“Depois do processo de Sócrates, é melhor colocarmos diante dos tribunais outra alegoria da Justiça: uma mulher de olhos bem abertos e desgrenhada”

Foto: Diana Tinoco

Nunca quis fechar-se no seu casulo e, aos 74 anos, mantém os olhos bem abertos em relação a tudo quanto se passa à sua volta. Recentemente nomeada para o Conselho de Estado, Lídia Jorge tem uma assertividade que não condiz com a (aparente) fragilidade dos seus gestos. E talvez por isso a sua voz mereça ser ainda mais escutada.

Recomeçou agora um romance, depois de um ano terrível, com o desaparecimento da sua mãe, que morreu com Covid-19. A pandemia retirou-lhe concentração para escrever?
Apenas para um determinado tipo de escrita. Senti este tempo como um desafio, ao nível da interpretação daquilo por que estamos a passar e, por isso, acabei por escrever muitos textos. Esta passagem, esta transição fez-me mergulhar numa espécie de introspeção sobre o sentido das coisas, da vida e das relações humanas.

Já a ouvi dizer que, em certo sentido, tudo foi posto em causa pela pandemia. É capaz de olhar
para o futuro com otimismo?

Sim, sou capaz. Julgo que este momento tem componentes que fazem com que nós possamos imaginar que daqui venha a resultar alguma coisa positiva. Para já, temos uma consciência da interdependência planetária como nunca tínhamos tido (também consciência sanitária, ecológica e, na base de tudo, uma absoluta necessidade de fraternidade). Sabíamos que, um dia, haveria governos globais, mas nunca tínhamos tido um pretexto para isso acontecer. E, agora, pelo menos setorialmente, tem de haver governos globais, governos que sejam mais fortes do que os regionais. Temos de salvar o planeta, salvar a Terra, salvar-nos como pessoas e também a Humanidade, a civilização e a cultura que, tal como nós, foram construídos ao longo de toda a vida. Precisam de ser preservados com princípios de ética, princípios de deontologia, princípios filosóficos e, no meu entender, princípios estéticos.

Tem estado sempre no Algarve?
Quase sempre. Vou de vez em quando a Lisboa, quando posso. Era aqui que a minha mãe vivia, e foi aqui que eu vivi os últimos seis anos, para a apoiar. Ela faleceu, e eu ainda não consegui sair desta casa.

É no Algarve que sente uma ligação mais forte à terra?
Nunca quis deixar-me aprisionar por um lugar, mas neste momento sinto uma grande necessidade de estar aqui. Faz-me bem, preciso de perceber outra vez que relações me atam ao mundo e às pessoas. Durante este tempo de confinamento, consegui inclusive estabelecer uma ligação com a vizinhança, com as pessoas aqui à volta, como há muito não me acontecia. Com vagar, ouvindo-as, percebendo outras perspetivas. Muitas vezes, acabamos por nos dar só com aqueles que pensam como nós e, portanto, criamos ideias falsas sobre o que é a opinião pública. Também me fez muito bem perceber como os portugueses são secretos, capazes de entreajuda, sem alardearem.

Economicamente, o Algarve foi das regiões mais afetadas.
Sente esses efeitos à sua volta?

Sinto, e dá-me muita pena. Há muitas narrativas pessoais, umas contadas pelos próprios, outras de que se sabe por outros, por instituições, porque as pessoas não querem falar. Somos um povo que merece respeito. E merecemos porque somos um povo com muita discrição em face da pobreza. Acho que herdámos uma lição muito grande de pobreza. Somos tímidos, e isso é um problema que, publica, intelectual e politicamente, nos tolhe. Mas, por outro lado, do ponto de vista pessoal, é reconfortante perceber que há muita dignidade nas pessoas.

Nunca foi do género de escritores que se isola no seu mundo. A Operação Marquês tem-na inquietado?
Bastante. E, como o processo é tão denso e tão complexo, muitas vezes, sinto-me sem discurso… Sobretudo desde a última sexta-feira [dia 9 de abril, leitura da decisão instrutória], tenho escrito textos sobre o assunto, só para mim. Para pôr as ideias em ordem, para tentar encontrar alguma ordem…

Escrever para compreender.
Sim, é a minha forma de eu me entender. Ponho-me diante das folhas e tento organizar aquilo que, dentro de mim, é um turbilhão. Garanto-lhe: perante este caso, não consigo ser uma pessoa tranquila. Aquela sexta-feira vai marcar a nossa sociedade, porque se percebeu, para já, que há um problema na arquitetura do Direito português, que não consegue dar resposta ao mundo moderno, que permite incumprimentos e cruzamentos de vária ordem. Aquilo que me chega, como uma pessoa simples, é que a arquitetura do sistema jurídico português não está em conformidade. Se é apenas por uma questão de falta de meios ou se é também por vícios herdados, isso não sei. O que sei é que, no dia 9, fiquei com a ideia de que não estava a ver a Justiça.

