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A “grande reviravolta” da Reserva Federal dos EUA

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O banco central liderado por Jerome Powell desceu as taxas de juro pela primeira vez desde a grande crise financeira. Mas Trump queria cortes mais significativos para estimular o seu programa económico e ganhar trunfos na guerra comercial.

Rui Barroso

Rui Barroso

Jornalista

Donald Trump não tem dado descanso ao seu escolhido para liderar a Reserva Federal dos EUA. Em novembro de 2017, quando apresentou Jerome Powell como o sucessor de Janet Yellen no banco central, o presidente americano disse que o eleito era “inteligente” e tinha “compromisso”. Mas o estado de graça foi curto, com o presidente dos EUA a aplicar uma pressão cada vez mais elevada ao líder da Reserva Federal (Fed) para descer juros.

Mais de um ano e meio depois de assumir a presidência da Fed, Powell anunciou esta quarta-feira que as taxas vão descer 25 pontos base. Passam de um intervalo de entre 2,25% e 2,50% para entre 2% e 2,25%. É o primeiro corte desde a grande crise financeira de 2008, altura em que as taxas foram para perto de 0% para impedir o colapso do sistema financeiro americano. E marca uma inversão no caminho seguido pelo banco central mais influente do mundo.

A explicação do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), o órgão que toma as decisões de política monetária, para o corte de juros está relacionada com os dados da inflação. “A 12 meses, a inflação e a inflação excluindo alimentação e energia estão abaixo de 2%. As medidas de inflação baseadas no mercado continuam baixas; e as medidas das expetativas de inflação para o longo prazo estão pouco alteradas”, refere o comunicado da decisão do FOMC. Além disso, os responsáveis do banco central notam que “o crescimento do investimento fixo das empresas tem sido suave”.

O presidente americano fez saber antes da reunião que queria um corte significativo nos juros. Mas a Fed foi comedida e fez um corte de apenas 25 pontos base. Apesar de os economistas anteciparem um corte dessa dimensão, havia algumas previsões a apontar para 50 pontos base. A Reserva Federal estava sob pressão para agir. Não só de Trump, mas também dos investidores. Mais ainda depois de o Banco Central Europeu ter sinalizado que podia fazer mais cortes de juros em setembro, o que levou a subidas do dólar face à moeda única.

“A Fed está a sofrer pressão de duas frentes. O presidente Donald Trump e os mercados querem um corte nos juros, e a Fed está também a sentir-se pressionada para lidar com o dólar, que alguns economistas estimam estar sobrevalorizado em cerca de 10%. Apesar do que dizem os banqueiros centrais, manter uma taxa de câmbio desejada parece ter-se tornado um objetivo não assumido”, referia Franck Dixmier numa antevisão à reunião da Fed em que antecipava uma "grande reviravolta no rumo."

A expectativa dos economistas é que a Fed possa vir a cortar ainda mais as taxas de juro nos próximos tempos. No comunicado, o FOMC diz que eventuais ajustamentos terão em conta “um leque alargado de informação, incluindo as condições do mercado de trabalho, indicadores sobre pressões e expectativas de inflação, e leituras sobre os desenvolvimentos financeiros e internacionais.”

Na conferência de imprensa após a reunião de política monetária, Powell disse que o corte nas taxas era uma descida de meio de ciclo e que não implicava necessariamente que viessem aí juros mais baixos.

Os economistas do banco ING caracterizaram a decisão como “um medida preventiva para ajudar a assegurar que a mais longa expansão económica dos EUA continua”. Acrescentam que provavelmente a Fed vai tomar mais medidas expansionistas, mas não da dimensão que a maior parte dos investidores espera.

Marcação cerrada a Powell

Powell tem tentado defender a independência do banco central. Desde o seu primeiro discurso que tem insistido nesse ponto. E as ações que tomou na Fed foram nesse sentido. Seguiu o caminho de normalização das taxas de juro e da política monetária que tinha sido iniciado, de forma tímida, no final de 2015 por Janet Yellen. O objetivo era, aos poucos, ir retirando as medidas de emergência colocadas durante a crise para evitar o risco de sobreaquecimento da economia.

O escolhido de Trump para a Fed acelerou esse ritmo. Com a maior economia do mundo a dar sinais de vigor, Powell anunciou três subidas de juros nos primeiros sete meses no cargo. Além disso, operacionalizou a redução do balanço da Reserva Federal, diminuindo o peso do banco central no mercado de dívida pública e hipotecária dos EUA. E isso enfureceu Trump.

Mas na reunião que terminou esta quarta-feira, o FOMC anunciou que iria parar com essa redução de balanço de forma imediata. A indicação anterior era de que isso iria acontecer apenas a partir de setembro.

O presidente dos EUA tem exigido juros mais baixos e o regresso das compras líquidas de ativos para conseguir custos de financiamento mais baixos para o Estado e para desvalorizar o dólar. Uma arma importante para tornar as exportações americanas mais competitivas numa fase em que parece valer quase tudo nas guerras comerciais. No fundo, Trump pretende a ajuda da Fed para tornar mais forte o trunfo que tem utilizado de que a sua presidência tem sido positiva para a economia, tendo como mira já as eleições de 2020.

Nos últimos meses o tema tornou-se uma obsessão para Trump, que tem criticado a um ritmo quase diário as decisões da Fed. Na véspera do início da reunião da FOMC, o presidente avisava que “um pequeno corte de juros não é suficiente” e que a Fed tem somado erros.

“A Fed subiu [juros] demasiado cedo e muito em demasia. O aperto quantitativo [a redução de balanço] foi outro grande erro. Apesar de o nosso país estar a sair-se bastante bem, o potencial de riqueza que foi perdido, especialmente quando medido contra a nossa dívida, é chocante”, escreveu no Twitter.

O corte anunciado está longe de ser suficiente para satisfazer Trump. Após serem conhecidas as decisões da Fed o presidente recorreu ao Twitter para acusar Powell de ter deixado o país ficar mal outra vez: “O que o mercado queria ouvir de Jay Powell e da Reserva Federal era que este era o início de um longo e agressivo ciclo de descida das taxas que nos permitira acompanhar o ritmo da China,da UE e de outros países”.

Trump acusa: “Como de costume, Powell deixou-nos ficar mal, mas ao menos acabou com o aperto quantitativo que não devia sequer ter começado porque não há inflação. De qualquer das formas estamos a ganhar, mas tenho a certeza de que não se vai ter grande ajuda por parte da Reserva Federal”.

Apesar do mercado antecipar mais alguns cortes por parte da Fed, os economistas têm avisado que cortes demasiado agressivos e o reinício de um eventual programa de compra de ativos podem criar bolhas que ameacem a sustentabilidade da economia.

Artigo atualizado com reação de Donald Trump à decisão da Fed