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Martinhal, o mundo inteiro numa família

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Roman e Chitra Stern fotografados no Martinhal de Cascais

Arlindo Camacho

Da hotelaria à educação, Chitra e Roman Stern investiram em Portugal mais de 280 milhões de euros e continuam a promover o País como o lugar certo para se estar. Este artigo foi originalmente publicado na edição de dezembro de 2018 da revista EXAME

É uma espécie de ritual que se repete, não importa em que unidade estejamos e em que nos cruzemos com Chitra e Roman Stern: chegam ao lobby, a um dos restaurantes ou ao kids club e desdobram-se em cumprimentos, conversas, pegam crianças ao colo ou caminham alegremente de mãos dadas com os quatro filhos, que esboçam também sorrisos para amigos ou clientes dos pais. “Acho que para nós Portugal tem sido uma terra de oportunidades. Aqui é possível criar”, diz-nos no seu tom sereno Roman Stern, natural de Zurique. Os olhos, azul-claros, estão quase sempre semicerrados num rosto que denota concentração e calma. “O Roman está certo. Esta é uma fantástica terra de oportunidades, e nós chegámos precisamente na altura certa”, completa a singapuriana Chitra Stern, de olhos escuros e voz enérgica. Mais adiante, garantirão à EXAME que se complementam, criando uma “equipa perfeita” por todas as diferenças que, neste caso, os unem. Empresários radicados em Portugal desde 2001, surpreenderam o mercado quando, um mês após a falência da Lehman Brothers, há dez anos, colocaram a primeira pedra daquele que é o seu mais emblemático projeto em terras lusas: o Martinhal Sagres Family Beach Resort, que representou um investimento de 85 milhões de euros. “Nós sentimos a chegada da crise, em 2007”, clarificam. Aliás, em agosto desse ano, no casamento da minha irmã, em Singapura, o pai do Roman, que tem muita experiência no mundo dos negócios, disse-nos sobre o que se estava a passar nos mercados: “Sabem... já vi isto a acontecer na minha vida. It doesn’t look good.”

“Todos sabemos o que aconteceu no ano seguinte”, revela Chitra com um sorriso. Foi precisamente durante o agravar da crise que o Martinhal abriu portas, em 2010, e saiu dela com vários prémios angariados e com o reconhecimento de Chitra Stern como accomplished entrepreneur pela London Business School, onde fez o seu MBA em 2000 – um prémio que a instituição atribui a antigos alunos que tenham criado empreendimentos que acrescentem valor. Atualmente, o grupo Martinhal – que passou recentemente a chamar-se Elegant – já conquistou também a Quinta do Lago, a Quinta da Marinha, o Chiado e prepara-se agora para liderar no Parque das Nações, com três projetos completamente díspares: um edifício de escritórios que vai ser sede da seguradora Ageas já em 2020, o Martinhal Residences e uma escola internacional, na antiga Universidade Independente. No core das apostas do casal está sempre a família. Afinal, a sua foi crescendo ao mesmo tempo que os hotéis, os primeiros do País a explorarem o conceito. “Adoramos esse mercado, é algo muito pessoal para nós. O hotel do Chiado foi o primeiro do género familiar no centro de uma cidade, no mundo inteiro. Nós somos mesmo apaixonados por isto”, sublinha Roman. O casal tem quatro filhos, com idades entre os 8 e os 16 anos, que fazem parte desta história, por serem muitas vezes fonte de inspiração. “Sabemos o que é querer viajar com os filhos e precisarmos de quartos que comuniquem; querer deixá-los em segurança para ir a um teatro ou simplesmente para fazer uma refeição com tranquilidade”, explicam. Por isso, mesmo que só haja uma criança no hotel, “aquele kids club vai estar a funcionar”, asseguram.

O conceito desenvolvido no Martinhal, que junta villas de luxo a um hotel onde é possível reservar apenas um quarto, foi replicado em Cascais. Na Quinta do Lago, há à disposição uma seleção de moradias de luxo, enquanto no Chiado o hotel disponibiliza quartos e apartamentos. Todas as unidades têm os já costumeiros kids club, para crianças entre os 6 meses e os 8 anos, além de serviços de babysitting e menus feitos à medida dos mais novos. “Sabe que 30% do mercado mundial de viagem são famílias? É um número enorme”, remata Roman quase em jeito de justificação. Os dois empresários falaram à EXAME no Martinhal de Cascais, numa tarde quente de outubro.

