Carl Zimmer em entrevista à VISÃO: “Atribuir legitimidade a pontos de vista que não têm base científica é ridículo”

No dia em que conversou com a VISÃO, o jornalista de Ciência do jornal The New York Times, Carl Zimmer, estava em contagem decrescente para receber a primeira dose da vacina contra o SARS-CoV-2. Aos 54 anos, o norte-americano confessou sentir-se privilegiado por “viver num país que tem tantas vacinas que mal sabe o que fazer com elas”. Só agora os Estados Unidos da América (EUA) estão a preparar-se para exportar os primeiros quatro milhões de doses, depois de, nos últimos meses, terem assegurado que toda a produção interna ficava em território nacional.

Autor de 14 livros sobre Ciência, Carl Zimmer considera a virologia a área de investigação “mais entusiasmante da atualidade”. A obra Um Planeta de Vírus (Saída de Emergência) está nas livrarias desde quinta-feira, 8. Além de debruçar-se sobre o papel destes microrganismos na história da Humanidade, o livro inclui um capítulo inteiramente dedicado à pandemia Covid-19. O escritor, que tem uma ténia com o seu nome – a Acanthobothrium zimmeri –, reflete sobre a possibilidade de o SARS-CoV-2 ter escapado de um laboratório ou sobre a polémica em torno da vacina da AstraZeneca. E deixa lições para enfrentar – e evitar – futuros surtos pandémicos.

A pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 surpreendeu-o?
Esta pandemia é exatamente aquilo sobre o qual os cientistas nos vinham alertando. Sabíamos que poderia acontecer e que os coronavírus eram um risco desde há quase vinte anos, quando apareceu o SARS. Tivemos imensos avisos. Quando as pessoas dizem que ninguém poderia ter imaginado algo assim, estão enganadas.

Então, não ficou surpreendido…
Fiquei surpreendido com o quão pouco surpreendente foi.

A Humanidade já foi obrigada a enfrentar várias pandemias. O confinamento continua a ser a forma mais eficaz de as controlar?
Algumas medidas arcaicas de saúde pública funcionam incrivelmente bem. Ao mesmo tempo, uma série de outras ferramentas está disponível. Agora, temos as vacinas, que demoraram menos de um ano a ser desenvolvidas, o que só foi possível devido aos avanços científicos das últimas décadas. Por outro lado, estamos a lidar com esta pandemia há cerca de 15 meses e é uma desilusão ainda não termos descoberto um antiviral direcionado para a Covid-19.

Mas o confinamento é a estratégia mais eficaz?
O confinamento pode ser incrivelmente eficaz se for bem usado. Obviamente, é muito disruptivo e pode ter um impacto enorme na economia mas, quando estamos à espera de vacinas e de tratamentos, é uma das poucas medidas capazes de salvar vidas. Na Austrália, assim que havia a mais pequena hipótese de o vírus ficar descontrolado, entravam em confinamento. Infelizmente, na Europa, nos EUA, no Brasil e em muitos países, deixou-se que as infeções chegassem a um nível tão elevado que o confinamento também salvou vidas, mas serviu, sobretudo, para diminuir a quantidade de vírus em circulação.

É essencial agir antecipadamente?
Em muitos países, o confinamento foi visto como uma solução de último recurso. Pode parecer um exagero entrar em confinamento quando há poucos casos, mas é precisamente nesse momento que ele pode funcionar melhor. Quando os políticos não estão dispostos a mostrar essa liderança e a acionar o confinamento antecipadamente, ele não vai funcionar tão bem.

Precisaremos de novas vacinas no próximo ano devido às variantes?
Ainda não sabemos. Muitas das vacinas que estamos a utilizar agora produzem anticorpos tão fortes que, mesmo que as variantes escapem a alguns deles, não vão escapar a todos. Vamos ter de esperar para ver, mas eu não ficaria surpreendido se as pessoas recebessem um reforço contra as variantes neste outono.

