“É porque os judeus não podem voltar a ser atacados por serem judeus, que Israel não pode transformar-se naquilo em que se transformou. Senão, isso será o fracasso total da Humanidade”

Há vozes, grafítis, História, depoimentos e muitas fotografias tiradas pela própria Alexandra Lucas Coelho em Líbano, Labirinto (Caminho, 496 págs.), livro-palimpsesto agora editado que mostra, mais uma vez, a voz singularíssima da sua autora. Com 14 livros publicados, a escritora, então dedicada a dois novos romances, o ambicioso Levante e Anjo Bicho, foi surpreendida por um “velho camarada, o clic da viagem”, que a fez embarcar num “negativo da revolução”, um Ground Zero: o da Beirute arrasada pela explosão no porto da cidade. Conversa com vista para as arcadas otomanas destruídas e para o Médio Oriente, um amor de quase 20 anos.

A 4 de agosto de 2020, dá-se a explosão no porto de Beirute. Dias depois, está no terreno. Que imperativo a fez partir?
É o impulso de sempre: quero ver com os meus olhos, sentir com o meu corpo, estar lá. Quando acontece a explosão, foi um choque. Escrevi a algumas pessoas, ouvi as respostas, e aquilo ficou uns dias a pousar. Mas houve uma manhã em que acordei e pensei: “Eu tenho mesmo de ir.” Tinha estado no Líbano em 2019; quando percebi a revolução que estava a acontecer, voei para lá num impulso. Tinha já na cabeça um romance chamado Levante, que se vai passar em quatro cidades do Médio Oriente (Beirute, Damasco, Jerusalém e Alexandria), e o que estava a acontecer em Beirute era-me descrito como o maior levante, que questionava todo o sistema político. Tudo estava fresco em mim, quando, em agosto de 2020, se dá a explosão. Havia bastante tempo que eu não sentia vontade de fazer reportagem a quente, e esse desejo voltou na pandemia. Tinha notas, fotografias, havia laços com 2006, a minha vida no Médio Oriente vai fazer 20 anos… Comecei com uma flanagem por uma rua, percebi que ia contar a revolução e a explosão, e acabar com um epílogo em que volto às relações com todo o Médio Oriente. É uma leitura muito pessoal, em que vão aparecendo os artistas, os poetas, os fantasmas, os mortos, a violência ainda escondida, as sementes do que vai acontecer.

Escreve: “Não, Israel não é um país democrático, ainda que criticável (defendo boicotá-lo como se fez com a África do Sul). É impossível manter a neutralidade ensinada nas escolas de jornalismo perante esta situação.” Sente-se confortável com este gesto político?
É claro que é político, mas… Eu nunca usei essa palavra, até várias pessoas a usarem por mim em relação ao que escrevo. De facto, é uma leitura opinativa. Mas eu não vejo Líbano, Labirinto como jornalismo: é um trabalho de não ficção, em que uso vários géneros ou recursos, entre eles a reportagem, a crónica, a fotografia que é testemunhal. Mas estou absolutamente confortável com tudo isto. Há dez ou quinze anos que me perguntam sobre a passagem do jornalismo para a literatura, e eu respondo: a fronteira entre o jornalismo e a literatura não tem que ver com o real. Porque ambos têm que ver com o real, no sentido em que têm que ver com a vida. Real é tudo: o que inventamos, o que criamos, aquilo em que incrustamos vida. O que distingue jornalismo e literatura? A liberdade. No jornalismo, não somos, nem devemos ser, inteiramente livres. Há protocolos que são importantes para a democracia, que protegem as fontes; temos de responder a leitores e editores. A criação não responde perante nada nem ninguém. Eu sinto-me completamente livre: fiz exatamente o que me apeteceu, o livro seguiu para onde senti que tinha de ir… Mas esta dimensão de leitura e opinião não vem de eu ter estado uns dias no Líbano; vem de anos passados no Médio Oriente, de tudo o que li e vivi.

