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Problemas com o Airbnb? “Limitar o número de dias é a solução mais bem-sucedida”

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A antiga Casa Oriental deu lugar a dois negócios: o da “conserveira do Porto” e o dos “pastéis de bacalhau”, ambos em versão gourmet e pouco tripeira. “Quando passava lá com os meus alunos, abanava os ridículos bacalhaus de plástico, pendurados à porta. Tanto os insultei que tiraram aquilo”, conta, divertido, o geógrafo Rio Fernandes

LUCÍLIA MONTEIRO

April Rinne é consultora do Airbnb e especialista em economia da partilha. Esteve no Porto a falar sobre as razões para o sucesso e o futuro deste tipo de plataformas. Considera que elas têm um impacto agregado positivo, mas reconhece que também estão a gerar efeitos negativos localizados.

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

O centro das grandes cidades, como Lisboa e Porto, estão a ser pressionadas por um forte crescimento do turismo e empresas como o Airbnb têm desempenhado um papel. April Rinne considera que isso também é um problema para estas plataformas. “É algo muito específico do excesso de turismo. Uma consequência negativa do sucesso. Passa-se em Amesterdão, Barcelona, Berlim, Londres, Roma. Cidades bonitas ficam mais em risco de deixarem de ser locais atrativos para os residentes locais, que podem já não querer viver lá ou já não conseguirem pagar. Definitivamente, isso não é algo que quer que aconteça”, sublinhou, numa conversa à margem da sua intervenção na conferência Vertex, organizada pela Porto Business School. “Não falo em nome do Airbnb, mas sei que eles não querem que isso aconteça.”

April Rinne lidera o grupo de trabalho sobre Economia da Partilha do Fórum Económico Mundial, trabalhando também como consultora para empresas como o Airbnb e a Nike. Embora seja uma apologista apaixonada desta nova economia, reconhece que elas também podem gerar efeitos não desejados. “Há um limite para tudo. Uma coisa é uma pessoa partilhar a casa onde vive ou a casa de férias. É bom e deve lutar por isso. Mas se alguém tornar isso num negócio, está a retirar uma habitação do mercado local. Deve ser considerado um negócio e regulado como tal. É mais um hotel do que uma partilha de casa”, explica.

O que se pode fazer para atenuar estes efeitos? Rinne fala em três formas de controlo: limitar o número de dias que cada casa pode ser listada, o número de propriedades por cada pessoa ou o rendimento que isso pode gerar. “A mais comum é limitar o número de dias, de forma a que não seja economicamente viável estar sempre disponível. Há uns anos era 180 dias, depois em alguns sítios passou a 120, depois 90. Agora, em certas zonas, é 30 dias por ano. Diria que é a hipótese mais prática e mais bem-sucedida”, aponta. “Mas o desafio [com qualquer solução] é aplicar a lei e fiscalizar. Não é como na antiga economia em que se podia ver uma fábrica ou um hotel a serem construídos. Os responsáveis políticos têm de desenvolver novos métodos, aplicar recursos, dinheiro e pessoas.”

A especialista arrisca até dizer que empresas como Airbnb seriam compreensivas com iniciativas desse género. “Se lhes perguntar, eles vão falar em “regras apropriadas”, mas se tiver dados que mostrem que está a acontecer ao turismo devido ao Airbnb, eles vão perceber. Eles sabem perfeitamente que não estão livres de regulação”, refere.

Porém, avisa que não devemos atribuir a responsabilidade de fenómenos a uma só empresa ou apenas ao alojamento local. “Na maioria das cidades, o Airbnb está a crescer, mas os hotéis estão a aumentar ao mesmo tempo. Há simplesmente mais pessoas a quererem viajar para o Porto. É um problema sistémico”, alerta. "Mesmo sem o Airbnb, teria de lidar com o crescimento do turismo. O que o Airbnb pode fazer é exacerbar um problema que já existe.”

Carros vs. escovas de dentes

Minutos antes, Rinne esteve no palco da conferência Vertex a ilustrar o crescimento exponencial daquilo que se chama a economia da partilha. Um termo com o qual, como a própria oradora reconheceu, muitos discordam (há cada vez menos partilha). Ela explica que o crescimento deste tipo de plataformas se deveu à subutilização de recursos (os carros estão 23 horas por dia parados); descentralização dos serviços; e maior confiança gerada por avanços tecnológicos (já não temos medo de dar o nosso cartão de crédito a uma app).

“O nirvana da economia da partilha é um custo elevado e subutilização. Por isso é que, no caso das casas e dos carros, está a crescer. E por isso é que acho que nunca crescerá para as escovas de dentes”, brinca.

O seu desenvolvimento trouxe benefícios económicos às cidades, permitiu a muitas pessoas ganharem dinheiro ou pouparem, facilitou tarefas, deslocações e lazer e pode também ter um impacto ambiental positivo.

Contudo, pelo caminho, tornámos esta partilha numa experiência de consumo. “Transformámos indústrias inteiras, mas ao longo do processo esquecemo-nos das nossas intenções iniciais”, afirma. “Os próximos dez anos serão muito diferentes dos últimos dez anos. O maior desafio de Portugal será gerir o grande crescimento que a economia da partilha teve.”