“O inimigo é oculto e está entre nós. De certa maneira, já vivemos isso na Guerra Fria, com o medo das espionagens”

Foto: Diana Tinoco

Antes que lhe chamem pessimista, António Araújo diz que a sua perspetiva sobre a pandemia que estamos a viver é apenas realista. Uma guerra contra o novo coronavírus que nos mobilizou para estarmos quietos e que, num ápice, reduziu a nossa vida global à escala de um casulo. O historiador – autor de diversos livros sobre Ciência Política e História Contemporânea, consultor da Presidência da República e diretor de publicações da Fundação Francisco Manuel dos Santos – também não tem grandes ilusões sobre a hipótese de virmos a ter um pós-guerra glorioso. Nasceu no auge dos anos 60, em 1966, na Era do Aquário, precisamente.

Quando falamos em voltar à vida “normal”, ainda estamos iludidos quanto ao facto de a vida poder vir a ser como era antes da covid-19?
Não é uma questão de estarmos iludidos. Até porque, no essencial, a vida normal mantém-se. O que houve foi uma suspensão da vida que julgávamos que era “normal”. E agora começamos a aprender que o essencial, afinal, não é o que julgávamos “normal”. Pode parecer um jogo de palavras, mas não é. O essencial não é a vida laboral, é a vida familiar, o estatuto de cada um, a relação que temos com os outros. Tudo isso se mantém. As pessoas não se zangaram, tiveram apenas de se afastar.

Os nossos contactos deixaram de ser presenciais.
Sim, mas as pessoas não se zangaram, tiveram apenas de se afastar. O essencial, que é a pessoa querer manter-se viva e feliz, não mudou. As pessoas não entraram num estado de niilismo suicidário, estão a querer preservar a sua saúde física e mental. E por isso é que, na medida do possível, respeitam as ordens da quarentena. Pode parecer paradoxal, mas o facto de a quarentena se manter é a prova de que o essencial se mantém.

Isso é uma mensagem tranquilizadora?
De modo algum. Porque a outra parte da “normalidade”, a parte mais superficial e supérflua, digamos, essa, sofreu um abalo irreversível. Por exemplo, o mundo do trabalho não vai voltar a ser o mesmo, a cultura do papel vai sofrer uma erosão muito grande.

Como é que um historiador olha para esta pandemia?
Do ponto de vista de um historiador, pode ser interessante olhar para o conjuntural e para o estrutural. A sede de contactar fisicamente com os outros mantém-se, por exemplo. O que não sabemos (e acho que ninguém de bom senso consegue dizê-lo…) é o que vai sobrar quando estivermos na fase de rescaldo. Há coisas que, naturalmente, se vão perder, e isso dependerá muito da duração da atual conjuntura. Para ser muito simples: se as pessoas deixam de consumir as versões em papel dos jornais, os jornais deixam de as publicar. Portanto, o que ainda não sabemos é o que vai ficar estruturalizado nesta crise.

Mas isso não é uma questão nova. Aliás, tal como os problemas do mundo do trabalho.
Claro, só falamos na covid-19, mas quando falamos na covid-19 também falamos de outras questões. A pandemia apenas sublinhou a um traço mais grosso todas as discussões que já vinham sendo feitas: sobre a Inteligência Artificial, a cultura do papel, o mundo do trabalho, o teletrabalho, o ambiente, a sustentabilidade… até a eutanásia, se quisermos, pode ser convocada para este debate. Estas ocasiões são ocasiões em que há como que uma espécie de suspensão do tempo. Parece que vivemos num tempo suspenso. Mas, simultaneamente, também parece que vivemos num tempo mais acelerado. Todas as questões que estavam na agenda aceleraram, os problemas tornaram-se mais prementes, as interrogações mais urgentes.

Quer dar um exemplo?
Os problemas da automação do trabalho, da destruição dos postos de trabalho e do teletrabalho tornaram–se muito mais prementes. Por exemplo, perante um acontecimento destes, as pessoas da minha geração terão de ir para a reforma muito mais cedo, porque a pressão para a empregabilidade dos jovens vai ser muito maior. A geração que tem agora 40/50 anos, se calhar, vai ter de se reformar muito mais cedo porque a pressão para a empregabilidade dos jovens, que já existia, será acelerada.

Nesse aspeto, a covid-19 tem sacrificado sobretudo as gerações mais velhas.
Isso é a questão da vitimização seletiva. O fundamental é que existe uma igualização do sofrimento porque, como sempre acontece nestas coisas, tanto vão sofrer os que morrem como os que vivem. Isto pode parecer um bocadinho tétrico, mas podemos interrogar-nos se o destino dos que morrem não é mais salvífico do que o destino dos que sobrevivem.