Sente que tem maior legitimidade?
Sinto é que é uma necessidade. Acredito que há poucos jornalistas em Portugal que tenham a relação que eu tenho com Israel e a Palestina. Vivi em Jerusalém, vi a transformação de Gaza e os checkpoints, a evolução daqueles milhares e depois milhões de pessoas a morrerem de forma cada vez mais trágica. Isto está para além da legitimidade: é a minha vida, no sentido em que é biografia, em que tenho lá amigos, em que isto está no meu corpo. E estou aqui a olhar para centenas de livros, para imagens que tenho na parede, filmes, músicas, poetas, criadores… Em 30 anos de jornalismo, este é o lugar mais vital para mim. É uma paixão, um amor profundo. E ainda sobre a passagem do jornalismo para a literatura, a verdade é que foi ao contrário: da literatura para o jornalismo e, depois, o jornalismo devolve-me à literatura.

Porquê o Médio Oriente?
Em abril de 2002, propus ao jornal em que trabalhava ir cobrir a inauguração da nova Biblioteca de Alexandria. Tinha uma obsessão por Alexandria desde a adolescência. Quando foi anunciada a nova biblioteca, pensei: “Tenho de ir ver isto.” Apanhei um avião para o Cairo e, aí chegada, a editora [do Público], Margarida Santos Lopes, ligou-me a dizer que Israel estava a fazer uma intervenção nos territórios, estávamos em plena Segunda Intifada. E pergunta-me: “Em vez de ires para Alexandria, podes ir para lá?” Eu não sabia nada sobre Israel e a Palestina, estava no aeroporto, à noite, com uma malinha cheia de livros dedicados a Alexandria e a poesia; não estava preparada para ir cobrir uma guerra. Mas apanhei o avião e, ao amanhecer, entrei em Jerusalém. Foi o início de uma longa história de amor que dura até hoje.

Descreve, em Líbano, Labirinto, um pequeno-almoço em Baalbek com pessoas em condições frágeis. A partilha do pão é fundamental?
Fundamental. Comida é amor, é tempo, é partilha. Estamos ali com as nossas mãos, com a nossa boca a provar, e pelo prazer de estarmos juntos num momento de alegria. Essa é uma marca muito forte do Médio Oriente: a hospitalidade, que é mais do que uma tradição, é um dever de honra. A comida une, ata todos estes laços, e é memória. Eu estou a tomar esse pequeno-almoço no Vale de Baalbek, que há dois mil anos era já o celeiro dos romanos. Naquele pão, na coreografia dos rapazes a trabalhar nos dois fornos, na tradição passada de pais para filhos, nós percebemos a cauda imensa da história que vem até nós. Baalbek traz tudo isso, e também a ideia de que os lugares são um palimpsesto de quem ali esteve, das vozes, da energia… Se estivermos despertos, se transportamos connosco esses poemas, essas histórias, eles vão ajudar-nos a olhar para o presente.

Fala nas “metáforas que o acaso apronta”. Qual é a importância do acaso na sua escrita?
Enorme. E é por isso que falo muitas vezes nos deuses do acaso. A minha vida brasileira abriu-me para uma dimensão do mistério e do mágico que não existia antes nos meus livros. Como já escrevi, no Brasil não há ateus. Hoje, não é que me tenha convertido a alguma religião, mas tenho mais dificuldade em definir-me como ateia. É a dimensão do divino que existe em cada coisa, em cada pessoa, nos laços que estabelecemos com as árvores, o céu, o ar que respiramos, o chão que pisamos, com a luz, com a escuridão, com a experiência do corpo. Essa dimensão do divino que não é a do Deus dos monoteísmos, e é também a da possibilidade da beleza no meio da violência, da morte.

Menciona a beleza do pôr do sol por entre as ruínas de Beirute…
O sol está a dizer-nos para não desistirmos. E a escrita é escrever contra a morte. Está um raio de sol nesta fachada otomana arruinada por uma explosão brutal, resultado da incúria e corrupção humanas, neste poente com milhares de anos, no amor dos afegãos de Cabul pelas rosas, na casa em Gaza onde bebemos café com cardamomo no chão, enquanto as bombas caem. Todos os meus livros são uma tentativa de escrever contra as fronteiras: de género, de géneros literários, canónicas…

