“Eram tantos a berrar ‘chega de Estado’ e agora é vê-los a virarem-se para o Estado e a dizer: ‘Ó papá, salve-nos!’”

No dia em que lhe ligámos, tinha acabado de encomendar pão de ló para oferecer “à malta da casa”. A casa é o Seminário de Vilar, no Porto, onde o atual bispo emérito das Forças Armadas e Segurança mantém a sua pequena residência. Em tempo de pandemia, Januário Torgal Ferreira, 82 anos, antecipou-se às diretrizes do Governo e trancou-se há mais de um mês. Nos primeiros dias, ainda saía para comprar o jornal ou deslocar-se à farmácia, mas depois até isso deixou de fazer.

O seu quotidiano continua bastante ocupado, diga-se. Além das colaborações regulares ou ocasionais que mantém com órgãos de informação e outras publicações, está a ultimar o seu próximo livro e tem relido obras do Papa Francisco e do Padre Américo sobre as questões sociais. “Se alguns políticos pusessem os olhinhos nesses escritos é que faziam bem”, desafia.

Em fundo, por vezes, ouvem-se composições de Mozart, Bach e Beethoven, os seus prediletos. E, mesmo com a sua idade e limitações, o prelado não se resigna. “Eu não valho nada, mas se a minha ajuda for reclamada em algum lugar, até como capelão, estou disponível. Não é para me armar. Como todos, também tenho medo, mas, tal como diz a professora Brené Brown, da Universidade de Houston, a coragem é uma competência que se aprende.”

Até quando crê que os portugueses vão conseguir aguentar este isolamento forçado por causa da pandemia?
É capaz de ser difícil aguentar muito mais tempo, mas, se conseguirem, a vitória será nossa [risos]. Tenho pensado muito nas situações que podem estar a ocorrer entre quatro paredes: a violência doméstica, a humilhação da mulher, a agressão sexual, a degradação da sanidade mental… O psiquiatra Boris Cyrulnik, teórico da resiliência, fala muito das consequências para o desenvolvimento da linguagem, da estrutura cerebral e da socialização das crianças. Tudo isso é muito atingido…

Além das nossas liberdades…
Espero bem que, politicamente, não haja férias permanentes para as nossas liberdades, seria inadmissível. Percebo que, nesta fase, as liberdades tenham de estar entre parênteses, mas essa privação não é sustentável a longo prazo.

Como avalia a gestão desta crise por parte dos responsáveis políticos?
Tem sido excelente. Mas a honestidade, inteligência e o patriotismo de muitos deles já nem sequer me eram estranhas. Mais satisfeito fiquei quando vários desses protagonistas garantiram que não haveria partidarite nestas questões. Às vezes ainda me irrito com aqueles que, numa postura de orgulho monocolor, estão sempre a dizer “sim, mas falta isto…”. Faz parte, mas, por favor, deixemos, de vez, as cenas tristes a que assistíamos antes da pandemia. Sem comunhão, aliança solidária e boas vontades, é impossível vencermos esta batalha. Perante as dificuldades, o seu carácter imprevisível e as consequências dramáticas desta crise, só pode ser motivo de admiração que o Governo mantenha a mão no leme e na mesma direção, sem deixar, obviamente, de ouvir as pessoas.

Esse entendimento político deveria ir mais longe?
Digo já que não simpatizo com a ideia de um governo de salvação nacional e não vejo que as circunstâncias, apesar de tudo, o aconselhem. Este momento pede, como disse Rui Rio, espírito de cooperação e não de oposição. O “bota abaixo” não serve de nada. Aliás, espero que esta crise não traga, de novo, tempos de austeridade. Não quero ser infantil nem ingénuo, mas acredito que os pobres e todos aqueles que saírem disto em grande fraqueza física e psicológica serão tratados com justiça. Só é patriota quem é solidário. Já que esta tragédia nos bateu à porta e está em jogo a vida das pessoas, o que se pede é humildade intelectual, serenidade e tranquilidade.

Assiste-se ao recentrar do papel do Estado, tão execrado noutras circunstâncias. Uma postura para durar ou apenas uma ironia de tempos de aflição?
Para quem, como eu, sempre defendeu um Estado reformista, de índole social-democrata, e passou a vida a ouvir receitas liberais e neoliberais, ver tanta gente a reclamar o apoio do Estado até dá vontade de rir! Eram tantos a berrar “chega de Estado, basta de Estado” e agora é vê-los, nus e desgraçados, de roupinha nas mãos, a virarem-se para o Estado e a dizer: “Ó papá, salve-nos!” Na hora da penúria, aqueles que gritaram “nada com o Estado, tudo contra o Estado” são os primeiros a lembrar-se dele. Espero que o Estado seja, sobretudo, corretor de injustiças e desigualdades, e não sirva apenas para dar dinheiro. Um Estado justo e com sentido de equidade tem de ser pedagogo. O equilíbrio entre o papel do Estado e a nossa livre decisão é saudável, mas é preciso que aqueles que mais têm façam a justa distribuição antes de virem chorar o apoio do Estado.