As respostas dadas à pandemia foram respostas nacionais. Exigiam-se respostas transnacionais?
Quando estão em fase de contenção, as pessoas atuam por círculos. Primeiro, é o círculo do seu corpo, depois é o círculo dos familiares e o círculo dos próximos, os amigos e os familiares, a seguir o da cidade, o da região e, por fim, o do Estado. E isso acontece porque o Estado-nação ainda é o referente de contenção. É Portugal, é Espanha, é Itália… Pode haver uma resposta da União Europeia, mas depois a resposta é sempre localizada. Um dos aspetos que a covid-19 veio comprovar é que, para os que diziam que o Estado-nação estava morto, as notícias da sua morte eram um bocadinho exageradas. Agora, a reconstrução nunca poderá passar por esse referencial. As pessoas nunca poderão pensar que a situação sanitária em Portugal está controlada, porque, como a globalização está estruturalizada, mesmo que a pandemia passe em Portugal, nunca passará só aqui. Não estamos sozinhos, por exemplo, nas trocas comerciais.

Temos vantagens em ser um país periférico?
Claro, beneficiamos de alguns fatores: o facto de sermos um país periférico, no extremo da Europa, com fronteiras definidas e uma coesão territorial grande. Falava-se na regionalização e também pode ser interessante convocar esse debate para aqui. A resposta a uma pandemia em países como Espanha e Itália, com as suas autonomias e regiões, é mais difícil. Não estou a dizer que sou contra a regionalização, estou apenas a comprovar que, com ela, teria sido mais complicado. Os quadros para uma situação de exceção como esta são quase são os quadros militares de uma cadeia de comando, exigindo uma enorme coesão territorial.

Os regimes autoritários são mais eficazes a lidar com o vírus?
Sim, são mais eficazes. Mas a grande questão que se coloca é: no Ocidente, até onde é que estamos dispostos a abdicar do nosso estilo de vida? Estamos dispostos a abdicar da democracia? Penso que não, não devíamos. Estamos dispostos a abdicar do consumo em prol do ambiente? Não sei até que ponto estamos disponíveis para tal. Como a China e também alguns tigres asiáticos demonstraram, o eixo do mundo já não está no Ocidente. Isso acabou. Para o bem e para o mal, o eixo do mundo passou para o Oriente.

É possível estabelecer comparações com a gripe pneumónica de 1918 quando, agora, temos a Ciência do nosso lado?
Não dá para fazer grandes comparações com 1918 porque, como é evidente, a Ciência tem outro avanço. E, por outro lado, temos a internet, que permitiu uma resposta global à pandemia e que é essencial ser preservada. Talvez a internet seja a grande arma contra a covid-19.

Na sua opinião, a metáfora da guerra ajusta-se à situação que estamos a viver?
É natural que a ideia da guerra ressurja. A expressão sempre foi muito utilizada, transformou-se num chavão quase mobilizador. Nixon teve a guerra contra o cancro, Bush tinha a guerra contra o terror. No entanto, como alguém já observou, esta é uma guerra muito singular, na medida em que as pessoas são mobilizadas para estarem imóveis. Enquanto que, nas guerras anteriores, as pessoas eram mobilizadas para estarem ativas, para irem para a frente. Uma guerra contra uma pandemia é diferente das outras guerras não só porque o inimigo é oculto mas também porque o inimigo está entre nós. De certa maneira, já vivemos isso na Guerra Fria, com o medo das espionagens. É muito diferente do inimigo de uma guerra tradicional, separado por uma trincheira ou por uma fronteira.

Parece-me difícil que esta pandemia do novo coronavírus traga um renascimento assim tão grande, só se as pessoas se reprogramassem para serem monges budistas…

Este inimigo, ao vir do Oriente para a Europa e, depois, para os Estados Unidos da América, também avança no terreno.
Sim, avança por vagas. Vimo-lo em Itália, chegou cá e, agora, está nos EUA. Conseguimos ver a sua progressão territorial como se de um exército se tratasse. Resumindo, é normal que a metáfora bélica seja utilizada, até por líderes políticos, para mobilizarem as pessoas. Por isso é que todos, cidadãos, empresas, universidades, procuram contribuir com o seu esforço como se estivéssemos numa autêntica economia de guerra.

E o que vai acontecer aos líderes políticos dessa guerra?
Normalmente, a guerra vitima os seus próprios líderes. Não se esqueça que Churchill ganhou a II Guerra Mundial, mas perdeu as eleições logo a seguir. E isto acontece porque as pessoas associam os próprios líderes ao combate e, no fim, querem a ideia de renovação, que acaba por implicar também a renovação das lideranças, por muita gratidão que haja em relação a elas. Virar a página da guerra é também virar a página das lideranças e dos sistemas tal como os conhecíamos. Agora, também não deixa de ser curioso que o vírus tenha efeitos quase virtuosos ao pôr em causa as lideranças mais negativas.

Está a falar dos líderes populistas?
Há aqui uma certa sapiência do vírus. Por exemplo, pôs em causa Putin, que não pode rever a Constituição para se perpetuar no poder. Por outro lado, os líderes mais impreparados em circunstâncias de normalidade, como Trump e Bolsonaro, também continuam a lidar com o vírus de maneira impreparada.

