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Quem votou nos partidos pequenos?

Inconsistência Problemática

A próxima legislatura contará com três novos partidos no Parlamento. Os analistas políticos têm múltiplas teorias acerca daquilo que os fez crescer. A VISÃO foi tentar perceber quem votou neles

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Como já fizemos para as eleições europeias, é importante avisar que não é possível tirar daqui conclusões de causalidade. Não conseguimos dizer se os ricos das grandes cidades votaram na Iniciativa Liberal. O que podemos fazer é comparar o perfil dos concelhos onde tiveram melhor/pior desempenho e compará-lo com os restantes partidos eleitos para a Assembleia da República. Nalguns casos, as diferenças são bastante claras, noutros nem por isso.

Este exercício só foi possível com a disponibilização dos votos por freguesia pela Renascença e posteriormente transpostos para concelhos por Alexandre Afonso, professor da Universidade de Leiden. Ele próprio fez alguns exercícios, que podem ver aqui.

O primeiro indicador para que vale a pena olhar é a densidade populacional. As diferenças são evidentes entre o perfil dos três estreantes no Parlamento. Enquanto que, para o Livre e a Iniciativa Liberal, quanto maior densidade do concelho, maior tende a ser votação, para o Chega essa relação não parece existir, apesar dos bons resultados nos densos subúrbios de Lisboa (Amadora, Loures, Odivelas, Loures…).

De referir que os gráficos em baixo têm escalas diferentes no eixo vertical e seguem uma escala logarítmica no horizontal, o que permite visualizar melhor a distribuição de cada partido. Isso vai repetir-se noutros gráficos.

Para não nos ficarmos pelos partidos pequenos, vale também a pena olhar para os que têm uma dimensão média. CDU, CDS, Bloco e PAN dividem-se claramente em dois grupos com características distintas (excluímos PS e PSD porque são menos interessantes de analisar com estes dados).

O gráfico seguinte, ainda de densidade populacional, mostra como o perfil da CDU é semelhante ao do CDS no cruzamento com este tema. Nenhum deles parece ganhar mais votos em zonas mais densas. Por outro lado, é precisamente isso que acontece com o Bloco de Esquerda e o PAN. Aliás, este último, é mesmo o partido com a relação mais forte com este indicador - alguns dos seus melhores resultados chegaram de Almada, Oeiras e Sintra -, mais ainda do que o Livre e a Iniciativa Liberal, dois partidos que apostaram tudo em Lisboa e Porto.

O caso do Bloco de Esquerda é interessante. A sua relação com a densidade populacional não é tão forte como no Livre, Iniciativa Liberal ou o PAN e ela parece estar a diminuir face aos últimos anos, algo que já se tinha verificado nas europeias. Isto pode significar uma perda de penetração no meio urbano ou um sinal amadurecimento do partido, que consegue chegar onde antes não era capaz, deixando-o menos dependente desse voto.

Estes contrastes continuam a observar-se quando utilizamos outro indicador, como o número de licenciados. Tanto o Livre como a Iniciativa Liberal dão-se melhor em municípios com percentagens mais elevadas de licenciados na população residente. O Chega nem por isso.

Entre os quatro partidos com direito a formar grupo parlamentar, mantém-se a diferença entre CDU/CDS e BE/PAN, com os segundos a apresentarem uma relação muito mais forte com a escolaridade dos eleitores.

Envelhecimento e reformados

O INE tem também dados que permitem aferir o nível de envelhecimento populacional de cada concelho, através de um indicador que, apropriadamente, se chama “índice de envelhecimento” (número de pessoas com mais de 65 por cada 100 com menos de 15). Neste caso, quanto mais marcada for a linha de descida, mais forte é a relação. Isto é, o facto de a linha no gráfico do Livre e da Iniciativa Liberal ter um ângulo de descida mais forte significa que, tendencialmente, têm resultados mais fracos em municípios mais envelhecidos. Atenção: não estamos a dizer que os mais velhos votam menos nestes partidos. Até pode ser assim, mas os dados não nos permitem ir tão longe (e a relação é fraca). O que sabemos é que a ligação é mais fraca com o Chega. O envelhecimento não o parece afetar tanto.

No segundo grupo de partidos, os votos no CDS e na CDU também praticamente não reagem ao nível mais ou menos alto de envelhecimento de cada município. Os melhores resultados os comunistas aparecem em concelhos a meio da tabela do envelhecimento, como Serpa ou Mora. Por outro lado, a relação é mais forte no caso do BE e, principalmente, do PAN. Entre todos os partidos analisados, este último é, de longe, aquele cujo envelhecimento dos concelhos para ser mais relevante para explicar os seus resultados. Os municípios algarvios onde o PAN foi bem-sucedido estão também entre os mais jovens.

Se fizermos o mesmo exercício com a percentagem de pensionistas na população total, obtemos conclusões muito parecidas, mas com diferenças ainda mais claras entre Livre e Iniciativa Liberal vs. Chega.

Entre os restantes quatro partidos acontece o mesmo: CDU e CDS parecem distinguir-se ainda mais de BE e PAN.

Salários

É também possível cruzar o desempenho de cada partido com o salário médio de cada município. O gráfico não é totalmente claro, mas também aqui há uma disparidade assinalável no primeiro grupo de partidos. Grande parte dos melhores resultados do Chega ocorrem em municípios com ganhos médios inferiores a mil euros (Loures é uma das exceções). Para Livre e Iniciativa Liberal, alguns dos melhores resultados chegam onde os portugueses ganham mais. Lisboa e Oeiras aplicam-se a ambos, Cascais à IL, Amadora ao Livre.

BE e PAN apresentam relações com os salários semelhantes ao Livre e à IL, enquanto a CDU tem um perfil parecido com o Chega. O desempenho do CDS não parece ser influenciado pelo ganho médio do município (o que não quer dizer que não fosse um fator importante, caso olhássemos à situação individual de cada eleitor).

População estrangeira

Para o final, começamos a entrar em terreno de análise mais pantanoso. Mas aproveitando o facto de o Chega ter um discurso anti-imigração, decidimos olhar para a população estrangeira de cada município em percentagem da população total. Previsivelmente, não podemos retirar conclusões muito assertivas. A votação no partido de André Ventura apresenta uma relação mais forte com a percentagem de população estrangeira, mas a diferença não é enorme.

Mais: o PAN tem até uma relação mais robusta com essa variável. O que é que isso nos diz? Pensando bem, esta variável pode até ajudar-nos a refletir sobre as limitações desta análise. Nós não sabemos o que está por trás destas relações, mas podemos estar mais ou menos confiantes que, a existir uma relação entre população estrangeira a votação no PAN e no Chega, ela não será provavelmente pelos mesmos motivos. É necessário cautela nas interpretações.

Se fizemos um exercício semelhante com o número de crimes por cada mil habitantes, essa cautela continua a aplicar-se. Ainda assim, não deixa de ser interessante verificar que, embora o voto em nenhum dos três novos partidos na AR tenha uma relação significativa com esse indicador, o Chega é aquela que tem a relação mais fraca, apesar de ter claramente o discurso mais securitário.

Ao analisar, os quatro partidos médios, também neste caso, ficam expostas as diferenças de perfil entre CDU/CDS e BE/PAN, fruto da natureza mais urbana dos segundos.

Esta é apenas uma pequena fatia das análises que podem ser feitas com os dados das eleições. Pedro Magalhães e o ICS concentraram-se essencialmente nas diferenças dos partidos face a eleições anteriores.

Com uma natureza mais geográfica, estes dados também podem ser bastante elucidativos.