Tão cedo? E irá funcionar?
Os ensaios clínicos já estão em curso e existem todas as razões para acreditar que as vacinas contra as variantes irão funcionar muito bem. Um estudo recente mostra que os anticorpos produzidos contra a B1351 – a variante inicialmente identificada na África do Sul – funcionam contra todas as outras variantes. Pode dar-se o caso de tomarmos esse reforço contra a B1351 e o assunto ficar resolvido. Isso seria fantástico. Agora, não sabemos quanto tempo dura a imunidade destas vacinas; é possível que precisemos de um reforço anual.

Acredita que há uma correlação entre a emergência de novos vírus e as alterações climáticas?
Penso que as alterações climáticas têm ajudado alguns vírus a emergirem, mas não creio que seja esse o caso do SARS-CoV-2. Não há provas disso. Seguramente, existem espécies de vírus que, devido às alterações climáticas, podem aumentar o seu alcance. Se um vírus for transportado por um mosquito que gosta de calor, e houver temperaturas mais elevadas em todo o mundo, esse mosquito vai aumentar a sua área de ação. Podemos ver a dengue, por exemplo, a aparecer em locais onde antes não existia.

Qual poderá ser a principal causa de futuras pandemias?
Creio que vão surgir novas pandemias, num ritmo muito acelerado, se continuarmos a destruir as florestas, a caçar a vida selvagem, a importar animais exóticos para comer… Estaremos cada vez mais em contacto com vírus. Os morcegos, por exemplo, têm muitos mais coronavírus dentro deles e, provavelmente, alguns terão a capacidade de se adaptar aos seres humanos. Os cientistas estimam que possam existir centenas de milhares de espécies de vírus em mamíferos com o potencial de se transmitirem aos humanos. Se não queremos lidar com eles, temos de encontrar melhor forma de gerir a nossa relação com a Natureza, porque esta, claramente, não está a funcionar.

E temos de aprender a defender-nos melhor dos vírus…
Precisamos de monitorizá-los e de estar atentos ao momento em que eles se transmitem aos seres humanos pela primeira vez. E temos de ser capazes de agir depressa. A China não agiu rapidamente quando a Covid-19 emergiu no país. Além disso, necessitamos de vacinas e de tratamentos mais sofisticados, que possam funcionar contra um amplo espectro de vírus.

Podemos tê-los prontos antes de surgir uma nova pandemia?
Poderia ser possível desenvolver drogas antivirais, que são eficazes contra todos os coronavírus, não apenas contra o SARS-CoV-2, mas também o SARS, o MERS e outros que ainda não saltaram dos morcegos para os humanos. Tendo em conta o que sabemos acerca da biologia destes vírus, isso é concebível. E há cientistas a trabalhar nisso, mas ainda não temos esses comprimidos prontos numa prateleira.

Mas podíamos tê-los desenvolvido antecipadamente?
Sim, se nos tivéssemos focado realmente na ameaça pandémica. Podia ter demorado um ano ou dois mas, simplesmente, não fizemos das pandemias uma prioridade. Não investimos os nossos recursos na compreensão da biologia dos coronavírus nem na pesquisa de tratamentos e, agora, um único vírus custou ao mundo dezenas de triliões de dólares. E haverá mais.

Quais lhe parecem ter sido os principais erros na comunicação da pandemia à população?
Um dos maiores problemas tem sido a expectativa da população. Os cientistas foram insistindo que nunca tinham visto este vírus, mas, desde o início, as pessoas queriam consensos instantâneos e verdades absolutas. Contudo, a Ciência não funciona assim. Isso conduziu a desilusões e também deu azo a que se semeassem dúvidas em relação ao processo científico. Se a população duvidasse dos epidemiologistas e dos virologistas, talvez acreditasse no que dizia uma pessoa qualquer nas redes sociais. Tem havido uma quantidade enorme de desinformação, e empresas como o Facebook não têm feito o suficiente para a travar.

Como devemos agir perante as pessoas que negam a pandemia?
Não devemos fingir que estamos a lidar com dois lados igualmente legítimos. Se estiver a escrever um artigo sobre Geologia, não vou telefonar a alguém que acredita que a Terra é plana. Atribuir legitimidade a pontos de vista que não têm qualquer base científica é ridículo. Ao mesmo tempo, isso não significa que devamos fingir que não existem discordâncias. Claro que existem, mas temos de nos focar nos debates em que os argumentos se baseiam em provas válidas e não nos medos das pessoas.

