“Podemos ter vinhos melhores do que os franceses ou os italianos, mas só os conseguimos vender lá fora se forem baratos”

FOTO: Marcos Borga

Pegou numa pequena casa agrícola e criou uma das maiores empresas vitivinícolas da Península de Setúbal. Hoje tem mais de 500 hectares de vinha e estende a produção ao Douro e ao Minho. Acumulou vários prémios internacionais e conquistou o seu espaço num setor dominado pelo sexo masculino. Agora, está a preparar-se para passar o testemunho e, pela quinta geração consecutiva, a Casa Ermelinda de Freitas poderá ter uma mulher, Leonor de Freitas, ao comando.

Apesar de ter vivido desde muito cedo em Setúbal, Fernando Pó é a sua terra?
Nasci em casa. Nem para o Hospital fui. Isto era muito isolado. Não havia eletricidade nem estradas de alcatrão. Mas sinto que fui uma privilegiada…

Porquê?
Porque os meus pais queriam uma vida melhor para mim. Queriam que eu pertencesse aos serviços, aos saberes. Quando íamos a Setúbal ou a Palmela tratar de alguma papelada, eles ficavam encantados com a pessoa que nos atendia. Sentada numa secretária, poupada ao clima e às agruras do dia a dia de uma quinta, era a vida que eles queriam para a sua filha única. E fizeram um grande esforço para eu poder estudar.

Saiu de casa com que idade?
Assim que completei a 4ª Classe, com 9 anos, quase 10, e com um aviso do meu pai: “Se tu perderes algum ano ou se começares a namorar, vens imediatamente para casa.”

E conseguiu cumprir esse desígnio?
Rigorosamente. Não queria, nem por nada, voltar para o campo [risos].

Não queria regressar ao mundo rural, mas ainda pensou em tirar o curso de regente agrícola…
Mas o meu pai disse que não era um curso para uma menina. Licenciei-me em Serviço Social. Mais tarde, casei-me e tivemos dois filhos. Tinha uma vida muito organizada, eu como técnica superior na Saúde, e o meu marido como engenheiro mecânico na Portucel.

O que a levou a trocar essa vida estável e uma carreira profissional pela incerteza de um negócio na agricultura?
O meu pai faleceu cedo. A minha mãe – a verdadeira dona Ermelinda, apesar de toda a gente me chamar Ermelinda a mim – era uma mulher fantástica que esteve sempre ligada ao negócio, mas nunca saiu da sombra do meu pai. Nunca entrou num banco. Percebi que era impossível ela manter a propriedade sozinha. E aí surgiu o dilema: ou eu vinha para cá ou tínhamos de vender.

E decidiu manter?
Achei que vender era um ato de violência para as várias gerações da minha família que se dedicaram tanto a esta casa. Lembrei-me da minha avó, que nunca teve direito a férias nem a fins de semana. Uma mulher que nunca pôde dizer que estava cansada.

Imagino que esses tempos devem ter sido complicados. Chega aqui em 1998, a um setor muito masculino?
Cheguei cheia de força, muito motivada. Queria aprender. Batia à porta das pessoas a pedir ajuda. Na primeira reunião da associação de vitivinicultores a que fui, eu era a única mulher na sala. O senhor que estava a moderar dizia sempre: “Minha senhora e meus senhores.” E a cada vez que ele o dizia, eu quase me enfiava pela cadeira.

Além de ser mulher, neste setor havia muito a ideia de quem percebe disto é quem nasceu e viveu neste meio?
Tal qual. Ao princípio acharam piada. Era nitidamente a menina da cidade que estava aqui por uma espécie de capricho. Deram-me algum apoio, mas sempre a pensar: “Ela logo vê o que isto custa.”

Pensou em desistir?
Eu sou muito lutadora. Nasci prematura e salvei-me sem ir para a incubadora. Tive, desde muito cedo, de aprender a defender-me. E disse sempre que não era por ser mulher que não iria dar continuidade ao trabalho da família. Mas tive de ter muito cuidado para me fazer respeitar. A família comprava uvas a muitos agricultores para fazer vinho a granel. Eu continuei a comprar aos antigos fornecedores do meu pai. Achei que tinha esse dever.