António Guterres, que
nos diz tanto, ou abre os olhos para a situação
de Cabo Delgado ou, de facto,
não fica à altura
do momento

Como assim?
Estamos habituados a olhar para a Justiça sob a forma da alegoria em pedra que vemos diante dos tribunais: uma mulher vendada, vestida, com uma espada. E nesse dia tive, de facto, a ideia de que a alegoria tem de ser outra: o que vi ali foram juízes lutando entre si, muito mais por disputas e rivalidades do que por princípios e interpretações filosóficas. E, a certa altura, José Sócrates, que está no meio de tudo isto, pareceu-me uma figura secundária. Achei que eram os juízes que estavam a julgar-se uns aos outros. Apercebi-me de que, de repente, toda a arquitetura – que, mal ou bem, foi organizada durante seis anos pelo Ministério Público e por um tribunal de instrução – foi completamente abatida, para ser criado um crime à parte, sobre os mesmos factos.

Tem ouvido o que José Sócrates tem dito em sua defesa?
José Sócrates, que é um homem corajoso, irá até ao fim com uma arquitetura demencial. A sua defesa é demencial. Ele não se defende, ele não diz nada, ele não consegue dizer uma palavra em sua defesa! E eu, que a certa altura estive próxima de Sócrates, que o estimei muito e que pus nele uma esperança enorme, fico à espera de uma justificação. Ou, então, de uma confissão em que ele diga: sim, eu queria ser rico, tinha essa ideia, agora deixem-me viver uns anos tranquilo. Sou uma pessoa com esperança, gostaria que ele se explicasse ao povo: governei-vos durante seis anos, quero dizer-vos a verdade.

Acha que se trata de um homem com essa lucidez?
Não, não tem essa lucidez. Sócrates criou uma imagem, pode chegar ao fim e fazer como Ricardo III: “O meu reino por um cavalo”. Só que o cavalo de Sócrates é a verdade, abate tudo para dizer que está inocente. E as provas estão contra ele! Isto é dramático, acho que nem Shakespeare nem Molière criaram uma figura assim. Ninguém, na literatura e na arte, conseguirá interpretar uma figura que esteja à altura de José Sócrates. Sabe, o que os meus vizinhos, que têm sentido de ironia, me dizem é que têm de ir amealhando para, daqui a dez anos, cada português pagar €1 000 de indemnização a José Sócrates. Repare na gravidade: as pessoas desistem, não acreditam. E isto cria, sobretudo junto dos jovens, gente cínica, gerações cínicas que não acreditam em nada e que, naturalmente, estão sensíveis a todo o tipo de demagogias, as extremistas e as dos grandes partidos.

Gente sem esperança.
Sem esperança! Porque é preciso não confundir as doenças da democracia com um desejo de autocracias e de ditaduras, que podem vir encapotadas mas que existem. Acho também que há outra coisa que nos deve fazer pensar sobre o que está à nossa frente, e que tem que ver com o facto de a modernidade digital permitir criar cavernas de trogloditas (etimologicamente, o troglodita é aquele que vive no fundo das cavernas). É, aliás, muito curioso que, nos mesmos dias em que se preparava a amaragem em Marte, também vimos um vulto a erguer uma forca diante do Capitólio. Que cavernas são essas? Que mundo mágico, anterior ao mundo racional, é esse que coexiste com a maior sofisticação tecnológica? Voltando ao processo de Sócrates, o que penso é que é melhor colocarmos diante dos tribunais outra alegoria da Justiça: uma mulher de olhos bem abertos e desgrenhada. Temos de pensar, de discutir o assunto, de pressionar os partidos, para que criem leis que permitam investigar com celeridade.

