“Se se confirmar que a pandemia é uma manifestação do desequilíbrio entre a espécie humana e o planeta, então é uma demonstração muito clara dos riscos que corremos”

Pedro Conceicao – PNUD

Nunca se cruzou com António Guterres, embora trabalhem ambos no mesmo edifício-sede da ONU, em Nova Iorque. O antigo primeiro-ministro português é secretário-geral da organização desde 2017, mas Pedro Conceição já leva quase duas décadas em cargos de chefia no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Curiosamente, também nunca se viram no Instituto Superior Técnico, onde ambos foram alunos e professores, devido à diferença de idades e às escolhas profissionais que os dois fizeram. Pedro Conceição, o mais velho, de 51 anos, tornou-se conhecido pela política e é um académico – possui licenciaturas em Física e em Economia e um doutoramento em Políticas Públicas – que lidera o escritório onde se elabora o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o famoso relatório que está prestes a cumprir o seu trigésimo aniversário. Um documento a divulgar em dezembro e que, segundo o seu responsável, deverá ser lido sem fatalismos e como instrumento de reflexão, sobretudo por já ter em conta os trágicos efeitos da atual pandemia.

Como alguém licenciado em Física se torna, depois, economista e cientista social?
Quando fui para a universidade e me inscrevi no Instituto Superior Técnico, as disciplinas de que mais gostava já eram Matemática e Física. Mas rapidamente passei também a interessar-me por outras matérias, embora ainda tenha feito investigação em fusão nuclear. Comecei a tentar perceber a forma como as sociedades e as economias funcionam e queria, igualmente, saber como a Ciência, a Tecnologia e a Inovação podiam ajudar no progresso económico. E, a partir daí, ir para a questão mais abrangente – como as sociedades se desenvolvem, como as economias progridem. Foi isto que acabou por me trazer para a ONU.

Antes de ser um expatriado ainda foi professor no Técnico…
Sim, primeiro de Física e, depois, após o meu doutoramento e durante um ano, de Economia.

E como surgiu o convite para ir para a ONU?
Foi o meu supervisor de doutoramento que sugeriu que me candidatasse a um lugar que se encontrava em aberto.

O seu doutoramento já foi feito nos EUA, na Universidade do Texas? Já agora, quem foi o seu supervisor?
Sim. O meu supervisor foi Jamie Galbraith…

Trata-se de um dos mais prestigiados economistas dos EUA [grande estudioso do fenómeno da desigualdade, com grande intervenção cívica nas últimas décadas]. De que modo ele o influenciou?
Jamie Galbraith é um economista heterodoxo. Estudar com ele levou-me não só a aprender aquilo que todos os economistas estudam mas a ter também contacto com teorias e abordagens menos mainstream. Por exemplo, lembro-me de, na altura, não se conceber que os bancos centrais adotassem taxas de juro zero ou mesmo negativas. Deu-me também oportunidade de estudar outros domínios, além da Economia, como a Ciência Política. E, por fim, há quase 25 anos, acolheu com entusiasmo a minha proposta de fazer uma tese de doutoramento sobre a desigualdade económica e tecnologia, numa altura em que o tema da desigualdade ainda não interessava a muita gente.

O relatório deste ano sobre o desenvolvimento humano celebra o seu trigésimo aniversário – e em circunstâncias muito especiais por causa da pandemia. O lançamento vai ocorrer em dezembro, como estava planeado?
A ideia é essa, e estamos a trabalhar com esse objetivo. A Covid-19 traz-nos muita incerteza mas, em principio, a data de divulgação vai manter-se.

Enquanto relator, que dificuldades está a encontrar na elaboração do documento deste ano?
A primeira tem que ver com as dificuldades na interação entre a equipa que faz a investigação. Este tipo de trabalho implica muita troca de ideias, a possibilidade de entrarmos espontaneamente nos gabinetes uns dos outros, de fazermos reuniões para se discutir ou testar algum conceito. Isso deixou de ser possível presencialmente. A segunda grande perda tem que ver com a participação e o envolvimento de pessoas de fora, especialistas, professores, decisores políticos. Tentamos replicar métodos, por teleconferência, por exemplo, mas não é a mesma coisa.

Quantas pessoas estão a seu cargo para a elaboração do relatório?
A equipa que temos aqui no escritório é constituída por oito pessoas, incluindo eu. Mas é preciso ter em conta que recebemos sempre várias colaborações, por exemplo, de centros académicos. Trata-se de um trabalho em que beneficiamos muito dos contributos vindos de fora.

Nem esses contributos externos prejudicaram os prazos?
Para já estamos a conseguir cumprir prazos. No entanto, já tivemos de fazer trabalho adicional para tentar perceber o efeito da Covid-19 no desenvolvimento humano, e isso levou-nos a publicar um minirrelatório, em maio, em que apresentámos algumas estimativas do impacto global desta crise, e outro, em julho, sobre a pobreza multidimensional, o qual resulta de uma parceria que temos com a Universidade de Oxford.

Quais são as principais conclusões, ainda que preliminares?
As simulações sugerem que pode haver uma queda muito significativa no IDH.

Em que medida?
Esta é uma crise que afeta não apenas o rendimento das pessoas mas também o acesso à saúde e à educação. E estas são as três principais componentes do IDH. Nós tivemos, no passado, crises como a de 2007-2008, que incidiram na parte económica, no rendimento, mas a saúde e educação não foram afetadas da mesma maneira. Agora, esta é uma crise sem precedentes, porque afeta todas as dimensões e todos os países, praticamente em simultâneo. Esta combinação provoca uma queda, pela primeira vez, do IDH.

