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Um planeta mais quente roubará quanto à economia portuguesa?

Inconsistência Problemática

Um novo estudo conclui que a subida das temperaturas terá efeitos económicos mais profundos do que se julgava e que todos os países do mundo os sentirão. Cumprir o Acordo de Paris faria uma enorme diferença

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Vamos todos sofrer. Pobres, ricos, quentes, frios. Ao contrário do que se julgava, a economia de todos os países do mundo será prejudicada pelos efeitos do aquecimento global. E Portugal não irá obviamente escapar. Se o mundo continuar a aquecer 0,04 graus celsius ao ano, o PIB per capita português perderá 7,8% até 2100.

Essa é a conclusão de um estudo publicado há poucos dias no National Bureau of Economic Research (NBER). Isso significa uma perda de 1 em cada 13 euros de riqueza produzida pelo país. Pode não parecer muito, mas, por comparação, um Brexit sem acordo, visto como um desenvolvimento dramático, tiraria “apenas” 0,4% PIB à economia portuguesa. O PIB per capita nacional cresceu quase 8% entre 2005 e 2018, portanto pode ser o equivalente a um recuo de 13 anos.

Portugal não está no topo da lista dos mais afetados, mas fica acima da média mundial e há poucos países europeus com uma estimativa de impacto superior. Veja em baixo quais serão os países mais prejudicados, via contração do PIB per capita:

O mapa também faz parte do estudo assinado por Matthew E. Kahn e Kamiar Mohades, da Universidade da Califórnia do Sul e da Universidade de Cambridge, em conjunto com outros quatro autores. Os académicos olharam para variáveis como a temperatura e a precipitação e relacionaram-nas com o desempenho económico. São analisados 174 países e a evolução de métricas económicas e ambientais entre 1960 e 2014, estimando depois o impacto económico – via PIB per capita - das alterações climáticas até 2100.

Aparentemente, os problemas económicos não virão da precipitação. Os autores não encontraram efeitos significativos nas flutuações das chuvas. Mas chocaram de frente com eles quando chegaram às temperaturas. Caso o mundo aqueça 0,04 graus ao ano, sem novas políticas que travem essa escalada, o PIB per capita do mundo será penalizado em 7,22% até 2100. Por outro lado, se o Acordo de Paris for cumprido – e o aquecimento não ultrapassar os 0,01 graus/ano -, esse impacto não desaparecerá, mas será limitado a 1,07%.

Este tipo de cálculo já foi realizado noutros estudos, mas poucos se aventuram a fazer previsões país a país. E existem muitas diferenças entre eles. O paper apresenta estimativas para cada um dos 174 países que analisou. Portugal, que perderá os já referidos 7,8%, fica acima da média mundial, mas longe das nações mais afetadas. Butão e Montenegro deverão ser os mais penalizados, com perdas superiores a 17,5% do seu PIB per capita. Entre aqueles que apresentam quebras superiores a 10% estão Suíça, Grécia, Coreia do Sul, Chile, Japão e EUA.

“Seja por arrefecimentos súbitos ou vagas de calor, secas, inundações ou desastres naturais, todos os desvios nas condições climatéricas face às referências históricas têm efeitos económicos adversos”, explicou Kamiar Mohaddes. O Canadá, por exemplo, está a aquecer duas vezes mais rápido do que o resto o mundo, o que traz riscos para as suas infraestruturas, comunidades costeiras e no norte do país, a saúde e bem-estar da população, para os ecossistemas e para a pesca. Tudo isso tem um custo. “O Reino Unido teve recentemente o seu dia mais quente de sempre. Os carris dos comboios dobraram, as estradas derreteram, milhares de pessoas ficaram presas por ser tão fora do normal. Este tipo de acontecimentos tem consequências económicas e serão mais frequentes e graves se não existirem medidas focadas nas ameaças das alterações climáticas.”

Por outro lado, há países que praticamente não vão sentir o impacto destas mudanças. É o caso da Líbia, Tunísia, Nicarágua, Islândia e Finlândia. O estudo aponta para um impacto económico de 1% ou menos nesses casos. Em dois deles – Bahamas e Ilhas Virgens Americanas - até se chega a um ligeiríssimo efeito positivo.

Cumprir Paris

A literatura académica sobre este tema aponta normalmente para duas conclusões: os países mais pobres (tendencialmente mais quentes) perdem dinamismo económico com a subida das temperaturas, mas os ricos (clima temperado) quase não a sentem no bolso. Mais: mesmo quando existem, os efeitos são pouco significativos. Este estudo coloca essas três ideias em causa. “Por contraste, as nossas estimativas contrafactuais sugerem que todas as regiões do mundo (frias ou quentes, ricas ou pobres) vão experienciar uma grande queda do PIB per capita até 2100, sem que haja mudança nas políticas”, escrevem os autores.

Os países ricos são afetados porque “a economia das mudanças climáticas vai para além do impacto nas colheitas”, nota Mohaddes. “Chuvas intensas impedem o acesso às minas nas montanhas e afeta o preço das matérias-primas. Arrefecimentos rápidos aumentam a despesa com aquecimento e diminuem os gastos de rua. Ondas de calor provocam o colapso dos sistemas de transportes.”

Tudo somado, Mohaddes diz que “a ideia de que os países ricos com climas temperados são economicamente imunes às mudanças climáticas, ou poderiam até duplicar ou triplicar a riqueza, parece implausível”. No seu caso, é natural da Suécia, um país que alguns esperam que até beneficie da subida das temperaturas. “Mas o que acontecerá aos desportos de inverno dos quais depende a indústria turística da Suécia?”, questiona. O estudo antecipa que o PIB per capita sueco seja penalizado em 2,7%.

A dimensão do impacto agora estimado é superior àquele que os responsáveis políticos normalmente utilizam para decidir como atuar. Na base das negociações internacionais está normalmente a ideia de que subidas de temperaturas têm apenas um efeito de curto-prazo no crescimento. Mas estes novos dados sugerem que o impacto é de longo-prazo. Mais: aqueles que argumentam que os países se vão adaptando a este novo clima podem estar a sobrestimar esse efeito. Ele existe, mas não será capaz de eliminar os efeitos negativos.

“Portanto, as nossas conclusões pedem uma resposta política mais energética à ameaça das alterações climáticas, incluindo esforços mais ambiciosos de mitigação e adaptação”, pode ler-se no texto do estudo. Um bom começo seria garantir que os objetivos de Paris são cumpridos. “Cumprir o Acordo de Paris seria um grande avanço na limitação das perdas provocadas pelas mudanças climáticas em quase todos os países.”

Recorde-se que o Presidente dos Estados Unidos prometeu, em 2017, retirar o país desse acordo internacional, o que muitos viram como uma ferida de morte no acordo e no esforço de limitação da emissão de gases com efeito de estufa. O acordo tem como objetivo central impedir que o planeta aqueça mais de dois graus face aos níveis pré-industriais.

Segundo este estudo, se continuarmos business as usual, a economia dos EUA deverá ser penalizada em 10,5% até 2100.

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