Sylvia Earle, lendária pioneira do mundo subaquático: “Sem azul não há verde, sem oceanos não há vida”

Poucas pessoas terão melhores credenciais para a exploração subaquática e preservação marinha do que Sylvia Earle. Há cinco décadas que esta aclamada bióloga, aquanauta, conferencista, escritora, exploradora da National Geographic, cientista-chefe da US National Oceanic and Atmospheric Administration (1990-1992) e, por duas vezes, membro do júri dos Prémios Rolex (1981 e 2012) se mantém na vanguarda da exploração marinha. No decurso da sua longa carreira, passou quase um ano debaixo de água e numa das vezes, para um projeto de investigação, viveu durante 14 dias no fundo do oceano. Dedica-se agora ao seu projeto Mission Blue.

Para alguém que passou mais de sete mil horas no fundo do mar, que liderou mais de 100 expedições, que descobriu milhares de espécies subaquáticas, que foi considerada “Lenda Viva”, pelo Congresso norte-americano, “Heroína do Planeta”, pela revista TIME, e “Sua Profundeza”, pelo The New York Times, o que a fascina em relação à vida marinha e ao estar debaixo de água?
Em cada mergulho que dou, vejo coisas que nunca vi – nem sempre são espécies novas, mas são novos comportamentos, novas perceções sobre como funciona o oceano –, quem vive no fundo do mar ou até num recife iluminado pelo sol, como isso se relaciona connosco que vivemos a respirar o ar da superfície.

Pode descrever a sua primeira expedição internacional?
A primeira expedição científica em que eu tive a oportunidade de participar durou seis semanas, na Índia, em 1964. Fui como botânica, mas era a primeira mulher a bordo. Havia 12 cientistas. Todos os outros – a maioria dos 70 homens – eram tripulantes. Foi realmente um ponto de viragem, porque cada vez que colocávamos o equipamento na água e trazíamos coisas das profundezas, tendo a possibilidade de olhar para elas, víamos o que nenhum outro ser humano jamais vira. E, no entanto, continua a ser verdade que mais de 90% do oceano permanece desconhecido, inexplorado, nem sequer ainda mapeado com a mesma precisão já aplicada à Terra, à Lua, a Marte ou a Júpiter.
Para mim, foi também uma grande lição sobre os limites do que somos, como criaturas que respiram ar, explorar os lugares onde existe a maior parte da vida na Terra.

Sylvia Earle, em outubro de 1979, a treinar com o seu fato JIM para o recorde do mergulho mais profundo sem amarras em Oahu, no Havaí (Al Giddings)

Além das muitas descobertas científicas, pode identificar outro resultado que a tenha impressionado depois do histórico projeto de investigação do governo norte-americano, Tektite II, em 1970, em que liderou uma expedição feminina de aquanautas, durante duas semanas, num habitat no fundo do mar, nas ilhas Virgens dos EUA?
O que realmente me impressionou e mudou a minha maneira de pensar foi uma descoberta que me passara despercebida depois de mais de mil horas de investigação subaquática. Conheci cada um dos peixes e vi as suas caras, e constatei que não há dois peixes iguais. Todos temos impressões digitais e ADN que são únicos, e isso também se aplica aos peixes. Por isso é que, após o que vi na expedição subaquática Tektite II, o meu comportamento mudou para sempre. Por exemplo, deixei de comer peixe!

Depois fez uma caminhada no fundo do oceano com um fato de mergulho especial e o seu trabalho avançava com o submarino Deep Rover. Sentiu que era preciso envolver-se mais em termos de engenharia da exploração do fundo do mar?
Comecei a trabalhar com engenheiros com o objetivo de desenvolver equipamento para que eu ou outro cientista – qualquer pessoa, qualquer criança – pudéssemos ter acesso ao fundo do mar. Afinal, é o nosso planeta natal. Comecei por abrir uma empresa, depois uma segunda e uma terceira. Tive o privilégio de experimentar mais de 30 tipos de submarinos. O único elo que falta agora é ser capaz de criar uma esfera de vidro que nos permita enviar pessoas para as profundezas do oceano, num submarino. Estamos quase a conseguir isso. Precisamos de quem seja capaz de mergulhar até 11 quilómetros no oceano, para ver o que acontece quando ocorre a mineração no fundo do mar. É preciso que as pessoas vejam para poderem avaliar.

