A poluição sonora já devasta a vida animal dos oceanos. Michel André está à escuta

Em 1956, Jacques Cousteau e Louis Malle ganharam a Palma de Ouro em Cannes com Le Monde du Silence. Foi um dos primeiros documentários a retratarem o fundo do mar a cores, e maravilhou inúmeros espetadores por todo o mundo. Ganhou inclusivamente um Óscar no ano seguinte, mas o título dado ao filme não podia estar mais errado.

Durante séculos, a Humanidade criou esta imagem de um azul profundo e silencioso, mas os oceanos nunca foram silenciosos. Na água, o som propaga-se mais veloz e mais longe do que no ar, ao contrário da luz que apenas consegue penetrar meia dúzia de metros em profundidade. O som é o único “sentido” para muitas espécies, desempenhando um papel fundamental na sua orientação e comunicação – e é por isso que o aumento da poluição sonora é tão perigosa: “Temos de perceber que o ruído é vital para a sobrevivência do oceano, e para a sobrevivência da Humanidade, e temos de dar o nosso melhor para reduzir esta contaminação sonora”, avisa o especialista em Bioacústica, Michel André, o principal responsável por esta nova perceção da realidade.

O cientista francês realizou os primeiros estudos bioacústicos no mar na viragem do milénio, recorrendo a um conjunto de novas tecnologias como os hidrofones, e rapidamente se apercebeu da existência de todo o tipo de sons provocados pelo Homem que inutilizavam as suas gravações. “Pensei então se não estaria a acontecer o mesmo com os animais, se todos estes sons estranhos não os impediam também de receber as informações que procuravam. Podíamos estar perante um problema de conservação que desconhecíamos.”

De facto, pouco depois surgiram relatos de colisões entre cachalotes e ferries de passageiros nas ilhas Canárias – colisões fatais para os animais. Michel André mudou-se para Las Palmas onde descobriu como os cetáceos (que dependem da acústica para se orientarem) estavam a ser vítimas do ruído gerado pelo tráfego marítimo, que os desorientava.

MicMichel André desenvolveu o Sistema Anti-Colisão de Baleias (WACS) para evitar que os navios enbatam nos animais. Ele descobriu que, devido ao crescente tumulto do som gerado pelo homem nos oceanos do mundo, os mamíferos gigantes não podiam ouvir nem evitar os navios que se aproximavam (François Gohier/Foto-Agentur Sutter)

Esse trabalho valeu-lhe um Rolex Award For Enterprise em 2002, e aproveitou o prémio para financiar a investigação de um sistema de alerta que permitisse aos navios evitarem os cachalotes. “Acredito que progresso e Natureza podem coexistir, mas será necessário recorrer à tecnologia para que isso aconteça. A mesma tecnologia que durante um século prejudicou os oceanos pode ser utilizada para atingirmos o equilíbrio acústico”, afirma.

Tem sido esse o trabalho da sua vida ao longo dos últimos 20 anos. Michel André é agora professor de Bioacústica na Universidade Politécnica da Catalunha, em Barcelona, e dirige o LAB (Laboratório de Bioacústica Aplicada), onde criou um projeto de observação sonora à escala mundial com mais de 150 “postos de escuta”, todos conectados em rede e criando “uma imagem verdadeiramente global do som do oceano e os seus efeitos”.

Descobriu como até os seres mais insuspeitos, como polvos, crustáceos, bivalves, alforrecas ou corais, desprovidos de aparelho auditivo, possuem sensores sensíveis às vibrações acústicas, e sofrem igualmente com níveis de ruído muito altos. As suas pesquisas saltaram inclusivamente do meio aquático e são agora utilizadas para evitar atropelamentos de elefantes por comboios, na Índia, para criar uma nova disciplina da espeleologia baseada na acústica dentro das cavernas, ou para salvar a maior floresta do mundo: “Os satélites conseguem ver se estão a derrubar árvores na Amazónia, mas não conseguem perceber qual o estado de saúde da floresta. A acústica consegue.”

A antena do Whale Anti-Collision System (WACS) é abaixada na água do navio Moline durante o teste (Kurt Amsler/Rolex)

Nestes últimos anos assistimos já à adoção de algumas boas práticas, como a insonorização das salas de máquinas nos navios de carga mais modernos, ou a utilização de membranas isolantes, nas turbinas eólicas colocadas em alto-mar, mas há ainda muito a fazer, “sobretudo no caso das explorações de petróleo e de gás natural, atividades excessivamente ruidosas para a vida marinha, tal como os sonares das marinhas de guerra. Temos de continuar a procurar soluções alternativas”, conclui, sempre com uma nota de esperança.

