“A biologia não é determinista, é muito flexível e, portanto, não temos de ter medo dela”

Passaram mais de 160 anos desde que Darwin publicou a teoria da evolução. Mudam-se os tempos, permanecem as vontades. Aparentemente, continuamos com uma enorme dificuldade em reconhecer que somos animais e evitamos falar demasiado sobre certos instintos que, tantas vezes, nos levam a ser demasiado competitivos, territoriais e injustos uns com os outros.

Quem o diz é Melanie Challenger, no seu último livro Ser Animal, Ser Humano (Temas e Debates, 304 págs., €17,70), agora lançado em português. À VISÃO, a investigadora de filosofia ambiental confessa-se uma otimista pessimista, crente no potencial enorme do ser humano, mas apreensiva quanto aos sonhos de grandeza que servem de motor para a busca da imortalidade. Ao invés de preconizar uma anulação das diferenças que separam os humanos dos restantes animais, Challenger defende uma existência na qual consigamos reconhecer a maravilha do dom da vida, tantas vezes presente em características que partilhamos com as outras espécies.

Por que razão temos dificuldade em reconhecer que somos animais?

Creio que talvez seja porque, apesar de existirem muitos animais com mentes extraordinárias, a nossa tem um sentido apuradíssimo de si mesma, dos nossos interesses, objetivos, ideias passadas e sonhos futuros, ao mesmo tempo que tenta perceber de que forma os outros percecionam essa mesma identidade. Se esta capacidade notável, por um lado, nos torna conscientes de quem somos e faz de nós animais sociais, que procuram sinais mentais nos outros enquanto acedem à sua própria mente, por outro, cria-nos um problema. O facto de possuirmos uma consciência, que questiona, processa e racionaliza constantemente o que se passa ao nosso redor, dá-nos a sensação de que temos algo de sagrado em nós que não é animal, transportado por um corpo que envelhece e morre. A partir do momento em que concebemos uma separação entre corpo e mente, imaginar que ambos podem ter um fim é algo muito ameaçador e tendemos a desenvolver sistemas de crenças que nos protegem disso. Dizemos: “Não há nada com que nos devamos preocupar, porque a parte importante de nós, que não é animal, vai sobreviver.”

De que forma essa parte de nós que consideramos importante poderia “fazer as pazes” com o facto de se saber animal?
Para algumas pessoas depende muito de onde se encontram espiritualmente. Ainda assim, independentemente das nossas crenças, penso que, para lidarmos melhor com a ideia da nossa morte ou da morte de alguém que amamos, deveríamos concentrar-nos no que há de melhor em sermos animais. No quão maravilhoso é poder tocar, cheirar, comer bem, exercitar o corpo, ligarmo-nos emocionalmente a outros, embalar um bebé, sentir o seu perfume, dar a mão a um amigo, rir com ele, olhar alguém nos olhos e sorrir. Todas estas coisas, se soubermos tomar conta do nosso corpo, ajudar-nos-ão a superar algumas questões que consideramos mais complicadas. Falar das coisas e dizê-las em voz alta poderia ajudar-nos, e muito, a ter paz, a aceitar que a vida orgânica é um fluxo constante que, mais do que combatido, deve ser aceite.

Que é precisamente o oposto daquilo que o progresso científico está a fazer…
Sim, a ciência e a medicina ocidentais têm tentado eliminar algumas das coisas de que menos gostamos no que toca a ser um animal e, cada vez mais, somos alérgicos à ideia de que temos de morrer. A edição genética, a robótica e a biologia sintética têm transformado o que significa ter o dom da vida e a oportunidade de vir ao mundo com toda a sua complexidade e caos. Há até quem tente projetar uma espécie de imortalidade mágica, utilizando tecnologias de edição genética ou tentando colocar em cérebros humanos chips que melhorem a nossa cognição e a liguem à Inteligência Artificial. E está tudo a acontecer com muito pouco envolvimento do público, muito pouca oportunidade para decidirmos se é mesmo isto que queremos.

Porque terá consequências globais importantes?
Acarretará problemas como o crescimento desmesurado da população mundial num planeta com recursos finitos. Além disso, a nossa capacidade de tomar boas decisões está totalmente separada da nossa capacidade de agir, muitos dos nossos problemas decorrem precisamente disso. Quanto mais pessoas existirem a criar conhecimento, mais rapidamente crescerá a nossa capacidade de influenciarmos o ambiente, as pessoas e tudo à nossa volta, sem que cresça, em termos proporcionais, a capacidade de sermos racionais e ponderados em relação ao que estamos a fazer. Basta pensarmos na crise da biodiversidade, na poluição ou na destruição da camada de ozono, consequências de uma revolução industrial que ocorreu há 250 anos, mas que começaram a preocupar-nos há relativamente pouco tempo. Será que vamos demorar de novo 250 anos a questionar-nos sobre quais as consequências inesperadas desta nova revolução genómica que já se começa a adivinhar?

Somos um animal arrogante, que olha primeiro para o seu umbigo e tem dificuldade em aprender com o passado. É isso?
Somos um animal social e, enquanto tal, temos algo muito positivo, que é a capacidade de adotar estratégias para nos defendermos de ameaças externas, como um predador ou um agente patogénico, mas também algo negativo, que são os altos níveis de competição inerentes a todos os grupos de animais sociais. A pandemia da Covid-19 mostrou-nos bem ambos os mecanismos. Começámos por usar máscaras e lavar as mãos, como forma de reduzir as oportunidades de o vírus passar de um corpo para o outro e, assim, proteger o grupo, e conseguimos produzir uma vacina em menos de um ano, graças à colaboração científica e política internacional. Mas, rapidamente, o pensamento humano mais individualista revelou-se. Houve pessoas de 30 e 40 anos a mentir sobre a idade para serem vacinadas mais cedo, apesar de saberem que a probabilidade de morrerem da infeção era reduzida, e os líderes dos países ricos, que deveriam ajudar os países mais pobres a protegerem-se, estão a vacinar massivamente os seus eleitores, aqueles que os mantêm no poder. Infelizmente, é este o tipo de animal que somos e continuamos a usar truques mentais para nos convencermos de que este tipo de ações são justificáveis.

