolher… Mas chega uma altura em que estamos saturados.

Quando regressarmos à normalidade, o que é que não vai voltar atrás?
Em cursos com mais estudantes internacionais, a possibilidade de assistir à distância por opção se calhar vai manter-se. Há pessoas que têm de se deslocar e que assumem que preferem assistir à distância. Para aulas de grande injeção, muito expositivas, em que estamos a repetir sempre a mesma coisa, há um conjunto de elementos que podem ser preparados com qualidade para que as aulas sejam mais um espaço de debate e de esclarecimento de dúvidas. Isso já está a acontecer e estamos preparados psicologicamente para mudar o ensino a esse nível. Mas a aula em que se ouve também é importante. Há uma tendência de querer estimular, de achar que os estudantes, por serem nativos digitais, só têm dez segundos de atenção e tem de ser tudo muito rápido e muito participado. Mas a vida não é só entretenimento e aprender a ouvir é uma skill importante.

Como economista, vê com curiosidade o momento que estamos a viver, seja a crise seja a resposta a ela?
Tenho imensa curiosidade sobre como vamos desembrulhar-nos. Vejo as dificuldades, mas também os lados positivos. Houve uma resposta. Na Europa, quando foi necessário, foram estabelecidas prioridades. É preciso paciência. Veremos de onde vem a imaginação para criar coisas novas, transformar os negócios… Percebo a relevância de todo este dinheiro público para aguentar a economia, vamos ver o que vai acontecer com ele e com a iniciativa privada.

Em todas as crises da nossa História, tivemos sempre o problema da fixação da riqueza e continuamos assim. É muito importante que as empresas não tenham de sair de Portugal para crescer

O que a surpreendeu mais?
Surpreendeu-me pela positiva o facto de, apesar de paragens profundas, não terem faltado bens essenciais. As cadeias de distribuição não são perfeitas, mas eles não faltaram. Conseguiram garantir-se serviços mínimos. A forma como contabilizamos o desempenho das nossas economias é muito à base das transações, da necessidade de transacionar para demonstrar valor, mas não podemos esquecer–nos de que há uma base de capital. Ao contrário de uma guerra, não houve destruição [desse capital]. A capacidade produtiva pode não estar a ser utilizada, mas percebemos que, se quiséssemos, tínhamos os recursos para nos mantermos à tona. Não para sempre, até porque ninguém quer viver com o Estado a determinar tudo o que pode fazer. Mas há uma noção de bem comum que acho importante e que veio para ficar. Não posso olhar para o meu negócio de forma isolada, tenho de pensar no seu contributo para a globalidade da economia.

Durante algum tempo, a economia achava que já sabia tudo.
Eram só certezas.

Fomos caminhando para uma desvalorização da ação coletiva que a pandemia interrompeu?
Voltou o tema da necessidade de coordenação das economias. As grandes potências mundiais certamente se aperceberam de que o sistema capitalista atual passou a ser dominado por uma nova grande potência com uma forma de coordenação centralizada muito diferente da Europa e dos EUA. Obviamente não estou a dizer que é preciso um regime não democrático, mas é importante que os países democráticos estejam atentos a estes movimentos e que tenham uma forma de coordenação que garanta a sua competitividade.

Vamos entrar agora na fase de recuperação, com uma grande injeção de fundos comunitários. Daqui a dez anos, o que seria imprescindível que Portugal não deixasse de fazer?
Temos de ter cá as pessoas certas e capital. O acesso a fontes de financiamento é importante, mas temos de fixar quem quer investir e viver aqui. A educação é muito importante. Pessoas com boas ideias, formação técnica, mas também criatividade, sejam portuguesas ou de outras nacionalidades. Em todas as crises da nossa História, tivemos sempre o problema da fixação da riqueza e continuamos assim. É muito importante que as empresas não tenham de sair de Portugal para crescer. Temos de fixar centros de conhecimento. O turismo está em crise, mas com um País mais qualificado, as pessoas também podem vir a Portugal para ter experiências interessantes. Não sou pessimista, temos a possibilidade de o fazer.