Até lá, Michel André continua a “tentar ouvir a Natureza”. Mesmo quando não está a trabalhar, mesmo sem equipamentos especiais, porque “a Humanidade perdeu essa capacidade há muitos anos, de ouvir e compreender a Natureza”. E ele está a tentar recuperá-la.

Michel André usa a bioacústica para estudar e monitorizartambém a biodiversidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Brasil (Teresa Correa)

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

Ao assinar a VISÃO recebe informação credível, todas as semanas, a partir de €6 por mês, e tem acesso a uma VISÃO mais completa.

ASSINE JÁ

Mais na Visão

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Quer associar caras a nomes mais facilmente? Durante o sono profundo é uma boa altura, conclui novo estudo

A equipa de investigação norte-americana descobriu que colocar uma gravação em repetição com os nomes das pessoas durante o período de sono mais profundo melhora a capacidade de nos lembrarmos desses nomes e rostos, associando-os, no dia seguinte

Sociedade
Exclusivo

Ómicron: Afinal, por quanto tempo devemos confinar?

Um terço dos infetados com a nova variante continua a transmitir o vírus ao fim de cinco dias. Mas a economia funciona melhor com tempos mais curtos de isolamento

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Macro-estudo aponta vírus da “doença do beijo” como principal causa da esclerose múltipla

Ao analisarem os dados de 10 milhões de militares americanos, recolhidos ao longo de vinte anos, investigadores de Harvard descobriram que o vírus da mononucleose infecciosa tinha aumentado 32 vezes as hipóteses de virem a sofrer de esclerose múltipla. Será a explicação que faltava?

Legislativas 2022

António Costa já votou

O secretário-geral do PS e primeiro-ministro exerceu hoje o seu direito, por antecipação, no Porto, na companhia de Rui Moreira. Veja as imagens

Legislativas 2022

“Fascista” e “extremista”? Ventura prefere as ofensas a que todos gostem dele

Porto deu momento alto de campanha eleitoral ao Chega e o líder garante: “Em terceiro estamos [nas sondagens] e em terceiro vamos ficar”

Sociedade
Exclusivo

Quando os ingleses nos viciaram na bola

Nasceu no coração de Lisboa há mais de 160 anos, fundado pela comunidade britânica. É o Lisbon Sports Club, o mais antigo da capital, ligado aos primórdios do atletismo, do râguebi, do ténis, do golfe e do futebol em Portugal, com a realeza a assistir. E venceu o Benfica, em 1906, no jogo de estreia de Cosme Damião na equipa principal

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Conseguiu perder peso? Estes são os truques para, agora, o manter

Quem conseguiu emagrecer e não quer voltar a engordar tem de manter certas regras de rotina. A nutricionista Teresa Pinto Gonçalves explica tudo

Mundo

Casas feitas de garrafas recicladas para deslocados de guerra em Moçambique

Valisse Alficha fugiu duas vezes do conflito entre as forças governamentais e o braço armado da Renamo, primeiro em 2016, sob comando de Afonso Dhlakama, e depois em 2019, dirigido por Mariano Nhongo, tendo saído apenas com a roupa do corpo

Se7e
VISÃO sete

"A Vida Extraordinária de Louis Wain": O filme biográfico sobre o homem que desenhava gatos

Chega ao cinema a história de Louis Wain, com Benedict Cumberbatch no papel do excêntrico artista britânico, célebre pelo original mundo felino que criou

Se7e
VISÃO sete

Três vinhos do Alentejo, Dão e Trás-os-Montes: Vá pelo seu gosto!

Um grande vinho tinto alentejano, outro tinto do Dão, jovem e informal, e um branco transmontano confiável. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva

Se7e
VISÃO sete

“O Bom Patrão”, com Javier Bardem: Uma comédia ácida sobre o mundo do trabalho

Uma comédia espanhola, com Javier Bardem, que reflete sobre os princípios e limites das relações laborais. "O Bom Patrão" está nas salas de cinema

Legislativas 2022

Legislativas: Mais de 315 mil eleitores podem votar hoje em mobilidade

Mais de 315 mil eleitores que se inscreveram para votar antecipadamente para as legislativas podem fazer hoje as suas escolhas, com as autoridades de saúde a recomendar cuidados como usar máscara cirúrgica e usar a própria caneta