“Temos de ser extremamente cuidadosos nos discursos sobre o Holocausto. É muito fácil dizermos asneiras sobre o assunto, mesmo com a melhor das intenções”

Foto: João Lima

É um caso único na literatura portuguesa recente. Os três romances já publicados por João Pinto Coelho – Perguntem a Sarah Gross (2015), Os Loucos da Rua Mazur (2017, Prémio Leya) e Um Tempo a Fingir (2020) – centram-se num mesmo período e nos mesmos acontecimentos históricos: meados do século XX, com a Segunda Guerra Mundial, a perseguição aos judeus na Europa, o Holocausto. Formado em Arquitetura, há vários anos professor de Educação Visual, nunca imaginou tornar-se escritor. O desenho era a sua “linguagem” (aliás, Perguntem a Sarah Gross foi idealizado como uma novela gráfica). Aos 54 anos, é um estudioso do Holocausto e um autor reconhecido de romances que deixam nos leitores memórias vívidas das personagens e dos episódios narrados.

Nas redes sociais, a sua editora, a Leya, falava assim da sua obra: “Quem se der a esse exercício – ler o livro [Perguntem a Sarah Gross] sem conhecer a identidade do autor – dificilmente dirá tratar-se de um livro da autoria de um escritor português.” Sente isso como um elogio?
Sinto, porque já me habituei, desde o início, a ouvir coisas parecidas. Membros do júri do Prémio Leya, a que esse livro concorreu, disseram-me que parecia uma tradução. Isso está muito relacionado com a literatura anglo-saxónica que eu consumi como leitor e que acabou por influenciar o meu registo. Não é uma coisa deliberada. Mas somos muito os livros que lemos.

Não se sente, também, parte de uma família literária portuguesa? Não tem grandes influências da nossa literatura?
Sim, também sempre li muito leitores portugueses, e continuo a ler… As minhas escolhas de leitura são vastas. Tanto leio os russos como regresso ao Eça, de que gosto muito, como vou aos latino-americanos. Antes, ainda, de pensar em escrever, lia muito em inglês. Acho que isso estragou a minha escrita em português. Passava muitas expressões idiomáticas diretamente do inglês para o português, de forma inconsciente, por exemplo… Desde o meu primeiro livro, fiz um esforço para não ler mais em inglês, o que acontecia, sobretudo, num período em que vivi em Nova Iorque. Mas fui marcado por tantas leituras que me é difícil nomeá-las…

Não há um autor que se destaque como grande referência?
Se tiver de apontar só um, é o Gabriel García Márquez. É o meu comprimido para escrever. Quando escrevo um romance, tenho uma grande disciplina. Para este último, escrevi religiosamente cinco horas por dia, durante dois anos, sem feriados nem fins de semana. E isso custa. Às vezes, é a última coisa que nos apetece fazer, sentarmo-nos à frente do computador e escrever… Muitas vezes, recorro ao García Márquez. Basta-me ler uma página. É o suficiente para me transformar e me empurrar para a escrita… É o poder incrível da literatura.

Essa questão de parecer um autor estrangeiro não estava relacionada, apenas, com o estilo. Tinha que ver, também, com o tema escolhido. Os seus romances estão ligados à perseguição aos judeus no século XX. De onde vem essa atenção, tão exaustiva, a este tema? Há alguma questão familiar, de proximidade?
Não, nenhuma razão familiar. Vem do tempo da faculdade. Houve um conjunto de momentos que me foram atraindo para este tema. E não mais o larguei. A partir de 2009 ainda levei as coisas mais a sério, ao fazer algumas ações em Auschwitz, onde trabalhei com investigadores do museu, que tem um centro de pesquisa excelente. E estive, praticamente, a viver no campo, fora daquela horda de turistas que costumam frequentá-lo. Era um projeto do Conselho da Europa. O que continuou a prender-me a esse tema foi ter reparado que por mais investigação que fizesse sobre o assunto, por mais próximo que me sentisse da realidade dos factos, continuava a sentir uma grande distância em relação às respostas que procurava desde o início.