As nossas expectativas em relação ao Plano de Recuperação e Resiliência estão demasiado elevadas?
Se o plano é desenhado para compensar a paragem de atividade, que sirva também para relançar a economia e fazer investimentos e reformas que estavam paradas. Há uma grande percentagem do PRR que será alocada a investimento público, o que não significa que os privados não sejam envolvidos para o concretizar. Mas, além do PRR, há mais dinheiro do quadro financeiro plurianual, mas virado para a iniciativa privada.

Além de ser a primeira mulher presidente do ISEG, foi a primeira a candidatar-se ao lugar.
Fui. Em 110 anos de História.

Identifica um problema de representatividade de género na área económica?
Identifico. É o que os números nos dizem. Se me perguntar se, quando fui estudar, pensava muito no problema, não, não pensava. Nunca achei que seria prejudicada ou favorecida por ser rapariga ou rapaz. Mas temos o mesmo número de mulheres e homens em vários setores e, no topo das carreiras, há muito menos mulheres na economia e na gestão. Há várias razões, mas, em certa medida, é porque se cria o hábito de ser de uma maneira e não de outra. Em muitas reuniões onde vou, sou a única mulher ou há poucas mulheres presentes. Até na academia. Se calhar, nas licenciaturas e nos mestrados não temos menos raparigas, mas se formos para áreas mais específicas, já existem. Nas áreas mais quantitativas, há tipicamente mais rapazes. Nos doutoramentos na área de Economia e Gestão também há mais homens do que mulheres, com mais homens no topo da carreira.

Tenho apelado aos empregadores para ouvirem mais quando entrevistam. As organizações
têm de evoluir
com as pessoas

E o que é que o ISEG e outras faculdades podem fazer, por exemplo, no recrutamento de alunos?
É mais na forma como divulgamos os programas e como tentamos atrair mais uns ou outros do que propriamente com quotas. É o que tentamos fazer. Só depois de me ter tornado presidente do ISEG é que me apercebi da diferença no topo. Nos concursos que estamos a abrir – para professor associado e catedrático – não vamos discriminar, mas tenho esperança de que as mulheres se candidatem e não fiquem sossegadinhas e satisfeitas por serem professoras auxiliares a vida inteira.

Há um problema também de representação mediática? A imagem que temos do economista que vai à televisão é a de um homem mais velho.
Identificamos essas figuras, como o economista, o opinion maker e o grande gestor [com homens]. As mulheres, se calhar, também são educadas para estarem mais sossegadas, participam menos do que os rapazes nas aulas, têm mais medo de errar e são mais bem-comportadas. Isso prejudica-as na comunicação. Mas tem de se criar o hábito e tem de haver equilíbrio.

E em relação a outro tipo de diversidade, seja étnica ou de orientação sexual, é uma preocupação para as faculdades?
Sim, é uma preocupação. As pessoas devem poder ser quem são e serem profissionais. Devemos ser capazes de encaixar qualquer pessoa. Temos de ensinar a teoria, mas também ensinar as pessoas a serem tolerantes. O nosso lema é “open mind”, porque sentimos que é uma escola muito plural. E nem toda a gente no ISEG vai concordar com aquilo que eu estou a dizer, porque há uns ultraconservadores em determinadas áreas. Mas temos um espaço de muita liberdade.

E vê vantagens nessa diversidade para o próprio ensino?
Vejo. A partir do momento em que partilha com franqueza, temos mais coisas para escolher daqui para a frente. Se limitarmos o que dizemos sobre nós próprios e sobre o mundo, ficamos com um leque mais limitado de assuntos para debater. Há imensa pressão para termos as pessoas work ready. E é importante prepará-las para o mercado de trabalho, mas não faz sentido esperar que sejam todas iguais, tendo proveniências e gostos diferentes. Tenho apelado aos empregadores para ouvirem mais quando entrevistam. As organizações têm de evoluir com as pessoas.

E isso tem mudado?
Há mais recetividade à diferença. Temos de estar preparados para todas as pessoas. O que só enriquece a realidade.

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