Continuando na metáfora bélica, o que, em seu entender, podemos esperar deste pós-guerra?
Montaigne chamava à guerra “a sangria da república” como se fosse uma purga. E nós também temos esta ideia de que, após a covid-19, após uma visão muito temerosa, teremos uma visão radiosa: os líderes maus vão acabar, o ambiente vai ficar bem, vamos todos sair daqui mais amigos uns dos outros, uma espécie de Era do Aquário.

Um maravilhoso mundo novo que há de vir?
Exatamente. É bom que as pessoas pensem assim. Mas eu, e provavelmente terei algum pessimismo, não acredito muito nisso. O mundo novo transporta sempre os elementos do antigo. Julgo que as pessoas vão voltar ao frenesim consumista em que viviam. Mesmo nestas condições, vão tentar manter o seu estilo de vida, por isso se mantêm as Uber Eats e os programas de viagens na internet. Não me parece que haja grandes possibilidades de um renascimento em massa. Porque, até agora, nada disto está a ser interpelante. Também acho que não se pode pedir demais às pessoas, pede-se-lhes apenas que sobrevivam… Por agora, podem até ficar contentes porque os níveis de dióxido de carbono baixaram, mas os níveis baixaram apenas momentaneamente, os problemas do planeta não estão resolvidos. A questão das alterações climáticas continua aí, assim como a questão do domínio da China.

Nessa perspetiva, não faz sentido falar, como já alguém disse, num ac/dc (antes da covid/ depois da covid)?
Não, ouço falar nas pessoas que agora adoram o silêncio das ruas, o barulho dos pássaros às três da manhã, a vida em família… Nunca ouvimos os pássaros, porque é que agora dizemos que estamos a reaprender a ouvi–los? Dizemos que estamos numa reaprendizagem de uma coisa que nunca vivemos, as famílias passavam o tempo nos telemóveis. Aliás, falamos como se tivéssemos vivido num tempo ex ante [uma suposição], numa Arcádia [lugar imaginário onde reina a felicidade], mas, antes da covid, nem todos eram felizes. Parece-me difícil que esta pandemia do novo coronavírus traga um renascimento assim tão grande, só se as pessoas se reprogramassem para serem monges budistas…

Olhando para a História, vemos que o pós-II Guerra Mundial também é um tempo de consumo.
Sim, louva-se a sociedade dos Trinta Anos Gloriosos do século passado, diz-se que é um tempo muito feliz, mas devemos ter presente que foi um tempo muito feliz de consumo. Depois da destruição dos nazis, as pessoas puderam voltar a celebrar e a consumir muito aceleradamente. Como, aliás, também já tinha acontecido nos “loucos anos 20”.

A pandemia apenas sublinhou a um traço mais grosso todas as discussões: a Inteligência Artificial, a cultura do papel, o mundo do trabalho, o ambiente, a sustentabilidade… Parece que vivemos num tempo suspenso. Mas, simultaneamente, todas as questões que estavam na agenda aceleraram

No ensaio Consciência de Situação, escreveu a partir de uma das mais icónicas fotografias do 11 de Setembro, a do Falling Man. Faz sentido comparar a pandemia com o ataque às Torres Gémeas?
Efetivamente, muitas das coisas que se viveram naqueles dias nos EUA, sobretudo em Nova Iorque, são parecidas com as que estamos a viver agora. Nomeadamente, o cocooning [a vida em casulos], tudo isso foi visível no facto de as emoções estarem todas à flor da pele, no reaparecimento do tricot e da literatura espiritualista, etc. É bem provável que tudo isto comece a aparecer por cá. Há, porém, uma diferença radical: no 11 de Setembro, as pessoas fechavam-se perante o inimigo, mas podiam andar na rua. E nós, agora, se formos à rua, podemos morrer. Isso deixa-nos perplexos. Para quem vive numa sociedade muito urbanizada, a rua é um espaço fundamental. Por outro lado, não sei se se recorda, pouco tempo depois do 9/11, caiu um avião em Queens. Só que as pessoas já nem ligaram. Penso que isso agora também vai acontecer a breve trecho. Daqui a 15 dias, vai tornar-se insuportável toda esta informação sobre a covid-19.

É impossível absorver esta catadupa de informação.
Há uma coisa que também não conseguimos aprender de maneira nenhuma: a viver no silêncio. Somos viciados no ruído e, apesar de o confinamento nos ter vedado quase todas as fontes de ruído, continuamos a procurá-lo. O poeta W. H. Auden falava na The Age of Anxiety. E é assimque estamos a viver este tempo: fechados em casa, mas ansiosos. E por isso precisamos de muita informação. Precisamos de nos sentir vivos e a prova de que estamos vivos é que continuamos a fazer mil e uma coisas, a receber informação em catadupa. Inclusive a desta entrevista, que espero que tenha algum interesse [risos].

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