Em contrarrelógio para salvar os cavalos-marinhos da ria Formosa

Em poucos anos passámos de uma comunidade com quase dois milhões de cavalos-marinhos na ria Formosa, de longe a maior densidade populacional em todo o mundo, para pouco mais de 150 mil indivíduos. A devastação foi de tal ordem − em menos de duas décadas − que seria necessária uma dose extra de fé para acreditar no milagre da multiplicação destes peixes. No entanto, Miguel Correia, investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMar) da Universidade do Algarve, acredita que temos razões para estar otimistas. Justifica-o com a criação de duas zonas de proteção na ria: “Uma coisa fantástica, que nunca pensei que pudesse vir a acontecer.

Não é fácil descobrir um cavalo-marinho na Natureza. São animais extremamente pequenos, com uma capacidade de camuflagem impressionante. “É como encontrar o Wally”, brinca. Depois de incontáveis mergulhos à sua procura, Miguel realizou os últimos censos à população na ria, consagrando os seus dias a estudar o pequeno peixe. Coordena também, a nível europeu, as ações no âmbito da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Mas o que se passou, então, para chegarmos a um panorama tão desolador? Como se formou o que nas palavras do biólogo foi uma “tempestade perfeita”, que atingiu tão fortemente a população de cavalos-marinhos na ria?

Miguel Correia durante um trabalho de campo na ria Formosa.

Parte da explicação encontra-se nas alterações climáticas, e no consequente aumento da temperatura das águas, que trouxe duas espécies invasoras: o caranguejo-azul do Mediterrâneo, um dos poucos (potenciais) predadores dos cavalos-marinhos, e uma alga que veio competir com as pradarias, o habitat natural da espécie. “O nome científico é Caulerpa prolífera, o que dá uma boa ideia da sua capacidade para se expandir.” Porém nada bate a ação direta do homem, começando pelo “excesso de tráfego marítimo, sobretudo na altura do verão, quando inúmeros barcos fundeiam em zonas de pradaria e destroem ainda mais o habitat com as suas âncoras”, e terminando na pesca ilegal, responsável “pelo desaparecimento de centenas de milhares de indivíduos”.

Estima-se que todos os anos sejam mortos 70 milhões de cavalos-marinhos no mundo − para alimentar a procura crescente da medicina tradicional chinesa, que utiliza estes animais para curar maleitas como a asma e à impotência sexual. Na ria Formosa, o alerta soou em 2016, quando surgiram os primeiros relatos de “pescadores que se vangloriaram de terem apanhado 400 e 500 cavalos-marinhos”. Relatos rapidamente confirmados por apreensões, algumas até em Espanha. “Antigamente”, conta o investigador do CCMar, “existia a tradição de secar e oferecer como amuleto, mas nunca houve o propósito específico de os apanhar”.

No laboratório do CCMar, na Universiade de Faro, onde faz a criação de cavalos marinhos.

Alertada para o problema em 2018, a Fundação Oceano Azul montou uma campanha de sensibilização (que tem Miguel Correia como consultor científico) junto da população local, “procurando sempre incluir todos os intervenientes”, as empresas marítimo-turísticas, os pescadores, “que na sua maioria nunca aderiram a este comércio ilegal”, a autoridade marítima, os municípios, o CCMar, o Instituto da Conservação da Natureza e a Agência Portuguesa do Ambiente. “Conseguimos montar um projeto com um alcance abrangente” e o início de uma ação que levou à criação das duas zonas protegidas, onde os cavalos-marinhos terão todas as condições para prosperar. O trabalho de base está feito e “os sinais de mobilização das populações” e a “crescente preocupação dos municípios com a proteção da biodiversidade” justificam o otimismo de Miguel Correia, de que ainda será possível recuperar as populações na ria Formosa.

O objetivo agora será tentar mapear toda a costa portuguesa (São Miguel, nos Açores, Sesimbra, os estuários do Sado, do Tejo e a ria de Aveiro são alguns dos locais já identificados) e juntar esses dados aos de outras regiões no Atlântico e no Mediterrâneo onde também existem as duas espécies presentes em Portugal. Isto irá permitir à União Internacional para a Conservação da Natureza definir um estatuto de proteção − algo que estranhamente ainda não acontece “precisamente por não existirem dados suficientes”. A classificação parece urgente, basta recordar, como Miguel fez, um mergulho feito em 2012 onde encontrou mais de 120 cavalos-marinhos, “mais recentemente voltei a esse local e já só restava um!”

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