O Martinhal Residences, no Parque das Nações, que em conjunto com o edifício de escritórios representa um investimento total de 130 milhões de euros, leva mais longe esta aposta nas famílias, e junta um novo segmento: dos investidores estrangeiros que queiram mudar-se para o País mais ocidental da Europa. A ideia é desenvolver, juntamente com um hotel, várias dezenas de residências de luxo [“está pensado para 90 famílias”] que estarão preparadas para receber sobretudo estrangeiros que se queiram mudar para Lisboa, tendo todo “o apoio que lhes falta porque não têm cá a família”, explica o empresário, uma vez que poderão partilhar os serviços com a unidade hoteleira. “Temos cada vez mais investidores brasileiros e turcos interessados em Portugal. Ali, os filhos podem descer as escadas e ir, sozinhos, para o kids club. É possível ainda contratar o serviço de babysitting, tudo em segurança. É um belo começo para vir viver em Portugal”, atira Chitra antes de explicar que a escola internacional que planeiam abrir já em 2019 vem no seguimento deste conceito de poder ter um bairro family friendly.

“Enquanto houver escolas no Parque das Nações – públicas ou privadas – haverá famílias a escolher aquele bairro. Porém, as que existem atualmente são portuguesas e há alguns pais que procuram outro tipo de educação: querem que os filhos acabem o Secundário com o diploma IB [International Baccalaureate, que é reconhecido nas mais prestigiadas universidades de todo o mundo] para poderem candidatar-se a universidades internacionais... o mundo é uma ostra.” E, como o centro de Lisboa ainda não tem uma escola internacional que cumpra estes critérios, porque não construir uma?

Solucionadores de problemas

A primeira vez que se lembraram da ideia fizeram-no por razões pessoais. Depois de muitos anos a viverem em Vila do Bispo, no Algarve, era tempo de rumarem a Lisboa, onde atualmente têm projetos em desenvolvimento. O casal queria viver no Parque das Nações, mas não só não encontrou um apartamento suficientemente grande para a família como não havia escolas internacionais para os filhos – as crianças falam todas quatro ou cinco línguas, por questões familiares, e os pais queriam uma que seguisse o programa IB. “Foi quando nos apercebemos de que todas essas escolas estavam nesta zona de Cascais e do Estoril”, revela Chitra. “Portanto, arrendámos uma casa aqui, e os miúdos foram para uma escola norte-americana.” Na altura, Chitra tinha acabado de integrar a iniciativa governamental Portugal In e tinha de escrever um artigo sobre as barreiras ao investimento em Portugal. Uma das que integraram o seu texto foi a falta de escolas internacionais. “Em janeiro de 2017, assinámos o nosso contrato no Parque das Nações, para o projeto Residences, que tínhamos estado a negociar durante quatro anos. Depois juntei-me à task force, e o primeiro trabalho que tivemos foi o EMA [um programa que permitiria atrair agências médicas para Lisboa], e o que eu tinha escrito em janeiro revelava-se verdade: não podíamos submeter Lisboa ao programa EMA, porque não havia escolas internacionais suficientes.” Na altura, conta, começaram a discutir com a Câmara Municipal de Lisboa a necessidade de construir uma escola, uma vez que são “acima de tudo, promotores imobiliários e hoteleiros por acidente”, como gostam de dizer. “Somos o tipo de empreendedores que desenvolve projetos para solucionar problemas, para resolver os consumer pain points: esse é o alicerce de qualquer negócio que façamos.” Por coincidência, foram apresentados na ocasião ao edifício da antiga Universidade Independente, fechado há
10 anos. Foi como que um sinal, dizem com uma gargalhada. “O mercado global para a educação internacional é tão interessante”, refere Roman. “Em Singapura, todos os pais mandam os filhos estudar para fora e, portanto, temos algum conhecimento sobre isto. Há muitos grupos escolares a surgir, há marcas antigas a expandirem-se – como Eton, Harrow – é todo um novo mercado.” Por isso, explica Chitra, o que pensaram foi simples: “Podemos desenvolver o negócio e conseguir que um bom grupo gira a escola. Temos atualmente três propostas em cima da mesa” e o vencedor deverá ser conhecido em breve, até porque é suposto que parte da escola já esteja a funcionar no ano letivo 2019-2020.

