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O depois do adeus de Mario Draghi

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DANIEL ROLAND/ Getty Images

O banqueiro central assegurou a coesão do euro, mas abriu divisões no BCE e não atingiu as metas para a inflação. A principal tarefa de Lagarde é unir o Conselho de Governadores e reavaliar o conceito da estabilidade de preços.

Rui Barroso

Rui Barroso

Jornalista

A grande vitória de Mario Draghi na liderança do Banco Central Europeu é, provavelmente, também o maior risco de maldição para o seu legado. Nos oito anos à frente da instituição, o banqueiro central italiano testou os limites da política para apoiar a economia. A receita resultou e impediu a Zona Euro de implodir em 2012. O BCE ainda ensaiou a retirada dessas medidas extraordinárias, mas estas tornaram-se no normal o que motiva críticas cada vez mais fortes sobre os riscos de ter as taxas de juro em valores negativos e de o banco central continuar a comprar dívida pública.

Contestações à parte, a Zona Euro está numa situação completamente diferente do que a que Draghi encontrou quando assumiu as rédeas do BCE em novembro de 2011. Nessa data, havia três países sob programas de resgate (Grécia, Irlanda e Portugal) e os mercados financeiros apostavam cada vez mais fichas que a Zona Euro iria ser desmantelada. Na resposta a essa pressão, o presidente do BCE fez um discurso que ficará na História. Com apenas três palavras, whatever it takes (tudo o que for preciso), conseguiu colocar os mercados em sentido e dar início ao fim da crise existencial da Zona Euro em julho de 2012.

Draghi especializou-se em gerir as expectativas dos mercados financeiros com o poder da retórica e desincentivou as apostas para os que se preparavam para lucrar com um desmembramento da Zona Euro. Na despedida, reconheceu que “a comunicação tornou-se uma ferramenta de política monetária”. Apesar de algumas vezes os investidores terem ficado a pensar se o BCE estaria a fazer bluff, na hora da verdade o banco central não se acanhou e passou à prática medidas que seriam impensáveis (e ainda são difíceis de aceitar em países como a Alemanha), como trazer as taxas de juro para níveis negativos e fazer compras maciças de dívida pública.

Carlos Costa disse, no jantar de despedida de Mario Draghi, que “o BCE salvou efetivamente o euro”. O governador do Banco de Portugal fez o discurso de despedida por ser o membro que está há mais tempo no Conselho de Governadores do BCE. A maior parte dos economistas também considera que o italiano salvou a moeda única, apesar de as medidas dos últimos tempos estarem longe de ser consensuais.

De corte em corte até aos juros abaixo de 0%

O levantamento feito por Frederik Ducrozet, economista da Pictet Wealth Management, é revelador de como Draghi foi bem além das palavras e testou os limites da política monetária e do mandato do BCE. Cortou os juros oito vezes para mínimos históricos (a taxa de depósito está em valores negativos), dez anúncios relacionado com o programa alargado de compras de ativos, seis anúncios de empréstimos ilimitados e a custo zero para os bancos, compras de ativos no valor de 2,6 biliões (milhões de milhões de euros) e a duplicação do balanço do BCE. É o primeiro presidente do banco central a terminar o mandato sem ter feito nenhuma subida dos juros.

O resultado destas políticas foi tirar a Zona Euro da recessão, ajudar à criação de 11 milhões postos de trabalho e acabar com os problemas de financiamento em todo o bloco. A título de exemplo, quando Draghi chegou ao BCE, os investidores exigiam juros primitivos para financiar Portugal ou a Grécia (12% e 28%, respetivamente, em dívida a dez anos). Atualmente estão dispostos a emprestar nesse prazo com juros de 0,18% e 1,23%. Em maturidades mais curtas até aceitam perder dinheiro para poderem alocar dinheiro na dívida nacional, por exemplo.

O banco central passou a ser o principal comprador de dívida pública na Zona Euro. No caso de Portugal, detém 39,5 mil milhões de euros, o equivalente a 26% da dívida nacional que é negociada nos mercados financeiros. “Sob a presidência de Mario Draghi, a união monetária foi salva, a deflação foi evitada, o desemprego desceu e o apoio popular ao euro subiu para recordes históricos apesar da crescente fragmentação política”, considera Frederik Ducrozet, numa nota a investidores. O economista, que apelida Mario Draghi de “maestro”, considera que “a determinação em cumprir com o seu mandato e o compromisso de fazer tudo o que for preciso dentro do mandato possibilitaram ao banco central o maior ativo: a sua credibilidade”.