Pegou numa casa que produzia vinho a granel. Quando se deu a grande mudança de querer produzir vinho com marca própria?
Quando comecei a ir a feiras internacionais. Nessa altura, ganhei consciência de que estávamos com um atraso enorme em relação ao que se fazia lá fora. Pensei em mudar, mas não tinha dinheiro. Fiz uma pequena experiência com sete mil litros e comecei a vender na Makro. Coloquei ainda cinco mil litros a estagiar em barricas. Esse vinho teve uma nota destacada na Comissão Vitivinícola, e o Pingo Doce, então, propôs-me criar uma marca própria.

Essa experiência foi suficiente para mudar o negócio?
Não. Mas deu-me a noção de que era possível fazer algo diferente. A mudança verdadeira dá-se em 2002, quando um dos nossos melhores clientes nos diz que tem muito vinho e que não vai comprar o nosso. Pensei que era a minha falência…

O que fez?
Juntamente com o enólogo que me estava ajudar e que ainda hoje trabalha connosco, decidi fazer o bag-in-box e vender eu própria o vinho.

Na altura, os vinhos que se vendia em caixas eram associados a uma má qualidade?
Mas eu tinha de vender o vinho. O enólogo também teve a mesma dúvida por causa dessa má reputação, mas eu achei que, se o vinho fosse de qualidade, a aceitação iria ser boa.

Após esse sucesso começou a criar outras marcas, mas apenas com as castas que aqui existiam…
Sim, principalmente a castelão. E o que nos diferenciava era a maturidade da uva e o estágio na madeira. Fazia toda a diferença. Mas foi nessa época que eu senti falta de outras castas para começar a criar outro tipo de vinhos. E decido plantar a touriga-nacional.

Algo que não era comum aqui na região?
Os meus colaboradores mais antigos, os que trabalharam com o meu pai, vinham dizer à minha mãe que eu ia arruinar todo o dinheiro porque nestas terras só se dava a castelão.

E correu bem?
No início não. Correu tão mal no primeiro ano que acabei por refazer a vinha outra vez. Mas fui persistente, o que é um fator necessário neste setor. Hoje tenho cerca de 30 castas.

E porquê essa obsessão em plantar tantas castas?
Nós temos de ir ao encontro do consumidor. E, nas feiras internacionais, eu não conseguia dar o Castelão a provar. Tinha de conquistá-los com algo que conhecessem, como um Cabernet ou um Merlot. Só depois de cativá-los com estas castas é que lhes poderia dar a provar uma casta portuguesa.

O vinho português era pouco conhecido e muito mal cotado?
Hoje, há uma diferença muito grande. Quando comecei a ir às feiras de vinho, a nossa imagem era horrorosa, se comparada com a dos outros países. Mudou muito. Hoje é um orgulho estarmos nessas feiras. Temos produtos de qualidade, um design apelativo, um bom espaço de exposição, mas ainda falta uma coisa…

Que é…
Valorizar os nossos vinhos. E, nessa matéria, ainda vamos ter de lutar muito. Podemos ter vinhos melhores do que os franceses ou os italianos, mas só os conseguimos vender lá fora se forem baratos.

Como a pandemia está a afetar o negócio?
Ao princípio, foi complicado. Nos primeiros 15 dias do confinamento, não tivemos encomendas. Os restaurantes fecharam, e esse é um setor muito importante para nós. Temos vinhos em vários pontos de distribuição, mas o canal Horeca é onde está o grosso da nossa faturação. Mas não fomos para layoff nem despedimos ninguém.

Vai continuar a comprar uva, apesar de as vendas de vinho terem caído?
Eu sinto que tenho uma grande responsabilidade social nesta região. A maioria dos empregados é daqui. Conheço a realidade de quem cá vive. Há muita gente que tem uva mas não tem adega. E, quando começou a pandemia, eu assumi que iria comprar as uvas a toda a gente. Dei a garantia de que não iriam ficar uvas no campo.

