“Marcelo Rebelo de Sousa, em nome da República Portuguesa, deveria pedir desculpa e reconhecer o papel de Portugal na escravatura”

Com 65 anos de vida e 45 de jornalismo, Laurentino Gomes é uma das personalidades mais influentes do Brasil e um autor que vende milhões de livros, desde que se aventurou na trilogia 1808, 1822 e 1889, três momentos-chave da história do seu país. Agora, repete a fórmula com Escravidão – o primeiro volume já está no mercado português (Porto Editora) –, obra que se lê como uma reportagem politicamente incorreta sobre o negócio que foi dos mais rentáveis do mundo.

Antes de falarmos sobre esta trilogia e o tema que aborda, comecemos pelo autor. Como é que um jornalista veterano e prestigiado se torna um repórter da História?
É uma questão que me colocam muitas vezes; querem saber se mudei de profissão. Não, não mudei, continuo a ser um jornalista, apenas mudei de formato. Dantes, trabalhava em jornais e revistas; agora, faço livros-reportagem. Primeiro, leio muito, vou às fontes de referência, informo-me sobre o que os grandes historiadores escreveram. Depois, é pôr o pé na estrada e fazer reportagem. Visito os locais onde as coisas aconteceram. Ir a Angola e observar os lugares por onde andou a rainha Jinga – que era o sinónimo da barbárie no século XVII e, hoje, é uma heroína da identidade nacional angolana. Ir ao antigo quilombo de Palmares [no estado brasileiro de Alagoas] e observar, a 20 de novembro, aquela multidão de senhorinhas de candomblé que, anualmente, sobem a Serra da Barriga para prestar homenagem a Zumbi e aos heróis negros…

Essas reportagens ainda lhe permitem recolher informação com interesse histórico?
A informação está no que se vê e também no que não está visível. Durante as minhas andanças pelo Brasil, jamais vi um grande museu nacional da história e da cultura negra – ou sobre a escravidão. O Brasil tem o Museu da Língua Portuguesa, o Museu do Amanhã, tem museus sobre quase tudo. No entanto, embora o país tenha sido o maior território esclavagista da América ao longo de três séculos e meio, não tem um museu da escravidão. Para mim, enquanto repórter, é uma informação relevante. Sou levado a crer que existe um projeto nacional de esquecimento, de apagamento da memória, de tirar protagonismo aos africanos e às pessoas escravizadas.

Foi essa a sua principal motivação quando iniciou esta trilogia?
Sim, a escravatura é talvez o assunto mais importante da História do Brasil, o elemento mais definidor da construção da história e da identidade nacionais. Tudo o que fomos no passado, tudo o que somos no presente e tudo o que gostaríamos de ser no futuro tem que ver com as nossas raízes africanas e também com a forma como nos relacionamos hoje com elas. Só o Brasil importou cerca de cinco milhões de escravos africanos. Havia uma ideologia que deu suporte à escravidão, para justificar que os africanos eram inferiores, bárbaros, praticantes de religiões demoníacas – e que, portanto, seriam candidatos naturais ao cativeiro. Existe um famoso sermão do padre António Vieira em que ele dizia que os negros deveriam agradecer à Nossa Senhora do Rosário pela oportunidade de estarem no Brasil. Era como que uma forma de redimi-los da selvajaria e incorporá-los na – suposta – civilização avançada, cristã e portuguesa, nos trópicos.

Curiosamente, o padre António Vieira, tal como o sacerdote castelhano Bartolomeu de las Casas, faz uma separação clara entre negros e índios, defendendo estes últimos, que têm direito a ser respeitados por terem alma…
Essa é a base teórica da escravidão africana; aparece até nas bulas papais que davam ao rei de Portugal o direito de ocupar territórios e escravizar as pessoas em nome de um projeto de evangelização. Esse alicerce teórico da escravidão permanece hoje travestido na forma de uma ideologia racista. No Brasil, uma maioria silenciosa de brancos descendentes de colonizadores europeus ainda acha que os negros são inferiores. Só isso explica o Brasil desigual, segregado, que temos hoje.