O efeito destas medidas foi a queda dos juros para quem está a pagar empréstimos a taxa variável. O reverso da moeda é a falta de alternativas para quem quer poupar. As opções mais seguras, como depósitos rendem pouco mais que 0% e para se ter algum retorno tem de se enveredar por ativos mais arriscados. Os juros próximo de 0% são uma das explicações para o risco de bolha no setor imobiliário, por exemplo. Draghi disse ter consciência dos riscos que este tipo de política pode ter. Mas considerou que os efeitos positivos na economia compensam os efeitos colaterais adversos.

O passo atrás, a frustração e as críticas

Apesar de ter garantido que a Zona Euro permaneceria coesa, Draghi não conseguiu fazer o mesmo no seio do Conselho de Governadores, o órgão que discute as decisões de política monetária. Ao longo dos últimos oito anos algumas das decisões do BCE foram questionadas por banqueiros centrais que defendem políticas mais ortodoxas, os chamados falcões. Mas na maior parte das vezes, esses desentendimentos não saem das salas de reunião.

No entanto, em setembro, o BCE anunciou mais um corte na taxa de depósitos para -0,50% e o reinício das compras líquidas por tempo indeterminado. Essas medidas foram criticadas publicamente por alguns dos banqueiros centrais com maior peso, como Jens Weidmann do Bundesbank ou Klaas Knot, líder do banco central holandês.“Os presidentes de bancos centrais que representam pelo menos 60% do PIB da Zona Euro foram contra, a que se juntam pelo menos dois membros do Comité Executivo do BCE. Isto levanta questões sobre a legitimidade da decisão e sobre até que ponto o Conselho pode acordar em expandir as compras” realçaram os economistas da Capital Economics numa nota a investidores.

Na despedida, Draghi tentou desvalorizar os desentendimentos. “Toda a gente tem discussões e desacordos e algumas vezes isso é tornado público e outras não. Não foi a primeira vez que isso acontecer. Encaro isto como parte do debate sobre as políticas”. Garantiu que depois da divisão de setembro, na reunião da despedida houve unanimidade e consciência sobre a necessidade de se demonstrar união.

Mesmo que justificadas, as medidas anunciadas no mês passado foram a oficialização do grande passo atrás que Draghi e o BCE tiveram de dar. Foram forçados a interromper o plano de trazer, aos poucos, os juros para níveis mais normais. “É verdade que durante 2017, gradualmente, fizemos a preparação para sair desta orientação. Mas as condições mudaram e o que prevalece sobre tudo o resto é a determinação em cumprir com o mandato”, disse Mario Draghi, na sua última conferência como presidente do BCE. Não quis apontar decisões de que se tenha arrependido, explicando

O banco central tem como objetivo garantir que a inflação fique perto mas abaixo de 2%. E, apesar de toda a artilharia que o BCE utilizou, aparenta ter falhado nesse ponto. “Mario Draghi deixa o BCE tendo aparentemente falhado em trazer a inflação para perto da meta de 2% e com o sentimento de trabalho inacabado, se não mesmo de frustração, já que a sua pressão para uma política orçamental mais ativa continua incerta”, considera Frederik Ducrozet.

Draghi tem pedido aos governos que utilizem a margem orçamental para estimular a economia e que a política monetária, por si só, não chega para garantir uma evolução saudável e sustentada da economia. Mas a resposta não tem sido a mais positiva. A locomotiva da Europa, a Alemanha, tem hesitado em utilizar estímulos orçamentais apesar dos excedente que gera e dos sinais de recessão.

A passagem de testemunho

Draghi não abriu o jogo sobre o que irá fazer após a saída do BCE. “Perguntem à minha esposa, que saberá melhor que eu”, respondeu. Mas no banco central, os membros do Conselho de Governadores já se movimentam para tentar influenciar a política monetária que será seguida a partir do início de novembro, quando Christine Lagarde assumir a liderança do banco central. Segundo o Financial Times, os líderes dos bancos centrais da Alemanha, França, Holanda e Áustria têm feito intervenções a pedir mudanças.

O homem que salvou o euro e que já foi chamado de Super-Mário disse não ter conselhos a dar a Lagarde. “Ela sabe muito bem o que fazer”. Mas a antiga diretora-geral do FMI parece já ter um delicado caderno de encargos. “As principais tarefas de Christine Lagarde serão acabar com o diferendo entre falcões e pombas no Conselho de Governadores e iniciar uma avaliação estratégica que podem levar à recalibração da definição de estabilidade de preços e analisar se as políticas monetárias dos últimos meses ainda são efetivas”, afirma Carsten Brzeski, economista do ING, num relatório. Já Frederik Ducrozet adianta que “o maior desafio [de Lagarde] será preservar o legado de Mario Draghi e a credibilidade da instituição em tempos que serão provavelmente turbulentos”.