Adorno fala na impossibilidade da poesia depois de Auschwitz. Há literatura depois das prisões e torturas de Khiam, no Líbano?
Na fotografia, fala-se no ponto de intensidade. Para mim, Khiam é o ponto de intensidade do meu livro. Quando descobri os livros de Souha Bechara, que esteve prisioneira nesse campo de concentração que Israel teve no Sul do Líbano ocupado durante 22 anos, foi como se… Aquele era o meu caminho para outro lugar de onde eu ia continuar. Khiam é um espelho voltado para nós. Porque é que não se fala disso? Até quando é que Auschwitz – que devia ser o irrepetível, o horror absoluto que não pode ser diminuído nem transformado num pechisbeque – vai ser usado para manter as pessoas reféns? Para as impedir de falar contra uma outra violência que está a acontecer há décadas? Como é possível que o Holocausto esteja a ser usado? Isto não serve os judeus. O antissemitismo precisa de ser combatido, como todas as formas de racismo, e é por isso que a herança do Holocausto não pode ser desbaratada. E é porque os judeus não podem voltar a ser atacados por serem judeus, que Israel não pode transformar-se naquilo em que se transformou. Senão, isso será o fracasso total da Humanidade.

O que distingue jornalismo e literatura? A liberdade. No jornalismo, não somos, nem devemos ser, inteiramente livres. Há protocolos que são importantes para a democracia

Porque é que ainda não surgiu o tal boicote internacional que defende?
Há estes dois grandes polos que, por razões distintas, estão reféns e se calam: por um lado, os EUA, que, por muitas razões históricas, têm uma comunidade judaica fortíssima. Talvez o mais importante seja dizer isto: até agora, o Presidente Biden, que tem dado alguns passos importantíssimos para cortar com as ações da administração anterior, não desfez nenhuma das ações de Trump referentes a Israel e à Palestina – nomeadamente a transferência da embaixada para Jerusalém. E eu não tenho a mínima esperança de que Biden o faça. Talvez numa altura em que se possa ter uma Alexandria Ocasio-Cortez na Casa Branca… Na nova geração dos democratas americanos, já vejo alguns avanços. Em relação à Europa, há outra questão: a Alemanha, que tem o poder que tem na União Europeia, nunca vai dizer nada, porque tem o Holocausto às costas.

Ouviu libaneses declararem não contar com a Europa para nada…
A Europa podia ter um papel pioneiro para cortar esse jogo do gato e do rato, mas continua a repetir os chavões ocos da solução dos dois Estados. Basta olhar para o que é a Cisjordânia e Gaza para ver que não vai ser possível criar um Estado ali, com as centenas de milhares de colonos judeus, com as autoestradas e a água toda roubada… Aquilo são Amadoras inteiras ali incrustadas, não são umas casinhas! E a violência de Israel é muito profissional e organizada, estão a fazer tudo para que seja impossível existir ali um outro Estado. Há dois milhões de pessoas presas em Gaza, gerações a enlouquecerem em quarenta quilómetros, numa situação que não tem paralelo em nenhum ponto do planeta. Isto não é um conflito: é um Estado que tem dois povos na mão, como um carcereiro. E o que faz não serve a humanidade, nem dos israelitas nem dos palestinianos. É por isso que Israel é, hoje, um país doente. Aquilo é uma fuga para a frente, sem saída.

Escreveu nas redes sociais sobre a importância de haver condições e meios para fazer reportagem. Este é um caso exemplar?
Absolutamente. De facto, eu fui ao Líbano em 2019 e em 2020, porque quis ir. Mas recuso-me a contribuir para a ideia de que estas são as condições ideais e desejáveis para se fazer reportagem. Não. Fazer reportagem internacional é importante, custa dinheiro, exige meios. Portugal não vai ter uma literatura rica enquanto não existirem bolsas de jornalismo de investigação internacional, apoios, prémios, recursos, trabalho pago, meios e condições. No País, existem bolsas de criação literária, mas, por exemplo, não existem apoios de pesquisa para ficção e não ficção. Sabemos que o jornalismo está em dificuldades. Então, que as grandes fundações, as instituições com orçamento pensem nisso…

Com o hibridismo dos seus livros, sente-se um caso isolado no meio literário?
Eu sinto-me solta no mundo. Estar vivo é uma luta de libertação. E eu quero poder fazer os livros que tenho na cabeça. O livro é o meu território natural, mas uso recursos da música, do cinema, do teatro, da imagem… Estou-me nas tintas para questões que não são a absoluta necessidade da criação. Há uma tentação, em Portugal, de tentar enclausurar, limitar, engavetar. A mim, interessa-me o contrário. Escrever é sempre um processo de amplitude, de ser mais. Há uma frase do Caetano Veloso: “Gente é para brilhar.” Estarmos vivos e escrevermos é isso: é para brilhar, sermos mais bonitos, fortes, audazes.

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