Isso poderá ter que ver com as circunstâncias em que se decretou o fim da escravatura, em 1888, e até com o projeto então existente para o embranquecimento da nação brasileira?
Esse foi um grande projeto do Brasil no século XIX: embranquecer a população. A ideia foi discutida no Parlamento, por se entender que o sangue negro corrompera a índole brasileira, como que uma mancha de que o Brasil precisava de livrar-se. Por isso, desenvolveram-se projetos para devolver parte dos negros a África, logo após a revolta dos Malês, na Baía, em 1835, em que alguns dos rebeldes foram deportados. Mas havia também a intenção de criar uma colónia, em África. É assim que, depois, surge a ideia de importar imigrantes polacos, alemães e italianos… Eu próprio sou resultado desse projeto. Os meus bisavós italianos chegaram ao Brasil para substituir a mão de obra negra e escravizada, no interior de São Paulo, depois da Lei Áurea [abolição da escravatura, em 1888].

Tudo porque as elites não queriam que o Brasil fosse um novo Haiti.
Exatamente. A independência do Haiti, em 1804, pregou um grande susto, pavor mesmo, na elite branca. Eles receavam que a população negra, ao ser maioritária, trucidasse os brancos. E que houvesse um banho de sangue, como aconteceu no Haiti. Quando o D. João e a corte chegaram ao Brasil, fala-se no haitiismo: um Brasil com muitos negros seria sempre perigoso, instável e, principalmente, nunca seria o Brasil europeu e imperial com que sonhava a elite. Convém dizer que esse projeto deu certo no Sul, no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, a população negra é minoritária porque houve um embranquecimento com a chegada de imigrantes europeus. Na Baía, não, Salvador continua a ser a maior metrópole africana, negra, fora de África. Os indicadores sociais refletem as diferenças. O Brasil embranquiçado, no Sul, é mais desenvolvido. O Brasil negro e indígena é pobre.

Considera que Portugal e Brasil lidam de forma diferente com a memória histórica?
Portugal interessa-se pela escravidão, mas de um ponto de vista histórico. No Brasil, é um assunto da agenda política do momento. Em 2018, Jair Bolsonaro conseguiu ser eleito usando uma linguagem racista, deturpando factos sobre a escravidão, apelando à maioria silenciosa que não admite o seu racismo.

Mas as guerras culturais estão a acontecer dos dois lados do Atlântico. Em Portugal e na Europa, também se vandalizam estátuas, da mesma forma que em São Paulo se exige a destruição da memória dos bandeirantes. Há poucos dias, houve um ataque que deu brado…

Sim, contra a estátua de Borba Gato, em São Paulo. Os ataques a símbolos do passado mostram que estes temas têm de ser debatidos. O ideal é refletir, em vez de vandalizar.

Nos EUA, o ambiente é igualmente tribal, embora haja projetos curiosos, com o Congresso a discutir que símbolos da escravatura devem ser retirados dos espaços públicos ou quem foram os escravos que participaram na construção da Casa Branca. Imagina algo do género em Portugal e no Brasil?
Eu diria que estamos atrasados devido à nossa história política recente. Os EUA são uma república que, apesar de todos os seus defeitos, é uma democracia há mais de 200 anos. Portugal e Brasil passaram por regimes autoritários que inibiram essa discussão, que tentaram criar uma mitologia sobre a escravidão – branda, benévola, que deu origem a uma democracia racial. Esse é um mito brasileiro muito forte. Podemos estar ainda um passo atrás dos EUA, mas diria que o nosso futuro passa por discutir a nossa história, as nossas raízes. O que somos e o que não somos.

Estas discussões vão, por vezes, dar à chamada “dívida social” da escravatura. Em França, por exemplo, o economista Thomas Piketty defende que Paris deveria pagar 30 mil milhões euros ao Haiti…
É uma discussão complicada e ainda mais difícil de resolver politicamente. Digamos que Portugal decide indemnizar África. Vai pagar a quem? Uma boa parte da elite africana participou no tráfico negreiro. É difícil discernir quem foi vítima e quem foi cúmplice. É por essa razão que costumo dizer que não se trata de pagar uma dívida financeiramente, mas de fazer um investimento no futuro.