Podemos evitar a alienação das pessoas vítimas de desinformação?
Existe desinformação sobre vacinas há mais de vinte anos e já aprendemos algumas coisas; uma delas é respeitar as pessoas que apenas querem compreender o que se passa. A melhor coisa a fazer é responder às suas preocupações, ouvir os seus motivos e explicar a Ciência o mais claramente possível. Não devemos confrontar alguém que não confia nas vacinas com insultos e tratá-lo como um idiota.

A desconfiança gerada em torno da vacina da AstraZeneca resulta de um desastre de comunicação ou é mais do que isso?
Nós, jornalistas que cobrimos as vacinas, sentimo-nos um pouco intrigados pela comunicação da AstraZeneca nos últimos meses. Eles não têm sido claros em relação a aspetos cruciais. Mesmo quando têm boas notícias sobre a vacina, têm feito confusão. Agora, temos esta preocupação relativamente aos coágulos sanguíneos. O facto é que há um grupo incrivelmente pequeno de pessoas que tomou a vacina e que também desenvolveu um determinado tipo de coágulos. Não sabemos se foi a vacina que os causou, mas sabemos que esta vacina é eficaz. Por isso, o benefício que já conhecemos ultrapassa largamente o potencial risco. Isto pode ser contraintuitivo, porque podemos fixar-nos numa pessoa que teve um problema potencialmente associado a uma vacina e esquecermo-nos dos milhões que foram vacinados e não tiveram efeitos secundários. E que não vão morrer de Covid-19.

Creio que vão surgir novas pandemias, num ritmo muito acelerado, se continuarmos a destruir as florestas, a caçar a vida selvagem, a importar animais exóticos para comer…

Mas devemos confiar na vacina da AstraZeneca?
Claro! Todos os especialistas me dizem que a vacina é muito boa e que os dados o comprovam.
O SARS-CoV-2 será um vírus zoonótico (de origem animal) ou poderá ter escapado de um laboratório?
Essas hipóteses não se excluem uma à outra. Um vírus de origem animal, que esteja a ser estudado, por exemplo, pode escapar de um laboratório.

E qual será a origem deste vírus?
Se olharmos para o seu genoma, vemos que é um pequeno ramo na enorme árvore dos coronavírus com origem em morcegos. Exatamente como saltou dos morcegos para os seres humanos é muito menos claro. Provavelmente, isso terá acontecido em setembro ou outubro de 2019.

Mas não podemos excluir a hipótese de ter escapado de um laboratório?
Ainda não vi provas nenhumas disso. Mostrem-me que o vírus SARS-CoV-2 estava num laboratório, em Wuhan, a ser ativamente estudado, e também reproduzido, e poderemos conversar sobre uma potencial fuga laboratorial. Há muitas alternativas que podem ser exploradas, mas não temos provas que nos permitam concentrarmo-nos apenas numa delas. E podemos nunca vir a tê-las, infelizmente.

Sobretudo tendo em conta a falta de colaboração das autoridades chinesas…
Definitivamente, eles não estão a ser cooperantes. Mas, mesmo que a China fosse mais colaborante, poderíamos nunca vir a saber. Os vírus não deixam um grande rasto à medida que se disseminam, as provas podem simplesmente desaparecer.

Quando terminará esta pandemia?
A vacinação é a nossa maior esperança. Por acaso, esta tarde vou tomar a primeira dose. Estou ansioso por isso. Tenho o privilégio de viver num país que tem tantas vacinas que mal sabe o que fazer com elas. Se estivesse na Europa, provavelmente ainda teria de esperar meses e, se vivesse no Níger, talvez fossem anos. O fim desta pandemia depende da forma como nós, enquanto Humanidade, nos organizarmos em relação às vacinas. Ela não vai parar até a grande maioria das pessoas do planeta estar vacinada. Este vírus não quer saber qual é o nosso passaporte.

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