Está então a dizer que é algo que nunca sucedeu desde que o índice foi criado, em 1990?
Nunca aconteceu por ser uma medida multidimensional. Quando há uma crise que afeta uma das componentes, as outras duas conseguem sustentar o IDH ou fazer até com que ele aumente. Desta vez, ao serem as três componentes afetadas, a queda torna-se inevitável.

Em 2008, numa entrevista que deu ao The New York Times, afirmou que a ajuda internacional estava a mitigar os efeitos da crise nos países em desenvolvimento. Hoje, isso parece um cenário pouco provável…
Uma das mensagens do relatório que divulgámos em maio é a de que tudo irá depender muito das políticas e das decisões que forem tomadas. O nosso apelo é que os dados sejam usados não com fatalismo, mas como um convite à reflexão, para que se possa depois atuar. De facto, a crise económica não tem precedentes. Os nossos colegas do Banco Mundial dizem-nos que estamos a assistir ao maior decréscimo de rendimento desde 1870. Mas é importante notar que a resposta à crise também não tem precedentes. Mesmo na ajuda aos países em desenvolvimento, o Banco Mundial e o FMI estão muito empenhados. A grande questão é se podemos ampliar ainda mais essas medidas, no sentido de lidar com os problemas da dívida ou da acumulação da dívida. Se a resposta que está a ser dada será suficiente ou não, isso dependerá do que vier a ser feito nos próximos meses.

O relatório do ano passado era dedicado às desigualdades e é natural que estas se agudizem agora com a pandemia. O IDH de 2020 já tem um mote específico?
A nossa intenção é olhar para a atividade económico-social e demonstrar como esta afeta o planeta. A ideia é abordar a noção de Antropocénico – de que já estamos numa nova era geológica, devido à influência dos seres humanos na Terra – e perceber como se pode melhorar o desenvolvimento humano sem perturbar o equilíbrio do planeta. Se não o fizermos, esta crise pode servir-nos de exemplo do que nos espera no futuro. Este novo coronavírus passou de animais para os humanos e, embora não se conheçam as circunstâncias exatas, sabemos que as doenças zoonóticas têm vindo a aumentar. E isso acontece devido à pressão que estamos a exercer sobre a Natureza. É uma demonstração da falta de equilíbrio e que se manifesta também através das alterações climáticas. Temos de ampliar as nossas perspetivas e olhar para a sustentabilidade, para as desigualdades que persistem. Se se confirmar que a pandemia é uma manifestação deste desequilibro, entre a espécie humana e o planeta, então é uma demonstração muito clara dos riscos que corremos.

O crescimento que alguns países em desenvolvimento tiveram desde o inicio do século pode agora perder-se em poucos meses?
Podemos assistir à morte de seis mil crianças por dia, nos próximos meses, nos países em desenvolvimento. E não devido aos efeitos diretos do vírus. Porquê? As taxas de imunização e de vacinação estão a cair a pique – em todo o lado e não só nos países pobres. Isto cria novas vulnerabilidades. Na educação, tentamos também medir os efeitos indiretos da pandemia. Nos países desenvolvidos, este impacto é relativamente reduzido, porque a maioria da população tem acesso à internet. Mas se ajustarmos a taxa de participação escolar pela falta de acesso à internet, nos países em desenvolvimento, a nossa estimativa é a de que 90% das crianças tenham ficado sem acesso às aulas.

Está a dizer é que boa parte dos objetivos da agenda 2030 da ONU – desde a erradicação da pobreza à redução das desigualdades globais – está comprometida?
Eles estão a sofrer um choque. A nossa responsabilidade passa também por apelar a que se tomem medidas para se corrigir esta trajetória e, ainda, a que se faça a tal reflexão mais profunda sobre como vivemos, os nossos valores e o risco de nos confrontarmos com uma crise semelhante daqui a poucos anos ou daqui a meses. A trajetória para o futuro depende de nós.

As estatísticas não ajudam ao otimismo…
O Banco Mundial, sobre a pobreza extrema, aponta para um aumento de 100 milhões de pessoas. No relatório que elaborámos sobre pobreza multidimensional – que é medida, por exemplo, em função da nutrição, da educação e da habitação – revela-se que haverá uma regressão de dez anos. Mas, atenção, estamos a falar de simulações e de projeções. Estes indicadores devem ser vistos como um alerta para que as sociedades acordem para a necessidade de encontrarem respostas imediatas.

António Guterres tem falado, por várias vezes, dos problemas de tesouraria da ONU. O seu gabinete já enfrenta dificuldades orçamentais?
É um orçamento que nos obriga a ser muito eficientes. Temos de maximizar todos os nossos recursos.

Na qualidade de cientista e de residente nos EUA, qual o seu comentário ao facto de a administração Trump desvalorizar sistematicamente a informação e o conhecimento científicos?
O facto de a informação científica não ser devidamente absorvida, eu diria em quase todas as sociedades e em qualquer parte do mundo, é algo que nos deve fazer refletir. Até nisso a Covid-19 é interessante, porque os cientistas há décadas que alertavam para os coronavírus e os riscos de uma pandemia. As sociedades têm uma grande dificuldade em absorver a informação que é produzida pela Ciência, em processá-la e depois traduzi-la em políticas concretas. As alterações climáticas são outro exemplo em que talvez tenha havido maiores avanços. Há, por vezes, interesses estabelecidos que se organizam politicamente para combater e descredibilizar a Ciência. E isso acontece em todo o lado, não apenas nos EUA.

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