A maior parte dos países europeus começa aos poucos a sair do confinamento na esperança de reativar a economia. Mas, a julgar pela experiência chinesa, o regresso do investimento de empresas e do consumo das famílias poderá demorar a arrancar. A China começou a desconfinar a 24 de março (8 de abril em Wuhan) e os economistas procuram pistas no que tem acontecido na segunda maior economia do mundo para poderem ajustar as estimativas de atividade para outros países.
Os indícios não são muito animadores. As exportações daquele país desceram 6,4% nos primeiros quatro meses do ano e dão poucos sinais de melhoria devido à quebra da procura na Europa e nos EUA. Também o consumo e o investimento das famílias e empresas chinesas não dão mostras de grandes recuperações, apesar de a economia já estar desconfinada há algumas semanas. Não é por acaso que, pela primeira vez em décadas, Pequim não estabelece uma meta oficial para o crescimento. Isto depois de a economia ter contraído 6,8% no primeiro trimestre. Foi a primeira quebra em 28 anos.
Apesar de os gastos dos consumidores terem recuperado dos níveis de fevereiro e de março, a retoma continua a ser fraca
Jing ning, gestor da Fidelity International
“Apesar de os gastos dos consumidores terem recuperado dos níveis de fevereiro e de março, a retoma continua a ser fraca e irregular. A incerteza sobre as perspetivas económicas e as preocupações sobre uma segunda vaga do vírus estão a limitar as compras e é irrealista esperar uma recuperação em V do consumo para impulsionar o crescimento do PIB”, considerou Jing Ning, gestor da Fidelity International, numa nota a investidores.
Também Patrick Artus, economista do Natixis, nota que os consumidores chineses estão cautelosos. Num relatório, indica que as vendas a retalho continuam fracas, as importações mantêm-se deprimidas, a produção de bens duradouros teve apenas uma recuperação modesta e os preços do imobiliário continuam tímidos. Mas há exceções. As vendas de automóveis aumentaram devido aos incentivos fiscais e ao receio de se utilizarem transportes públicos.
Empresas limitam investimento. Pequim responde com betão
Já do lado das empresas, Patrick Artus nota que o investimento continua fraco e que apesar de os dados oficiais da taxa de desemprego apontarem para uma subida de 0,7%, há indícios de que os estragos podem ser bem maiores. E, tirando o setor automóvel, tanto o têxtil como a construção estão bem longe de darem sinais de vitalidade. Jing Ning realça que “em geral, os empresários sentem-se relutantes em expandir devido à pouca procura”. Além disso, aponta o gestor de ativos, “as tensões comerciais entre a China e os EUA têm causado mossa na confiança empresarial”.
O consumo e os setores dos serviços foram fortemente atingidos e demorarão mais tempo a regressar ao normal
Moody’s
Ainda assim, a Moody’s acredita que a produção industrial poderá voltar ao normal no segundo semestre do ano. Mas a agência avisa que “o consumo e os setores dos serviços foram fortemente atingidos e demorarão mais tempo a regressar ao normal”.
Já com mais de dois meses de desconfinamento, a China é um exemplo de como será difícil recuperar desta paralisação súbita da economia. “A situação está a levar as autoridades chinesas a embarcar em políticas orçamentais e monetárias ainda mais expansionistas”, afirma Patrick Artus. Esse é o guião que terá de ser seguido um pouco por todo o mundo. Será preciso que governos e bancos centrais injetem biliões de euros para conseguirem tirar a economia do precipício em que caiu.
No caso de Pequim, a aposta deverá passar por reerguer a economia com muito betão. “Vejo a despesa em infraestruturas como a mais proeminente arma contracíclica no arsenal da China”, defende Jing Ning. Justifica que apesar de esse caminho “ser um risco para o aumento do endividamento, os projetos de infraestruturas tende a trazer benefícios imediatos e a impulsionar o crescimento”. O grande objetivo, realça o gestor da Fidelity International, é “preservar empregos e manter a estabilidade social”.
A execução da política de betão deverá ficar a cargo de empresas públicas, o que poderá resultar na criação de elefantes brancos com poucos benefícios económicos de longo prazo. Mas além do investimento em infraestruturas deste tipo, como estradas e pontes, Pequim está também de olho noutro tipo de apostas em que prevalece mais a tecnologia do que o betão, casos de unidades de tratamento de água, das redes 5G e de projetos de energias renováveis.