O projeto, avaliado em 22 milhões de euros, é completamente suportado pelo Elegant Group, mas “se alguém quiser juntar-se” será bem acolhido, atiram com um sorriso. A United International School of Lisbon – “já lhe demos um nome porque isso é sempre inspirador” – será gerida por uma instituição consagrada, mas terá a visão do grupo, garantem ambos. Querem que esteja integrada na comunidade, que seja uma mais-valia para os alunos e para os bairros em redor, e, por isso, já estão a pensar em como criar sinergias com a Companhia Nacional de Bailado, o Oceanário de Lisboa, as piscinas municipais ou o Teatro Camões.

Portugal: um amor para a vida toda

Quando trocaram Londres, onde se conheceram, por Vila do Bispo, no Algarve, Chitra e Roman tinham um plano a cinco anos. Ainda tinham pensado ficar pela Croácia, onde havia boas oportunidades de investimento. “Mas a Croácia tinha acabado de sair de uma guerra, enquanto Portugal era parte da União Europeia já há 15 anos, e as infraestruturas e as autoestradas já existiam ou estavam a ser criadas, os aeroportos eram razoáveis, as companhias aéreas já operavam para cá. Achámos que nessa altura o Algarve era um destino turístico muito mais apetecível – até porque o inglês era uma língua muito falada e eu sou uma forte defensora da União Europeia”, resume a empresária. “Os portugueses não são tão extrovertidos quanto os nossos vizinhos espanhóis, por exemplo, mas são muito simpáticos. O facto de termos começado a nossa família aqui fez mesmo diferença para muitas pessoas. Quando eu estava grávida, todos eram muito queridos, muito atenciosos. Acho que olhavam para nós sabendo que íamos ficar. E depois disso, quando os bebés nasceram, conquistámos toda a gente – as crianças têm um lugar muito especial no coração dos portugueses. Acho que, definitivamente, a nossa chegada foi ótima”, resume Chitra. Roman confessa que enfrentaram fortes críticas pela escolha de Sagres, que toda a gente considerava uma zona fria e ventosa. Só nos diziam que era “cold and windy, cold and windy. Parecia um filme em que o título era Cold and Windy”, atiram com uma gargalhada. No entanto, para eles parecia perfeito: um clima diferente do resto da região, uma boa forma de escapar ao calor intenso do Sul de Espanha e, para Roman, a questão do público-alvo dos seus projetos: “Famílias, sobretudo do Norte da Europa, com crianças pequenas que não querem muito calor. Basicamente, conseguimos transformar a nossa fraqueza num dos nossos pontos mais fortes.”

Instados a fazer uma retrospetiva sobre esta última década, que marcou o surgimento do Martinhal como grupo de referência e também os dez anos da mais grave crise financeira do século, Chitra e Roman fecham o semblante para assumir que tiveram “períodos muitos difíceis, tanto enquanto empresários como pessoalmente”. Foi uma altura em que o Algarve não tinha dinheiro, e daí terem sentido a necessidade de apostar em Lisboa – as unidades de Cascais e do Chiado abriram em 2016, depois de quatro anos de trabalho –, precisando de recorrer a financiamento, que também não estava propriamente à disposição de quem queria abrir hotéis. “Nos anos da crise continuámos a gastar dinheiro e a apostar em mercados como o Reino Unido, a Irlanda, a Alemanha, a Escandinávia”, para reforçar o posicionamento de Portugal junto dos estrangeiros. “E estamos, claro, a olhar para os EUA e para a Índia!” Investiram sobretudo, garantem, em recursos humanos, fazendo até parcerias com a Nova Business School em alguns cursos de curta duração para o staff porque, acreditam, “as bases de uma boa equipa são a formação de grupos de pessoas que complementem as nossas capacidades”. Atualmente, o grupo que gerem emprega cerca de 600 pessoas, sendo o número ajustado à sazonalidade, e gera receitas na ordem dos 50 milhões de euros – deste valor, a maior parte é relativa aos hotéis. E os cinco anos em Portugal, que entretanto já são 18, devem continuar a multiplicar-se, à medida que forem surgindo projetos para desenvolver. Porque se há certeza que deixaram à EXAME, de sorriso aberto, foi a de que “haverá mais projetos”, em Portugal. É mais forte do que eles.