Que eram?
Basicamente, eram as respostas às perguntas “porquê?”, “como foi possível?”. O que é que leva um cidadão comum, muito parecido connosco, a transformar-se em determinada altura e em determinadas circunstâncias? E até que ponto isso é algo que pode tocar-nos a todos num certo contexto? Basicamente, os meus três romances andam à volta disso. Não é tanto a questão do próprio Holocausto e da perseguição aos judeus. É mais escrever a partir de um cenário e de um tempo absurdos. As pessoas revelam nesses momentos coisas que não revelam noutras alturas mais pacificadas. A paz é muito bonita mas esconde muitas coisas. As minhas personagens têm de agir num contexto absurdo, em circunstâncias a que não estamos habituados no nosso quotidiano. Como é que lidaríamos com isso, que escolhas faríamos e o que mostraríamos de nós próprios se vivêssemos naquele contexto? Seríamos muito diferentes? É isso que me interessa, e por isso escolhi aquele período. Se nunca me tivesse interessado pela perseguição aos judeus na Europa, provavelmente nunca teria escrito nenhum livro.

O que aconteceu na Faculdade de Arquitetura para o cativar para esse tema?
O ponto de viragem terá sido um livro que li: Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Goldhagen, um livro muito exaustivo e controverso escrito por um investigador judeu. A partir daí, nunca mais parei de comprar e de ler livros sobre esse tema.

Alguém que estudou o Holocausto tão a fundo como assiste hoje a um ressurgimento do antissemitismo, mesmo nos lugares a que esse período está mais ligado, a Alemanha, a Polónia, França?
Antissemitismo sempre houve. Claro que depois da Segunda Guerra Mundial houve muito mais pudor em afirmá-lo. Não tenho dúvidas de que o perigo vem da distância. Quanto mais nos afastamos do que aconteceu entre 1939 e 1945, mais aquilo se torna histórico, um acontecimento de outros tempos, de humanos que já não existem hoje. Auschwitz não tem, hoje, o mesmo peso que tinha há 30 anos. Há um risco de que tudo se torne, apenas, um “facto histórico”.

Depois de tantas investigações e trabalhos sobre o assunto, há em todo o mundo negacionistas do Holocausto. Isso não é difícil de explicar?
Tenho muita dificuldade em perceber… Mas há várias formas de negacionismo. Há os que negam declaradamente a existência do Holocausto, dos campos de concentração e campos de extermínio. E há outro tipo, porventura mais perigoso, e que se faz pela calada: uma atitude mais dissimulada, que nos leva a duvidar, que insinua que as coisas talvez não se tenham passado bem assim, que tenta lançar a semente da suspeita… E há, cada vez mais, um discurso pouco informado, que nem sequer utiliza as palavras no contexto certo.

Auschwitz neste momento é uma marca, como há uns anos O Código Da Vinci se tornou um modelo. E como é uma marca que vende, não falta quem a explore: autores, livreiros, editores, leitores

Haverá, hoje, contextos que propiciam um ressurgimento do antissemitismo?
Por muito absurdas que sejam, há razões que conseguimos identificar e que devem ser motivos de reflexão, como o que aconteceu na Polónia no século passado, no contexto de uma crise económica muito duradoura e de comunidades muito numerosas que não se integravam. É difícil assistir a um antissemitismo sem razões concretas, uma certa irracionalidade que vem como herança dessas intolerâncias… Mas tenho muita dificuldade em aceitar a possibilidade de um novo episódio com as características do Holocausto. Acho que não é possível, de todo. Agora, que há imensas sementes espalhadas por aí que se germinarem podem conduzir, num futuro a médio prazo, a uma situação parecida… Já o Primo Levi dizia: se aconteceu, pode voltar a acontecer. Há muito trabalho a fazer em termos de educação para tornar mais difíceis esses ressurgimentos.

A história recente de Israel, estes episódios de violência a que periodicamente assistimos, pode contribuir para esse ressurgimento global do antissemitismo?
Sim, não tenho dúvidas. Há um antissemitismo declarado, nalguns casos, e uma hostilidade em relação ao Estado de Israel que muitas vezes se transforma em hostilidade “ao judeu”. É completamente atual, em certas argumentações, o discurso “os judeus são isto…”, “os judeus são aquilo…”, “os judeus controlam a imprensa, a banca…”, coisas assim. Só o facto de se dizer “os judeus”, tentando caracterizar um povo inteiro, já revela alguma coisa. Aceito e admito que se critique um Estado, um regime e as suas políticas. Isso é diferente de dizer “os judeus…”, uma fórmula que revela logo um preconceito. Está, hoje, à vista de todos que a opinião, mesmo das sociedades ocidentais, sobre os judeus tem sido influenciada pelo que se passa na Palestina e em Israel.