O setor bancário estará à altura do que precisamos nestes tempos?
Nas crises, todas elas, nunca faltou dinheiro para os bancos. E todos pagamos as crises financeiras. Noutros momentos, não tem havido idêntica atitude por parte dos bancos em relação à sociedade. Há até remunerações e reformas no setor bancário, vindas de outras eras, que hoje são completamente injustificadas para bem da nossa sanidade social. Para haver justiça e equilíbrios sociais, alguém tem de perder alguma coisa ou deixar, pelo menos, de ter a tentação de acumular ou ganhar tudo. Tenho assistido a muitas atitudes de ganância, fruto de uma relação absurda com o dinheiro. O capitalismo tem sido fonte de grandes tragédias sociais. Mas as crises têm de ser pagas por todos.

A atitude geral da Igreja Católica merece-lhe elogios ou reparos?
A Igreja tem estado muito bem, totalmente ao serviço dos crentes, sem ser poder absoluto, sem exibicionismos e sem vaidades. Igreja é criadagem, serviço fraterno. Perante este cenário e as imposições do Estado para bem da saúde pública, a Igreja só tem de mostrar que é boa discípula e obedecer ao bem comum. Se há pessoas a dormirem na rua, abram-se igrejas e estruturas da Igreja para acolhê-las, como já está a ser feito em vários sítios. Não havendo a realidade do culto, há a realidade primordial que conduz a Igreja: a Humanidade. Não quero escandalizar ninguém e entendo que um crente queira comungar, mas, para outros não serem atingidos, é preciso “fazer férias” de alguns dos nossos hábitos enquanto fiéis. Quando isto terminar, Deus Nosso Senhor não virá perguntar-me, certamente, se participei na Eucaristia. Ele perguntar-me-á, sim, se celebrei a justiça e a fraternidade junto dos doentes, dos pobres, dos desnudados, dos imigrantes e dos refugiados. A Igreja não deve exilar-se da cidadania.

Há dias assinou, com outras figuras e personalidades, um manifesto contra a impunidade laboral. Qual é o cenário com que nos defrontamos nesse capítulo?
Tive sempre experiências muito traumatizantes no domínio social. Sei quem é que se portou bem ao longo dos tempos. Até dentro dos partidos. Sei quem teve sensibilidade social e quem não receou falar das classes mais desclassificadas ou abandonadas. Mas também assisti a muitas injustiças em relação à classe trabalhadora. Houve mesmo quem justificasse opções políticas profundamente injustas para com os trabalhadores como se essa fosse a única salvação do País. Receio muito que, perante o que estamos a assistir a nível europeu e a frágil solidariedade entre países, isso se repita. Lamento que a grande divergência entre as nações que compõem a União Europeia ande à volta da ajuda aos pobres e aos aflitos nestas circunstâncias nunca vistas. Quando tivemos por cá a Troika e a austeridade foi-nos prometido, no Parlamento, que ninguém ficaria para trás. Mas a verdade é que ficou. Muitos nem sequer entraram na última carruagem, caíram na exclusão.

Receia algo nunca visto pelas gerações mais novas?
Não posso esconder que tenho muito medo de uma pandemia social. Até porque sei que as maiores fortunas e os maiores roubos se fazem sempre no meio das trevas. Estamos fechados em casa e o maior receio, além do contágio, é que nos assaltem o salário e nos roubem os nossos direitos. Houve sempre quem fizesse fortunas nas horas mais tenebrosas, aproveitando-se de quem já vive esmagado pela pobreza e pela miséria. Estamos a assistir a isso, de novo. Apesar de tudo, espero que a maioria dos portugueses, até pelas várias crises que tivemos em democracia, esteja mais desperta, mentalizada, educada e sensível para as urgências sociais. Talvez seja ingenuidade minha ou do meu olhar, mas noto menos egoísmo, mesmo dentro de um quadro geral de egoísmo desenfreado, por parte de setores que sempre viveram nas alturas…

Houve sempre quem fizesse fortunas nas horas mais tenebrosas, aproveitando-se de quem já vive esmagado pela pobreza e pela miséria. Estamos a assistir a isso, de novo

Virá uma sociedade melhor depois desta pandemia?
Creio que haverá um esforço maior nesse sentido. E temos mecanismos políticos para criar condições para que tal aconteça. No tocante aos Direitos Humanos, não nos falta gente culta e a nossa democracia continua a ter mecanismos que, se quisermos, asseguram leis e práticas justas. Mesmo antes da pandemia, já notava sinais de alguma mudança de mentalidades, deparava com mais gente a promover a partilha e a lutar pelos direitos dos outros. Estamos perdidos se não formos fiéis ao espírito do 25 de Abril de 1974. Caso contrário, iremos esfarrapar ainda mais o País. Essa é uma batalha de que nunca abdicarei: estarei sempre na primeira linha de combate e não ficarei calado.

