O guardião dos tubarões-baleia, os maiores peixes do mundo

Foto: Franck Gazzola

“Sempre me vi a trabalhar com animais, até porque cresci no meio de cavalos.” Brad Norman podia ter sido veterinário ou cavaleiro, mas os pais também lhe passaram o amor pelo mar, e foi essa a paixão que acabou por prevalecer. Levou-o para a Biologia Marinha e, mais tarde, para a defesa do calmo gigante dos oceanos, o tubarão-baleia.

A relação entre o biólogo australiano e o maior peixe do mundo começou há quase um quarto de século, no recife de Ningaloo, na costa noroeste do país. “Ver um animal daqueles, do tamanho de um autocarro, a nadar calmamente na nossa direção, e depois afastar-se com toda a graciosidade e sem qualquer receio, é uma experiência extraordinária. De tirar o fôlego”, recorda.

Mas, de regresso à superfície, ficou estupefacto com a pouca informação disponível. “Os tubarões-baleia estavam envoltos em mistério”, conta. Foram descobertos só em 1828, apesar de existirem desde o Jurássico, e até meados da década de 80 do século passado tinham sido reportados apenas 350 avistamentos. Havia, no entanto, a perceção de que os seus números estariam a diminuir e foi quando percebeu que podia “contribuir para fazer a diferença” que decidiu agir.

Brad durante uma delicada operação de colocar um identificar num tubarão-baleia, o maior peixe do mundo (Franck Gazzola/Rolex)

Com a sua equipa, adaptou um software da NASA, desenvolvido para o telescópio Hubble identificar estrelas no céu, para reconhecer também cada um dos membros da espécie. A pele destes tubarões lembra de facto um céu noturno, com inúmeros pontos brancos cujo padrão nunca se repete, como numa impressão digital. E se hoje estão registados mais de 76 mil avistamentos, em 50 países espalhados pelo mundo, a eles se devem. Esses avistamentos permitiram inclusivamente identificar já 12 mil indivíduos.

O processo é simples: de cada vez que um mergulhador, um pescador ou um simples turista avistar um tubarão-baleia e conseguir tirar uma fotografia, pode depois enviá-la para o site whaleshark.org, onde é analisada pelo tal algoritmo e comparada com as outras fotos na base de dados, para perceberem se é um tubarão já conhecido ou um novo animal. “Essa pessoa recebe depois um email com a história do tubarão, e continuará a receber se ele voltar a ser visto.”

Mesmo quem não tem por hábito nadar com tubarões pode também participar, adotando um dos tubarões descobertos e ajudando a financiar toda esta operação. Se o fizer, passa também a receber os alertas sempre que o “filhote” é avistado, e pode até dar-lhe um petit nom carinhoso, como Bolinhas. Norman chamou ao seu primeiro tubarão Stumpy e ainda hoje se encontram com alguma regularidade, porque faz parte de um grupo que todos os anos regressa a Ningaloo, entre março e abril.

Um tubarão-baleia afasta-se, depois de lhe ter sido colocado um identificador. Estes animais chegam a ter o tamanho de um autocarro (Franck Gazzola/Rolex)

Na viragem do milénio, Brad desenvolveu também o primeiro relatório sobre o tubarão-baleia para a União Internacional para Conservação da Natureza, que o classificou na Red List como “Vulnerável”. Em 2016, e na posse de informações mais precisas, subiu o alerta para “Em Perigo” e desde então “nada mudou, nem deverá mudar nos próximos tempos”, explica. Porque “mesmo que as ameaças fossem imediatamente reduzidas, a espécie ainda iria demorar muito tempo a recuperar”.

Não surpreendentemente, “os humanos são a maior ameaça”, com a produção de gás e de petróleo, as rotas de transporte, as pescas e atividades turísticas à cabeça dos fatores de risco. O principal desafio ainda é, para já, descobrir “os habitats mais críticos da espécie, nomeadamente os seus berçários”, para depois montar uma luta eficaz.

O sistema de identificação que criou permite que qualquer pessoa identifique estes animais através de fotografias (Franck Gazzola/Rolex)

Em 2006, após desenvolver o algoritmo da NASA, recebeu um Rolex Award for Enterprise, que o ajudou a montar este projeto pioneiro de cidadãos cientistas, “tal como um David Attenborough”, em busca do tubarão-baleia. O prémio juntou-o a outro laureado desse ano, o professor Rory Wilson, do País de Gales, que desenvolveu sensores mais eficazes para seguir animais no mar, e é neste binómio − avistamentos e trackers − que Brad se baseia para construir os padrões de comportamento que vão revelar as melhores formas de proteger este magnífico gigante dos mares. Com a ajuda de todos.

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

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