Uma “escola” de tubarões-martelo num dos “Hope Spots” protegidos por Sylvia Earle (Nonie Silver)

Hoje em dia, falamos cada vez mais de preservação da Natureza. Como mudaram os oceanos desde que começou a explorá-los? E quão importantes são os oceanos para a vida na Terra?
Desde que, era eu uma jovem cientista, comecei a explorar os oceanos nos anos 1950, muita coisa se aprendeu sobre a sua natureza e a razão por que são tão importantes para toda a gente e em toda a parte. Ao mesmo tempo, porém, nunca tanto se perdeu na História humana. Sabemos agora que os oceanos determinam o clima e as condições meteorológicas, moldam a química planetária, contêm 97% da água na Terra, geram mais de metade do oxigénio, e capturam a maioria do dióxido de carbono da atmosfera, e oferecem um lar à maior parte da vida na Terra. Os oceanos são o pilar do sistema do suporte vital terrestre. Em resumo, sem azul não há verde, sem oceanos não há vida. Também sabemos que metade dos recifes de coral, florestas de algas, manguezais e pântanos costeiros já desapareceu e que cerca de 90% dos muitos peixes selvagens populares que constam dos menus por todo o mundo já não existem ou estão em acentuado declínio. Os atuns, especialmente os de barbatana azul [utilizados na confeção de sushi], têm sido os mais duramente atingidos, devido ao seu elevado valor em mercados de luxo. A química dos oceanos tem vindo a mudar devido à acidificação causada por um excesso de dióxido de carbono. No entanto, também se registam mudanças positivas. Há agora mais baleias e tartarugas do que quando eu era miúda, porque muitos países as estão a proteger dos perigos. Onde foram criadas zonas de proteção, os peixes e outras criaturas têm vindo a recuperar.

Quão ameaçados estão os oceanos atualmente e quais são as maiores ameaças? A poluição, a pesca extensiva, os plásticos?
Os oceanos correm graves riscos devido às ações humanas, sobretudo desde há 50 anos ou mais, em parte porque aumentou a procura entre uma população que mais do que duplicou, mas também porque tecnologias concebidas para tempos de guerra continuam a ser usadas para acelerar a velocidade e o volume do transporte marítimo e para encontrar, capturar e comercializar vida selvagem dos oceanos a uma escala industrial. Sonares desenvolvidos para detetar submarinos são agora utilizados para encontrar peixes. Uma navegação mais sofisticada facilita o regresso a localizações precisas onde espécies selvagens são abundantes. Novos materiais, sobretudo redes, fios e armadilhas sintéticos, tornaram o equipamento de pesca muito mais barato e, consequentemente, “descartável”. Os oceanos estão entupidos com redes abandonadas ou perdidas, extensos fios, armadilhas e outros dispositivos que, todos os anos, prendem e matam milhões de peixes, mamíferos marinhos, pássaros e outras criaturas. Anualmente, a pesca ilegal, que não é declarada e não regulamentada, remove ou destrói milhões de animais selvagens, além dos mais de 100 milhões de toneladas de vida selvagem oceânica que são capturados de forma legal. As leis que regem a captura de peixes e de outros animais selvagens deveriam ser ajustadas, refletindo a realidade das mudanças nos oceanos. Plásticos e outros materiais sintéticos que, de um modo geral, foram altamente benéficos para a civilização humana também se tornaram uma ameaça séria para a vida na Terra. É um enorme problema quando a vida selvagem se enreda ou ingere aqueles materiais, mas ainda mais preocupante é o impacto dos micros e dos nanoplásticos, criados quando os materiais de plástico se degradam, mesmo ao nível molecular. Estes pequenos fragmentos estão no ar, na água, no solo e nos corpos de muitas formas de vida, incluindo na dos humanos. Quem come vida selvagem dos oceanos também se expõe ao que estes animais consumiram enquanto nadavam.

Será uma ilusão pensar que viver numa cidade sem mar não causa danos aos oceanos? Somos todos responsáveis por eles?
É uma ilusão pensar que alguém poderá viver sem os oceanos. Mesmo que nunca se veja ou toque no oceano, ele toca-nos sempre que respiramos, sempre que bebemos água. Da mesma forma, todas as nossas ações em qualquer lugar terão, em última análise, impacto em toda a parte. Até coisas pequenas coisas podem fazer a diferença, como as toxinas que deitamos pelos canos abaixo e que acabam por chegar aos oceanos ou o que escolhemos comer – ou não comer. Ninguém pode fazer tudo, mas todos podemos fazer algo para ajudar a manter um planeta saudável.

