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Mercados

27.07.2016 às 15h54
Hugo Séneca
Hugo Séneca

INESC TEC: em cada ilha, uma fonte de energia renovável

A Siemens acaba de garantir junto do INESC TEC tecnologia que permite avaliar o potencial de uma rede elétrica isolada para substituir combustível fóssil por energias renováveis
Hugo Séneca
Hugo Séneca

Mercados

27.07.2016 às 15h54

Nem todas as ilhas têm água à volta. Na gíria do setor da energia, o termo “ilha” também é usado para designar uma povoação, um sistema ou uma pequena rede elétrica que se encontra isolada da rede elétrica convencional. Historicamente, a produção de energia nessas “ilhas” tem sido entregue a geradores de combustível fóssil… até à chegada das energias renováveis com a promessa de menos custos e menos poluição. A Siemens está apostada em ajudar cada uma das estas ilhas a migrarem para as energias renováveis, e acaba de se munir de um importante aliado, como explica João Peças Lopes, administrador do INESC TEC numa pequena entrevista à Exame Informática.

Quais os propósitos do contrato assinado pelo Inesc Tec e pela Siemens?

Este contrato visa o desenvolvimento de um modelo de simulação e metodologias de cálculo para redes isoladas, ou micro-redes. O objetivo é tentar maximizar a integração de produção de energia renovável, como as eólicas e as fotovoltaicas. Explorando uma plataforma que a Siemens colocou no mercado com a denominação Power PSSE vamos desenvolver modelos que representam essas novas fontes de energia para a produção de eletricidade. Vamos integrar essas fontes nesse ambiente da Siemens e definir uma metodologia que permite fazer os cálculos que avaliam as possibilidades de integração de níveis de produção de energia renováveis, que vêm de sistemas isolados. É algo muito orientado para ilhas, que não têm de estar rodeadas de água por todos os lados, ma podem ser ilhas do ponto de vista elétrico, porque estão isoladas. Este é o objetivo do contrato.

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João Peças Lopes, administrador INESC TEC

As micro-redes vêm para ficar?

Este trabalho está muito orientado para redes isoladas, que serão centenas ou milhares nesse mundo fora e que só têm eletricidade devido à queima de combustíveis fósseis (em geradores ou outros soluções). O que se pretende fazer é reduzir ou mesmo substituir integralmente essa produção de eletricidade que usa combustíveis fósseis que são caros e poluentes e que exigem transporte para os locais onde vão ser consumidos, podem ser substituídos por fontes de energia renováveis dentro do que é possível. Só que para isso temos de avaliar se o sistema tem robustez suficiente. E é isso que esta plataforma de simulação e a metodologia que desenvolvemos vai disponibilizar. Isto é muito orientado para um mercado que a Siemens quer explorar, onde tem grandes oportunidades… porque há muitos destes casos (no mundo).

Se é necessário fazer simulações para conhecer a viabilidade de uma solução, então temos de concluir que, em alguns casos, os combustíveis fósseis ainda compensam face às energias renováveis…

Sim, ainda há casos em que compensará. A dificuldade está em garantir que se continua a assegurar junto dos clientes a eletricidade e a qualidade de serviço que são requeridas. As energias eólicas e fotovoltaicas padecem de um problema que é a variabilidade temporal e os consumos de eletricidade não toleram essa variabilidade temporal. Quando as pessoas ligam o interruptor querem que haja energia elétrica, independentemente de haver ou não sol ou vento. E para ter essa certeza é necessário recorrer a armazenamento ou outras soluções, que permitem garantir que todos os consumos são alimentados com a qualidade que é requerida.

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As energias renováveis são mas baratas e menos poluentes

Presume-se que a metodologia criada no INESC TEC tem em conta a exposição solar, períodos de vento, capacidade de armazenamento das baterias…

Sim, mas fundamentalmente tem em conta a robustez do sistema em termos elétricos para acomodar estas novas tecnologias, que têm o problema da variabilidade temporal. Estas tecnologias têm ainda mais uma particularidade: normalmente, recorrem a conversores baseados em eletrónica de potência, enquanto a maior produção de energia convencional recorre a máquinas síncronas. O que significa que estou a introduzir no sistema elétrico um elemento novo que tem particularidades especiais e que é necessário saber se tem ou não viabilidade.

Esta tecnologia não poderia expandir-se para lá das micro-redes e chegar às rede convencionais?

Fazemos isto com o conhecimento desenvolvido ao longo dos anos… a Siemens encontrou no INESC TEC pessoas que têm o conhecimento e que dão garantias de fazer bem as coisas. E por isso solicitou-nos o desenvolvimento de um produto que possa ser explorado no mercado, com o objetivo de avaliar qual o potencial para a integração destas tecnologias renováveis… sendo que acessoriamente terão de ser usados sistemas de controlo e gestão que a Siemens deverá fornecer. Esta é uma ferramenta que a Siemens poderá usar para potenciar as oportunidades que existem no mercado. Há muito tempo que já fazemos aquilo que vamos passar a fazer com a Siemens – só que agora vamos apresentá-lo sob a forma de um produto comercial que a Siemens vai explorar. Isto não tem nada de novo. Vai ser apenas a assemblagem de componentes que são transformados em modelos, que são integrados numa plataforma da Siemens que permite fazer simulações – e que podem ser apresentados aos operadores das redes. Há muitos anos que fazemos este trabalho – mas sob a forma de consultoria, analisando caso a caso e peça a peça. Já o fizemos, nos Açores, Cabo Verde, ilhas gregas, etc.. Com o contrato agora assinado, a Siemens passa a ter uma ferramenta que permite chegar a conclusões sem ter de recorrer a uma consultoria especializada.

CAPA DA EDIÇÃO

Capa Exame Informática 297

Exame Informática Nº 297, março

Exame Informática Semanal 140

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