Se a Europa falhar no apoio aos seus povos neste momento de crise global, teme um reforço dos extremismos e nacionalismos?
Os extremismos andam aí e, mesmo em Portugal, já existe uma tendência. Mas também já se percebeu que esses extremismos não estão imunes a amolgadelas, a crise rebentou-lhes na boca. Algumas lideranças europeias são frágeis e não estarão à altura deste momento, mas, apesar disso, acredito no poder e na influência das forças democráticas. Creio que a União Europeia também aprenderá, ainda que de forma lenta, com os seus erros. Sobretudo se alguns países não pretenderem construir um quintal além da quinta que já têm.

Há umas semanas, o próprio Financial Times defendia, em editorial, um novo contrato social, mais segurança laboral, um rendimento mínimo universal e um reforço dos poderes e serviços públicos. O que nos diz isto sobre os tempos que vivemos?
Isso seria um sonho, o meu sonho europeu e nacional! Assino por baixo. Na minha linguagem, ainda acredito que as pessoas querem ser mais santas do que pecadoras. Mas receio que, passado o efeito dos murros no estômago, voltem as tentações. O dinheiro é insidioso, totalitário e omnipresente. Como já disse, fizeram-se grandes fortunas no meio dos escombros. E depois, nestas alturas, há também o grande cortejo dos hipócritas. Mas isto não é o fim da História. E os seus ventos sopram mais no sentido da humanização das nossas sociedades.

Agora que estamos confinados e isolados, com fronteiras fechadas, impedidos de viajar, com as consequências que sabemos, pode dizer-se que foi um erro pensar as nossas maiores cidades enquanto monoculturas turísticas?
Também nessa área, os responsáveis políticos terão agora um longo período para refletir no que andavam a fazer, pois nas nossas cidades, a pretexto do turismo, foram cometidas muitas injustiças com os residentes e muita gente ficou sem casa. Alertei muitas vezes para o risco de isto rebentar e a prova é que as cidades apenas dependentes do turismo ficam mais frágeis em momentos como este. A estrutura das cidades não pode ser monolítica ou assente em areia. O turismo não pode ser a base deste edifício. Espero que a pandemia sirva para abrir os olhos a muita gente. Com a resposta a esta crise, alguns já descobriram que somos mais do que um País bonito, com pessoas acolhedoras e boa gastronomia. E o que está a ser feito, sobretudo em termos sanitários, por profissionais abnegados, prova que temos qualidades muito mais valiosas e não devemos ficar resumidos ao papel de destino turístico. Temos segurança, civismo e competência, por muito que, por vezes, também haja deceções vergonhosas, como foi o caso do assassínio ignóbil de um cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa…

Como foi possível assistirmos a tantos contágios e mortes em lares e residências de idosos? Quem falhou aqui?
Sei muito pouco sobre isso, mas gostava que os entendidos na matéria, do Estado aos responsáveis por estas instituições, explicassem por que razão isto rebentou em força nos lares. Que razões, que deficiências levaram a que os idosos não fossem salvaguardados? Não estará o Estado, ele próprio, interessado em saber qual é a sua quota de responsabilidade? Tenho, pelo menos, a certeza de que os responsáveis não estarão todos pendurados no Estado. Será que tudo foi prevenido como deveria ter sido em algumas destas instituições? Eu não tenho preconceitos, só ignorância. E, como ignorante, pergunto. A verdade é esta: por todas as razões, os idosos são os mais fragilizados. Têm dificuldade em avaliar todos os perigos, alguns já nem estão em condições de o fazer, e a sua capacidade depressiva é muito grande. Muitos estão numa espécie de infantilidade, com todo o respeito pelo seu sofrimento. E isso é mais uma árdua responsabilidade para quem os acompanha e pastoreia.

Alguns já descobriram que somos mais do que um País bonito, com pessoas acolhedoras e boa gastronomia. Temos qualidades mais valiosas e não devemos resumir-nos ao turismo

Dizem-nos todos os dias para ficar em casa. E quem não tem casa?
Pois, mesmo alguns presos que agora foram, e bem, libertados, não têm para onde ir. Outros que podiam sair preferem continuar na cadeia pelos mesmos motivos. Mesmo nos lares, há muitos idosos que não têm casa para onde ir. Situação idêntica é a dos sem-abrigo. E continuo a acreditar que a maioria, na verdade, precisa de outro tipo de ajuda e de abrigo. Algo que lhes permita mudar de vida e promova a sua dignidade enquanto seres humanos.

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