Que tipo de bem posso eu trazer ao mundo? A realidade e as coisas boas acontecem a essa escala muito mais reduzida e íntima, na qual nós temos um enorme potencial para fazer o bem enquanto espécie

É o que fazem os discursos mais populistas relativamente, por exemplo, à questão dos refugiados?
Se nos dizem que os refugiados estão a entrar no nosso país para ficar com os nossos empregos e recursos, não vamos querer ter uma boa relação com essas pessoas. Podemos mesmo acabar por ser muito nacionalistas e tribais, desenvolvendo comportamentos extremamente injustos e desagradáveis. Vendo-as como uma ameaça, desumanizamos essas pessoas e passamos a ignorar todas as razões pelas quais elas estão a fugir para o nosso país. Isto é errado, mas é um instinto que faz parte da natureza humana, que depois pode ser aumentado pela sociedade, por regimes políticos, pelo modo como adquirimos conhecimento ou falamos sobre o mundo. Sob contornos diferentes, é o mesmo que acontece com o negócio de escravos. Os traficantes ignoram a humanidade dos escravos e tratam-nos como mercadoria, de forma a justificarem um tipo de relação em que, de modo injusto, servem os seus próprios interesses, usando pessoas para ganhar dinheiro. Os mesmos traficantes podem tratar, ainda assim, o cão da sua família com amor, pelo simples facto de estabelecerem com ele um tipo de relação completamente diferente. Estes exemplos recordam-nos de que é a manutenção de relações significativas que nos faz pensar de uma forma moralmente correta e prestar atenção a todos os sentimentos, palavras, necessidades e experiências de alguém ou de algo.

Os outros animais também têm tendência para se comportarem desta forma?
Há um estudo com chimpanzés no qual se procurou perceber de que forma interagiam grupos rivais. Ao encontrarem-se, alguns machos de um dos grupos interagiam com machos do outro. Quando esta interação dava origem a relações boas, os chimpanzés eram muito atenciosos uns com os outros, mas, assim que a interação se transformava em algo mais competitivo, os membros dos grupos “deschimpanzavam-se” entre si. Se olhássemos para outras espécies de animais sociais, cuja interação implica competição, provavelmente encontraríamos sempre o mesmo tipo de comportamento. Portanto, desde que a relação seja, do ponto de vista dos implicados, boa, estes apresentarão um nível muito mais alto de preocupação um pelo outro e serão menos agressivos.

Humanos incluídos?
Sim, mas a diferença nos humanos é que este tipo de dinâmicas não depende exclusivamente de hormonas. Construímos narrativas e contamos histórias para justificar coisas menos boas que possamos estar a fazer aos outros. É perfeitamente possível que o instinto não possa ser eliminado na totalidade, uma vez que somos animais sociais, mas poderíamos estar mais alerta para as várias formas que encontramos de ser injustos e intolerantes com aqueles por quem não nutrimos uma grande afeição.

Prestar mais atenção uns aos outros é importante para evoluir enquanto espécie?
É essencial. Se prestarmos mais atenção aos outros, conseguimos não só perceber a forma como se comportam, mas também identificar os fatores que nos tornam mais compassivos. Se falarmos sobre o que observamos, então podemos deixar de ter medo de que possa existir uma espécie de determinismo biológico. A biologia não é estritamente determinista, é muito flexível e, portanto, não temos de ter medo dela. Percebê-la faz-nos entender o modo como agimos e interagimos uns com os outros, permitindo-nos estimular comportamentos mais empáticos e moralmente orientados.

Em Ser Animal, Ser Humano, escreve que, hoje, o mundo está dividido entre pessimistas, que veem o colapso como inevitável, e otimistas, confiantes de que usaremos a razão para remodelar o mundo. Em qual destas posições se revê?
Sou uma otimista pessimista. Penso que temos de aceitar que a vida humana, tal como a Terra, o Sol ou o sistema solar, acabará por se extinguir um dia. É possível que acabemos por desenvolver algum tipo de tecnologia que nos permita migrar para outro sítio e não sou completamente contra isso. Até acho entusiasmante, se a sociedade de então for positiva, semeá-la noutro ponto do Universo. Mas é preciso perceber que estamos a falar de uma escala temporal de milhões de anos e, neste momento, o mais importante é consciencializarmo-nos de que não conseguimos controlar todos os aspetos da vida e recordarmo-nos daquilo que realmente importa. Que tipo de bem posso eu trazer ao mundo e que tipo de bem preciso eu de deixar no mundo depois de partir para que possa estar em paz com a vida que vivi? A realidade e as coisas boas acontecem a essa escala muito mais reduzida e íntima, na qual nós temos um enorme potencial para fazer o bem enquanto espécie. Para animal, o ser humano possui uma extraordinária flexibilidade comportamental, que permite, de forma consciente, estabelecer, não só relações entre humanos, mas também com outros animais e até com plantas. Temos um enorme potencial, resta-nos equacionar melhor a forma como nos relacionamos com o planeta, tentar saber mais sobre a vida, respeitá-la e, assim, tentar deixar o mundo um lugar melhor do que era quando aqui chegámos.

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