Não hesita em comentar o que se passa à sua volta, o que de resto é visível no que acaba de dizer. Acredita que os escritores podem atuar no presente?
Não hesito, não. Pertencemos todos a famílias antropológicas diferentes, e eu sou uma socorrista [risos]. Em geral, uma socorrista é uma pessoa precipitada, mas faz falta. Divido os escritores em dois tipos: os que, em face da realidade, são âncoras; e os que, em face da realidade, são antenas. Os que são âncoras ficam no fundo das coisas, meditando, têm de procurar no passado os argumentos para a escrita no presente; não se envolvem no presente, mas criam obras de grande lastro, profundas. E há os outros, aqueles de que me aproximo, que vão funcionando como uma espécie de para-raios, para quem o presente é o grande tema. Faço-o por temperamento mas também com uma noção de princípio. Ser testemunha do nosso tempo é alguma coisa que só os do nosso tempo podem fazer. É admitir que estamos errados, pormos a julgamento o nosso próprio julgamento. Gosto de ler escritores românticos, como Garrett e Herculano, porque eles eram ingénuos em relação ao tempo deles, reagiam.

Herculano arranjou um refúgio.
Exatamente, mas Herculano não se protegeu, desistiu. Utilizou as expressões de Sá de Miranda: “Homem de um só parecer,/ d’um só rosto, uma só fé,/ (…) mas de corte homem não é”. Refugia-se, mas refugia-se com estrondo. Acho que essas duas figuras, Garrett e Herculano, nos ensinam imenso, à distância: deixam que a emoção as guie. No meu entender, o escritor-antena é um escritor importante. Pode até não ser tão brilhante quanto os outros, mas é insubstituível: está envolvido completamente com o seu tempo e, nas narrativas, na poesia ou no teatro que faz, acrescenta aquilo que é a viva voz do seu desejo de mudança de vida e dos seres humanos.

O que a sua antena tem captado sobre o que está a passar-se em Moçambique, um país do qual nunca se libertou?
Nem quero libertar-me, de modo algum… Nunca visitei aquela zona, mas conheço aquelas pessoas. E digo-lhe: o que se está a passar é uma tragédia. Há uma personagem do meu livro Estuário, um jovem, que diz que, se não se tomar cuidado, a terra será destruída por um vento de irracionalidade. O que está em Cabo Delgado a acontecer é justamente um vento de irracionalidade, que pode alastrar para outros campos. Devíamos escrever em todas as paredes: “Cabo Delgado somos nós”. Cabo Delgado está abandonado, aquelas pessoas estão cheias de fome. Neste momento, estou muito desiludida com a ONU. Acho fraca, acho frouxa, acho lenta, acho muito lírica, não acho ativa. A ONU não está adaptada aos dias de hoje. E António Guterres, que nos diz tanto, ou abre os olhos para a situação de Cabo Delgado ou, de facto, não fica à altura do momento. Ele lá saberá as linhas com que se cose e as dificuldades que terá, mas Ban Ki-moon [antecessor de António Guterres no cargo de secretário-geral das Nações Unidas] gritava mais alto. Guterres não está a gritar suficientemente alto. E eu, como portuguesa, precisava de que a sua voz fosse mais firme. É mais fácil falar das mudanças ambientais; hoje já toda a gente fala, até as crianças falam… É preciso rebentar as convivências internacionais, com as insensibilidades, com as indiferenças. Isto tudo para lhe dizer… que os escritores-antena passam muitas noites em claro [risos].

Mas não se refugiam em Vale de Lobos, como fez Herculano.
Não, nada disso. Quem vai a Vale de Lobos vê lá o carapuço de dormir do pobre do Herculano… Não uso carapuço para dormir, pelo contrário, deixo as orelhas bem abertas [risos]. Sabe, quer em relação à pandemia quer em relação a tanta coisa que está a acontecer, tenho a ideia de que estamos a viver uma metamorfose. E isto faz-me lembrar uma pequena história: aos 13 anos, apaixonei-me por bichos-da-seda e levei a minha criação para o liceu. O professor de Ciências Naturais perguntou-me se eu sabia o que era a metamorfose. E expliquei: passava da lagarta ao casulo, do casulo à borboleta. Ele depois questionou qual era a fase mais importante e eu respondi que devia ser a lagarta, por ser o princípio. E disse-me: “Não, Lídia, é o teu vestido de seda”. Nessa altura, tive de pensar por várias vezes até entender, mas o que ele queria dizer-me ficou para sempre na minha vida: no momento das grandes metamorfoses, quando estamos dentro do casulo e ainda não sabemos o que vai acontecer, aí, temos tudo para transformar: a mão do Homem é importante e tudo vale a pena quando conseguimos tirar o que é mais puro, o fio de seda.

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