Como se sente quando entra numa livraria e vê tantos livros com Auschwitz no título?
Auschwitz neste momento é uma marca. E como é uma marca que vende, não falta quem a explore: autores, livreiros, editores, leitores… Tenho alguma dificuldade em dizer muito mais sobre o assunto porque nunca li nenhum livro desses. Até hoje, só li um livro de ficção sobre o Holocausto: As Benevolentes [de Jonathan Littell]. Precisamente porque faço questão de ser muito rigoroso, tenho receio de que possa ser contaminado por alguns erros presentes na ficção. Não posso comentar esses livros, portanto, mas sei que Auschwitz se tornou uma marca, como há uns anos O Código Da Vinci se tornou modelo. Julgo que tudo começou, desta vez, com O Tatuador de Auschwitz.

Antes houve o best-seller O Rapaz do Pijama às Riscas
Sim, mas esse não tinha Auschwitz no título. E contra esse livro posso falar; não o li mas vi o filme, que conta a mesma história. Foi retirado da livraria do museu de Auschwitz porque, no fundo, nega aquilo que os guias dizem durante a visita. Não fazia sentido depois de se fazer um percurso onde é explicado o que ali se passou, encontrar livros que desmentem esses factos. Eu sei que é um livro de ficção. Mas seria impensável haver um miudinho judeu a andar por Auschwitz e a encontrar-se com o filho do comandante do campo… E isso dá, imediatamente, uma ideia muito errada do que ali aconteceu. Há o exemplo do filme A Vida é Bela [de Roberto Benigni, 1997] mas aí percebemos que é metafórico, a história não tenta passar por verdade. Tenho pena de que O Rapaz do Pijama às Riscas seja dos livros mais lidos nas nossas escolas. Devemos ser muitíssimo rigorosos ao falar de Auschwitz. Tenho muito cuidado com o que escrevo nos meus livros. É ficção, sim, mas tudo ali é suscetível de ter acontecido. Falei com muitos sobreviventes e passei a ter uma obsessão quase doentia com o rigor nos meus livros. Não temos legitimidade para contar o que não aconteceu e, sobretudo, o que nunca poderia ter acontecido num campo de extermínio.

José Rodrigues dos Santos também entrou nesse filão de Auschwitz. Imagino que não leu o livro [O Mágico de Auschwitz]…
Não li. E não vou ler. Nunca falei sobre o livro, nem vou fazê-lo, porque não o li.

Mas acabou por se envolver numa polémica, a partir de uma entrevista a José Rodrigues dos Santos…
Sim, uma entrevista, na televisão pública, em que ouvi algumas coisas que não deviam ter sido ditas. Não falo da intenção propositada de quem as proferiu no sentido de negar seja o que for. Mas o efeito acaba por ser esse: uma forma de negacionismo. Temos de ser extremamente cuidadosos nos discursos sobre o Holocausto. É muito fácil dizermos asneiras sobre o assunto, mesmo com a melhor das intenções. Há quem fale sem a preparação devida. E há palavras que magoam. Houve uma polémica com uma placa colocada no Museu de Auschwitz em que se homenageava quem tinha lutado naquele lugar pela liberdade. Parecia consensual, natural, uma homenagem justa à resistência que ali houve. Mas esquecia todas as outras vítimas, o heroísmo das vítimas que não levantaram um dedo contra os alemães. Naquele lugar, é ofensivo falar dos que lutaram ativamente e ignorar todos os outros. É como quando se fala de “capacidade de adaptação” em relação a Auschwitz. Pode induzir a um colossal erro de leitura, levando a acreditar que uma certa “adaptação” podia levar à sobrevivência. Só se pode fazê-lo no sentido em que o faz Primo Levi: a “adaptação” à bestialidade e à nossa forma de nos transformarmos em bestas para conseguirmos sobreviver.

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