Como?
No Brasil, é dar oportunidades à maioria da população para que tenha acesso a habitação, a educação. Enquanto isso não acontecer, o Brasil vai continuar a ser um país pobre, atrasado, subdesenvolvido. Temos, em cima, uma pequena elite que beneficia de tudo e depois temos, em baixo, um mar de pobreza e de exclusão. Mais do que pagar reparações pelo passado, creio que o mais importante é resolver os desafios do futuro. Devo reconhecer que a dívida social dificulta algumas ações que poderiam ser simples, como pedir desculpas em relação ao passado. Admiro muito o Presidente português, mas acho que Marcelo Rebelo de Sousa, em nome da República Portuguesa, deveria pedir desculpa e reconhecer que Portugal teve um papel decisivo na escravatura.

Isso não é feito porque todo o mundo acha que o passo seguinte tem de ser indemnizar. Eu acho que não. Uma coisa não tem necessariamente que ver com a outra. O pedido de perdão é o primeiro passo para a reconciliação. O Papa João Paulo II fez isso, em 1992, em Angola, o Presidente Lula também, quando foi a Gorée [Senegal], em 2005. E não tiveram, depois, de distribuir dinheiro.

Uma maioria silenciosa de brancos ainda acha que os negros são inferiores. Só isso explica o Brasil desigual, segregado, que temos hoje

Durante os seis anos de investigação para este projeto, cruzou-se com alguma personagem que o tivesse surpreendido?
Sim, o João de Oliveira, um escravo que se tornou traficante de escravos, para se livrar da escravidão. Ele é um exemplo de como o sistema era complexo e toda a gente tinha a pretensão de possuir escravos, incluindo os negros. Nasceu na atual Nigéria, de etnia ioruba, tinha escarificações no rosto, foi vendido para a Bahia. Aí, conquistou a confiança dos donos, um casal de comerciantes, a tal ponto que foi despachado de volta para África, para comprar escravos. Tornou-se, depois, um grande traficante no golfo do Benim, no século XVIII.

Um caso que ilustra as contradições do tráfico.
E também o quanto é difícil projetar no passado os valores e convicções do presente. Há um outro caso: a Chica da Silva. Nasceu naquela que é hoje a cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Na adolescência, foi comprada, para fins de exploração sexual, por um português negociante de diamantes, João Fernandes de Oliveira. Tiveram 13 filhos, e ela viria a converter-se na grande dama da sociedade mineira e dona de um plantel de escravos.

É fácil, com os valores de hoje, ter um discurso maniqueísta…
No Brasil, existem duas visões ultrapassadas a respeito da escravidão. Uma é a do [sociólogo] Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala [livro publicado em 1933], que retrata o negro passivo, bem adaptado, integrado no sistema esclavagista. Outra nasceu no século XX devido às lutas sociais, que é o escravo em permanente estado de rebelião, pegando em armas e formando quilombos, como Zumbi. Hoje, sabemos que a principal resistência à escravatura não era a fuga nem a rebelião, antes uma subtil negociação que os escravos faziam com os seus senhores em busca de espaços mínimos de sobrevivência.

Nas suas entrevistas, costuma dizer que é um otimista por natureza, mas também já disse que o Brasil precisa de várias gerações para se tornar um país desenvolvido. Mudou de opinião?
O momento atual é muito ruim, hostil a qualquer racionalidade. Temos um governo reacionário, autoritário, perigoso. Nas últimas décadas, temos vindo a mudar graças à democracia. Nunca tivemos tanto tempo de democracia sem ruturas, quase 40 anos. O que reforça em mim a convicção de que o Brasil pode melhorar, mas vai demorar duas, três gerações até ser um país justo, decente, desenvolvido.

Até que ponto as eleições presidenciais do próximo ano podem ser um avanço?
Eu espero que haja um avanço. Jair Bolsonaro revelou-se um homem tão incompetente, tão intolerante que, acredito, uma boa parte dos seus eleitores de 2018 vai escolher uma via de renovação.

Depois da Escravidão, o que se segue?
Pergunta difícil. Ainda não decidi sobre o que pretendo escrever após esta trilogia. Gostaria muito de fazer uma biografia do padre jesuíta André João Antonil, autor de Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, obra tão fundamental e reveladora sobre o Brasil no início do século XVIII que a coroa portuguesa e o Vaticano, em conjunto, decidiram confiscar todos os exemplares em circulação e manter o livro sob censura até 1837. Sobrou uma cópia preservada na Biblioteca Nacional de Paris.

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