A cientista caça-plástico que luta contra o flagelo do lixo marinho

A cientista caça-plástico que luta contra o flagelo do lixo marinho

“Os resultados são assustadores”, alerta Filipa Bessa, antes de revelar as conclusões preliminares de um estudo à população de tubarões ao largo da costa portuguesa. A pesquisa só deverá estar concluída na primavera, mas “100% dos animais analisados apresentavam elevadas percentagens de plásticos e de microplásticos no seu organismo”.

Bióloga e investigadora do MARE, na Universidade de Coimbra, Filipa Bessa especializou-se nos efeitos da poluição por plásticos nos ecossistemas marinhos e costeiros, e sabe bem como o plástico está hoje por todo o lado, “até nas espécies e nos locais mais isolados do mundo”, como ficou provado por outro estudo em que participou, dedicado às espécies de pinguins da Antártida. Por isso, estes resultados “não são propriamente surpreendentes”, para mais porque os tubarões são predadores de topo e, portanto, “uma espécie acumuladora”. O que nos leva a outro predador de topo, o maior… nós.

“Sendo um corpo estranho ao nosso organismo, à partida os plásticos serão expulsos”, começa por explicar. “Mas sabemos que funcionam como verdadeiras esponjas, que atraem todo o tipo de contaminantes químicos e bactérias por onde quer que passem, no mar ou nos esgotos. Dentro do nosso corpo, podem libertar os químicos acumulados e isto é um cocktail que não pode ser benéfico para nenhum organismo vivo”, conclui.

Filipa Bessa procura também fazer um quadro mais preciso do lixo que existe na nossa costa. Os dados fornecidos pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) são recolhidos apenas em nove locais, manifestamente uma amostra muito reduzida. Para colmatar essa lacuna, montou dois projetos inovadores, um deles recorrendo a drones para fazer um varrimento das praias, identificando e categorizando o lixo. Ao contrário do que possa parecer, não se trata de nada high tech, e o nome do projeto é mesmo “utilização de drones lowcost para mapear o lixo marinho”. O segundo projeto é o site lixomarinho.app (funciona de forma semelhante a uma app), que nos convida a contabilizar e a identificar o lixo que encontramos na praia. O funcionamento é muito simples, até porque o objetivo é conquistar utilizadores: “Este projeto permite alargar enormemente essa base e envolver os cidadãos na luta contra a poluição”, conta com entusiasmo. Está, no entanto, ciente da oposição de alguns dos seus colegas, que desconfiam desta abertura à sociedade. A eles responde com números “coincidentes em mais de 80% com os fornecidos pela APA, e com o top 10 de itens mais contados exatamente igual”. Mas com uma diferença: os seus dados têm 33 mil objetos mapeados em quase 300 locais ao longo da costa e ilhas − e não apenas nove. A app podia beneficiar com uma maior divulgação, mas existe um óbvio problema de financiamento: “Somos dez voluntários a manter o site vivo e, se não fosse a Amazon apoiar-nos, nem espaço tínhamos para alojar o site.”

Filipa nasceu em Vila Real, longe do mar, mas cresceu a ver documentários da BBC com David Attenborough, por isso sabia desde muito cedo que queria ser bióloga. Inicialmente, o plano era viver no meio da selva e trabalhar com gorilas, uma verdadeira Jane Goodall portuguesa, mas a vida empurrou-a para o Brasil e foi lá, num trabalho de preservação de ecossistemas dunares, que mudou o foco: “Encontrava mais plásticos na areia do que as espécies que era suposto preservar”, recorda. “Algo estava muito errado.”

Foi quase por coincidência, também, que se dedicou à fotografia, quando começou a captar imagens dos pedaços microscópicos de plástico que analisava. Uma colega incentivou-a a participar num concurso de fotografia ambiental promovido pelas Nações Unidas. Foi sem grandes expectativas que enviou a imagem de uns grãos de sal marinho, um deles embrulhado num fio de poliéster. Sea Salt Plastic chamou à foto, que acabou por vencer o concurso, dando uma dimensão inesperada a este hobby. Apesar dos vários convites que recebe para expor, Filipa continua a afirmar que não faz fotografia, “mas aproveito toda esta atenção para comunicar o problema da poluição”. E não será demais dizer que as suas fotografias já estiveram inclusivamente expostas no Berlaymont, sede da Comissão Europeia, por onde passam muitas das decisões políticas da Europa.

“O meu trabalho como cientista é mostrar o problema na sua real dimensão, e garantir que essa informação chega aos governos e à indústria, mas também à sociedade civil que tem a capacidade de influenciar a tomada de decisão.” Já percebeu que nem todos podem ser conquistados, por isso acredita ser necessário que os governos “taxem e proíbam certos comportamentos”. O que não faz sentido, defende, é “diabolizar o plástico”. Até porque não vamos conseguir encontrar uma alternativa tão depressa. “Não com as mesmas características e sem provocar danos para o ambiente.” A solução será apostar nos plásticos com menor impacto, com uma vida longa, recicláveis e reutilizáveis: “Tudo o resto é para desaparecer.”  

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

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