Assumiu um compromisso algo perigoso…
No início, quando as encomendas começaram a cair, assustei-me. Felizmente, as coisas estão a correr melhor. Até vou ficar com uvas de colegas que estão mais desanimados do que eu e queacham que não vão produzir este ano.

Poderá ter problemas de mão de obra na altura das vindimas?
Não sei o que vai acontecer. Temos uma grande parte vindimada à máquina, mas ainda tenho 140 hectares que são vindimados de forma convencional.

O projeto do TGV, que não foi para a frente, teria um impacto enorme na sua vinha?
Cortava-me ao meio a vinha de syrah, aquela que deu um dos prémios mais prestigiantes a esta casa. Pelo sim, pelo não, fui logo plantar a casta noutra zona. Agora tenho o dobro de syrah. Assusta-me essa ideia de ter um legislador a aprovar infraestruturas que vão ter impacto no País sem conhecerem a realidade das regiões, o território, os investimentos já feitos.

Acha que, hoje, a vida rural é mais valorizada pela sociedade?
Há outra dignificação do trabalho rural, mas ainda existe algum estigma social. Quando voltei para cá, fui convidada para ir às escolas falar com os miúdos. Reparei que eles não prestigiavam o trabalho no campo. Tinham só orgulho em dizer que o pai deles trabalhava na AutoEuropa, na Lisnave ou noutra grande empresa. Hoje, um tratorista ganha muito mais do que a maioria dos empregados de uma qualquer fábrica. E anda com ar condicionado todo o dia.

Contribuiu muito também para mudar o estigma que existia em relação ao vinho desta região?
Esta zona é espetacular, e nós não fizemos mais do que aproveitar o que havia. Os vinhos brancos que se dizia que aqui não se podiam fazer… ora hoje temos vinhos fantásticos. Dá-se tudo bem. Temos um lençol freático entre dois rios, com um microclima muito especial. O que temos é de saber como tirar proveito destas características únicas. E valorizar a região…

Como estão a correr os investimentos que fez no Douro e no Minho?
Não é fácil. Estamos a aprender, a mostrar que estamos lá para colaborar com a região. São projetos pequenos. No Minho, já tivemos produção, este ano, e em Foz Côa há vinho a estagiar para ser lançado em fevereiro.

É uma aposta de crescimento?
O nosso foco é a Península de Setúbal. Aqueles são complementos que nos permitem, quando vamos lá para fora, mostrar a grande diversidade de vinhos que existe num País tão pequeno como Portugal.

Tem os seus dois filhos a trabalhar na empresa?
O meu filho é informático e a minha filha está mais no dia a dia da Casa. Ela tem mais o espírito de empresária.

Vai continuar a ser uma empresa matriarcal.
Vai ser a quinta geração com uma mulher à frente. A sucessão está garantida, e de que maneira! Eu estive mais fechada em casa quando começou a pandemia, e ela fez um bom trabalho. Acho que o fez melhor do que eu.

Está preparada para passar o testemunho?
Estou-me a preparar, mas não é fácil [risos]. Como vejo mal ao perto, não me apercebo das rugas ao espelho. Ainda estou cheia de ideias e de novos projetos.

Mas tem essa consciência?
Sabe qual foi a pior coisa desta pandemia? Foi quando me apercebi de que, devido à idade, tinha de ficar em casa porque pertencia a um grupo de risco. Só nessa altura tive consciência de que estou a atingir esse limite. Agora, como o regresso das coisas à normalidade, já me começo a esquecer outra vez [risos].

Mas as coisas mudaram?
Não quero que os meus filhos cresçam profissionalmente porque eu já cá não estou. Quero ver o sucesso deles. E, para isso, terei de ir afastando-me pouco a pouco. Vai ser difícil porque isto faz-me falta. Faz parte da minha vida. Mas sei que não posso bloquear o trabalho deles.

Ainda tem um papel muito importante nessa transição?
Quero partilhar com eles o conhecimento do negócio, os valores sociais, a ligação à terra e às pessoas, tal como os meus pais me passaram. Vamos a ver se sou capaz.

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