A organização Mission Blue está a trabalhar com as comunidades locais em dezenas de pontos espalhados pelo globo. Aqui no “Hope Spot” de Cabo Pulmo, México (Kip Evans/Rolex)

Por que motivo iniciou a Mission Blue, a fundação não lucrativa criada para proteger e explorar os oceanos da Terra, e o que envolve este projeto?
A motivação para iniciar a Mission Blue foi, basicamente, encontrar um lar para o conceito de Hope Spots [locais de esperança] – uma rede de Áreas Marinhas Protegidas (AMP) em todo o mundo que são de vital importância para a saúde dos oceanos, o coração azul do nosso planeta. Iniciei uma organização não lucrativa depois de ganhar o Prémio TED, em 2009, estabelecendo uma relação com a Google para incluir os oceanos na Google Earth. Comecei a colaborar com a National Geographic, com a Google, com a empresa que criei – Deep Ocean Exploration and Research – e com pessoas do mundo inteiro, para tentar agregar toda a preocupação existente com a proteção da Natureza. A ideia da Mission Blue é continuar a exploração, para que possamos saber mais. Isso exige tecnologia para explorar e definir a natureza do que está lá, bem como partilhar esta visão o mais amplamente possível, não apenas com cientistas mas com o público em geral. E isso requer inspirar as pessoas a agirem e a dizerem: “Preocupo-me com esta parte do oceano. Quero fazer dela um Hope Spot e prometo àqueles a quem inspiro que cuidarei deste lugar.” Um Hope Spot pode ser um local em boas condições ou danificado pelo tempo, mas que pode ser restaurado. Em 2009, o golfo da Califórnia tornou-se um dos primeiros Hope Spots. As Galápagos são outro exemplo de Hope Spot, tal como a baía de Chesapeake. Fica no quintal de Washington D.C. e foi destruída. O Bunaken Marine Park, na Indonésia, foi igualmente reconhecido como Hope Spot, em 2018. Estes são apenas alguns exemplos.

O objetivo declarado da Mission Blue é ajudar a proteger 30% dos oceanos até 2030. Como vai trabalhar com comunidades e organizações conservacionistas para atingir este objetivo?
A meta global de “pelo menos 30%” não deverá ser alcançada por nenhum governo isoladamente. Atingir este objetivo exige um esforço em massa e em conjunto de vários governos, organizações não-governamentais e da sociedade civil, abordando-se a questão de uma vasta diversidade de ângulos e opiniões. No topo da agenda, não está apenas expandir a cobertura das áreas marinhas protegidas, dos atuais 8% para pelo menos 30%, mas também aumentar o nível de proteção oferecido para cada AMP. Hoje, só 2% destas estão totalmente protegidas. Para podermos reconstruir a resiliência no nosso oceano esgotado, é preciso impedir atividades prejudiciais e assegurar que as AMP têm níveis elevados e proteção. A vantagem é os Hope Spots serem propostos pela comunidade para a comunidade, visando melhorar a proteção dos oceanos. Estabelecer compromissos para a conservação ao nível local é a chave para a conservação a longo prazo.

Sylvia Earle durante uma expedição no México em 2017 (Kip Evans/Rolex)

O que a levou a deixar de ser uma exploradora para se tornar uma das maiores ambientalistas do mundo e promotora da Iniciativa Perpetual Planet da Rolex?
Há muito tempo que me move um sentido de urgência quanto ao que posso fazer como cientista – e como ser humano, unindo-me a outros seres humanos para marcar a diferença e deixando de consumir o mundo natural para o proteger. Seja como exploradora ou cidadã preocupada, é nossa obrigação salvar o planeta para gerações futuras. As pessoas dizem que sou uma ativista, mas eu considero-me uma cientista. Eu exploro e informo. A exploração abre-nos os olhos para o que está a acontecer aos ecossistemas da Terra. É por isso que a Perpetual Planet, da Rolex, ao dar ênfase à exploração, como meio de proteger o planeta, é tão importante.

Que conselho dá à próxima geração que, olhando para o futuro, procura soluções para os desafios ambientais, na esperança de ajudar a criar um planeta sustentável?
Em primeiro lugar, que reconheça os superpoderes que tem, o atual conhecimento sem precedentes e que não existia e não podia ter existido antes. Depois, que use esse superpoder para fazer a diferença. Todos nós, individual e coletivamente, devemos respeitar a Natureza e cuidar dela, tratar os oceanos, e o restante planeta vivo, como se as nossas vidas dependem disso – porque dependem.

O número de tartarugas em Bunaken, na Indonésia, “Hope Spot” desde 2018, disparou desde que as medidas de proteção estão em vigor (Michale Aw)

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

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